Justiça ao Poeta

COLETÂNEA Cláudio Veiga lança segunda edição de Sete Tons de Uma Poesia Maior, hoje, na Academia de Letras da Bahia.
Jornal A Tarde – 09/07/02

Carlos Ribeiro 


Há duas maneiras de olhar-se para os poetas parnasianos e simbolistas baianos, que, no primeiro quartel do século XX, deram o tom literário na província. Uma delas, vendo-os, com raras exceções, como meros representantes de um período decadente; membros de uma geração que se situava num período de transição entre o romantismo, que teve na poesia de Castro Alves seu grande momento, e o modernismo que levaria, ainda, alguns anos para consolidar-se.

A outra maneira seria a de reconhecer, em alguns daqueles poetas (sobretudo nos que se reuniram em torno da revista Nova Cruzada, entre 1901 e 1914), talentos de certa forma injustiçados, aos quais ainda não foi dado o devido valor, no contexto das letras do País. Nomes como os de Pethion de Villar, Pedro Kilkerry, Durval de Moraes e, principalmente, Arthur de Salles, que permaneceram circunscritos à província e cujo conhecimento de suas obras, conforme assinala Pedro Calmon, foi “ofuscado na distância, ou silenciado no tempo”. Restaurar a “grandeza humana” desses nomes seria, portanto, tarefa urgente e necessária de alguns eruditos.

Estudo

O trabalho desenvolvido por Cláudio Veiga, professor emérito da Ufba e presidente da Academia de Letras da Bahia, é um bom exemplo dessa segunda perspectiva. Prestigiado estudioso e tradutor da língua e literatura francesas – inclusive com dois livros, Um Brasilianista Francês e Antologia da Poesia Francesa (do Século IX ao Século XX), premiados pela Academia Francesa -, Veiga trouxe a lume, no ano passado, um estudo sobre a vida e a obra de Pethion de Villar, editado pela Record. Agora é a vez de publicar a segunda edição de Sete Tons de Uma Poesia Maior – Uma Leitura de Arthur de Salles (138 páginas), que será lançada, hoje, das 17 às 21 horas, na Academia de Letras da Bahia.

O livro já é bastante conhecido no meio literário. Após o lançamento, em 1984, colheu elogios de grandes nomes da literatura e da crítica brasileiras. Afrânio Coutinho referiu-se a ele como “notável pelo estudo introdutório e pela seleção de poemas do grande Arthur de Salles”. Josué Montello o saudou como um “belo ato de justiça literária”, obra que “prestou mais um serviço, sobretudo à poesia brasileira”.

Além dos poemas, escritos em diversos momentos da produção de Salles, o volume traz um estudo introdutório no qual Veiga analisa alguns aspectos da vida e da obra do poeta. Inicia, aliás, revelando o interesse de Monteiro Lobato em publicar uma seleção de seus poemas – proposta logo refutada por Salles, que preferia uma edição integral do seu primeiro livro, Poesias. O que só viria a acontecer, em 1973, com a publicação da Obra Poética (dispersos e inéditos). Isto é, 11 anos depois de sua morte, ocorrida em 1952.

Roteiro inverso

Nascido em 1879, Arthur de Salles começa a publicar seus poemas em 1901, em revistas locais, tornando-se logo um nome conhecido em Salvador. Segundo Veiga, grande parte de suas poesias, publicada no período que separa a Guerra de Canudos da Revolução de 30, dispersou-se em revistas. Somente em 1920, ele lançaria o primeiro livro, Poesias. “Em 1928, é lançado Sangue Mau, que, em 1948, será reeditado, acrescido de O Ramo da Fogueira, vindo os dois poemas sob o título Poemas Regionais, diz Veiga, lembrando ser esse o ano, também, da publicação da tradução, feita por Salles, de Macbeth, publicada no Volume X da coleção Clássicos Jackson.

Profícuo leitor e admirador dos clássicos latinos e da obra de Shakespeare, Castro Alves e Cruz e Souza, Arthur de Salles traçou um roteiro inverso ao do modelo francês, cuja seqüência foi romantismo-parnasianismo-simbolismo. “Sua poesia, de natureza simbolista a começo, deixará de sê-lo, aproximando-se de um misto de parnasianismo e naturalismo”, diz Veiga.

O fascínio pelo mar, a profusão de imagens e a musicalidade dos versos são outras características apontadas na obra do poeta. Como se pode ver, entre diversos exemplos, na última estrofe de Manhã no Mar: “E o mar, peixe a fugir, entre as malhas se perde./ Debate-se, palpita, anseia, inquieto e verde,/ Aceso na explosão multicor das escamas”. Vale lembrar que ele é o autor da letra do Hino ao Senhor do Bonfim, tão marcante na memória afetiva-religiosa dos baianos.

Participante de um período morno da nossa história literária, Arthur de Salles pode ser visto como um daqueles poetas de uma “belle époque epigônica dos becos e botecos da antiga metrópole colonial”, aos quais se referiu Cid Seixas. Mas, também, guardadas as devidas proporções, como um daqueles “mestres do passado”, analisados por Mário de Andrade. A quem
devemos prestar homenagem e reconhecer o valor.

A nova edição de Sete Tons de uma Poesia Maior deve
ser, portanto, saudada como uma contribuição importante para o conhecimento de um autor que, embora tenha passado quase que indiferente ao sopro de renovação da poesia modernista, tem seu lugar garantido no cânone do século XX.

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