Jornalismo com Humanidade

Livro reúne reportagens literárias de dezesseis autores que propõem uma abordagem mais humana e contribuem para a renovação do jornalismo no Brasil. 

Jornal Racunho – 03/2008
Carlos Ribeiro 

A leitura de Jornalistas literários – Narrativas da vida real por novos autores brasileiros, organizado pelo jornalista, escritor e professor universitário Sérgio Vilas Boas, proporciona ao leitor uma fruição que é hoje rara em matérias veiculadas na Grande Imprensa.

Embora se possa dar o mesmo nome, “reportagem”, a textos veiculados em jornais e em publicações como esta, cada dia mais freqüentes no mercado editorial brasileiro, há uma característica que, na chamada narrativa não-ficcional, hoje quase que restrita à mídia livro, imprime na mente e na sensibilidade do leitor uma marca especial: a experiência. Uma experiência compartilhada com o leitor, não na mera exposição de fatos, mas em textos que incluem personagens reais, vivências, diálogos, pensamentos, histórias, cenários, ambientes, sentimentos e emoção. Enfim, todas essas qualidades que, potencializadas pela linguagem expressiva, convergem na humanização do fazer e do produto jornalísticos.

Diversamente dos profissionais que nas redações dos jornais diários se limitam a levantar dados, com base em depoimentos de suas fontes, e os reportam para os leitores num modelo de texto previamente definido, visando uma suposta exposição objetiva dos fatos, os autores que assinam as matérias reunidas neste livro colocam nos seus trabalhos algo mais: o seu estilo, o seu ângulo de observação e a marca de sua sensibilidade; a possibilidade de construir um microcosmo e uma atmosfera, e personagens que, tais como os de uma obra de ficção, passam a pertencer ao repertório afetivo do leitor.

São personagens com os quais o leitor se identifica e dos quais não mais se esquece. Vale assinalar que o verbo construir, neste caso, tem características diversas da criação ficcional, ou seja, o personagem da obra jornalística é construído através de depoimentos, documentos e da própria observação do repórter – e não de um ato de invenção, embora esta não seja inexistente em muitos textos jornalísticos. A narrativa de não-ficção, ao contrário das reportagens convencionais, assume a perspectiva inescapável de versão da realidade. Cabe ao jornalista dar-lhe a credibilidade necessária, cruzando informações e investigando a fundo os temas propostos.

As dezesseis reportagens que constituem Jornalistas literários trazem, em maior ou menor grau, essas qualidades. Soube-se evitar, felizmente, o pecado mais vulgar do gênero: a literatice, a subjetividade excessiva e o palavrório oco que, em tempos idos o desacreditaram abrindo caminho para o modelo americano da abordagem objetiva dos fatos.

Num leque amplo de assuntos, subdivididos em histórias temáticas e histórias biográficas, os autores apresentam textos densos em informação, frutos de um mergulho em questões tão diversas como as memórias ferroviárias de Paranapiacaba, a superação do medo do dirigir e a comunidade armênia paulistana, por um lado, além dos perfis biográficos do jornalista gaúcho Marcos Faerman, da clarividente Tia Neiva, sacerdotisa do Vale do Amanhecer, no Planalto Central, e de um pescador do mar catarinense, entre outros.

TEMAS INSTIGANTES
 A reportagem “Nos trilhos do passado”, dividida em duas partes, assinadas por Márcio Seindenberg (a 1ª) e por Luciana Taddeo (a 2ª), impressiona pelo levantamento minucioso de informações históricas, pela descrição sóbria e precisa dos ambientes e dos personagens, pela capacidade de expressar o contraste entre os dias de glória e a decadência da vila de Paranapiacaba, sede, nos anos 60, da São Paulo Railway Company, administradora da primeira ferrovia paulista. Dentre todas as matérias do livro foi a que deixou marca mais funda na sensibilidade deste resenhista, talvez pela forma como a jornalista recria a atmosfera sombria, decadente e nevoenta de uma Comala tupiniquim, habitada por personagens tristes e desesperançados com suas histórias de um passado venturoso.

As mais tocantes, entretanto, do ponto de vista humano, são as reportagens “Velha nova Armênia” e “As artérias do Agar”, assinadas respectivamente por Julienne Gananian e por Patrícia Baptista. A primeira revela, com sensibilidade e delicadeza o funcionamento de um asilo de idosos numa comunidade armênia paulistana. A segunda, com características similares, mostra o funcionamento do Sítio Agar, em Cajamar, interior de São Paulo, criado em 1993 para o atendimento de crianças e jovens portadores do HIV. Ambas cumprem a nobre função jornalística de dar voz a pessoas comuns, não apenas para ouvir suas queixas e reivindicações, mas para compartilhar suas ricas, pois que sofridas, experiências.

Na linha dos excluídos, duas reportagens marcam presença: “Teatro das esperanças”, de Maria Lígia Pagenotto, sobre o casal de sem-tetos Sueli e Rogério, e “Futebol que se joga na rua”, de Luciana Noronha. Dois bons textos, do ponto de vista jornalístico, pelas informações que levanta e transmite, mas um pouco menos expressivas na dimensão estética que possibilitaria ao leitor não apenas saber sobre, mas também sentir o universo retratado.

“De árvores e pulmões”, assinada por Karina Müller, na qual retrata iniciativas voltadas para o plantio de árvores como forma de neutralizar a emissão de CO2, é um texto com características ensaísticas, na linha do New York Review of Books. Gênero, aliás, escasso na imprensa brasileira e no qual a autora se sai muito bem.

Já em “O medo em marcha-ré”, Bruno Pessa, apesar de alguns trechos confusos, mais especificamente no que tem como subtítulo “De mãe para filho”, faz uma abordagem interessante sobre o medo de dirigir, “fobia disseminada na sociedade, reconhecida pela psicologia e tratada em auto-escolas e clínicas especializadas, presentes em grandes centros do país”. A limpidez e vivacidade do estilo de Pessa é uma marca também de “Vidas em concreto”, de Paloma Lopes, sobre o mega-edifício Copan, em São Paulo, gigantesco projeto arquitetônico dos anos 50 que, segundo as más línguas, foi rejeitado pelo seu autor, Oscar Niemayer. Com linguagem mais solta e dinâmica, é a menor de todas as reportagens – exemplo de que grande reportagem não é, necessariamente, reportagem grande. Fica, no entanto, após a leitura, a vontade de que o autor mergulhasse um pouco mais e revelasse, para nós, as entranhas daquela babel, apenas entrevista.

Deixo para o final as matérias “Pasta & Passione”, de Lorena Tovil Schuchmann, sobre um pastifício de Porto Alegre, e “Dinossauros imortais”, sobre rock, de Zé Augusto de Aguiar, não por serem textos menos expressivos, mas, confesso, pelo fato de que os temas abordados não conseguiram me entusiasmar. Reconheço, na primeira, as virtudes de uma bem construída reportagem, amplamente documentada e bem escrita. Na segunda, a mais assumidamente “opiniosa” do volume, pois que escrita por um roqueiro apaixonado, fica a sensação de que interessa mais à tribo que compartilha com o autor idéias como as de que, no ensino escolar, não se pode discutir a exploração e provação do homem sem Bob Dylan, e sem Metallica em “The unforgiven”. O que não é, absolutamente, a opinião deste resenhista.

PERFIS GENEROSOS
 Na linha das histórias biográficas, os autores demonstram um evidente envolvimento com seus biografados – o que é positivo, por um lado, mas também questionável. Ao colar a narrativa numa versão monolítica, cuja origem não é muito clara, a exemplo de “A clarividente Neiva”, de Isabel Fonseca, ficamos nós, leitores, tomados por uma dúvida: não seriam, essas narrativas, construções idealizadas dos próprios personagens? Não haveria outras versões que, ao serem cruzadas com a que nos foi apresentada, enriqueceriam mais esses perfis? Na reportagem citada, há apenas um momento em que o discurso do Vale do Amanhecer é questionado pela filha de uma das suas seguidoras. E, mais adiante, num trecho no qual se mostra a decadência ocorrida após a morte da grande líder, em 1985.

A simpatia dos jornalistas pelos seus personagens é evidente em todas as reportagens: no perfil de Marcos Faerman, “um humanista radical”, feito por Isabel Vieira, que, entretanto, não omite aspectos auto-destrutivos da personalidade do jornalista; na excelente reconstituição da vida do pescador Marino Streck, feita por Manuela Martini Colla, num texto criativo e poético; em “O outono de Fernanda”, registro sensível, feito por Felipe Modenese, do drama de Fernanda, 26 anos, submetida a uma delicada cirurgia para extração de um tumor na cabeça, e, finalmente, em “Simplesmente mulata”, na descrição da história de amor do lavrador Domingos, do interior de São Paulo, por Resplandina, a Mulata do título, história que se prolonga por muitos anos, até a morte da amada. Exemplo de que o jornalismo pode servir, sem nenhum demérito, para enfocar histórias de amor de pessoas pobres e anônimas, e não apenas crimes, escândalos e a vida das celebridades.

As reportagens do livro foram produzidas dentro do programa de pós-graduação da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, pelas turmas de 2005 e 2006. Elas reforçam uma tendência de renovação e humanização do jornalismo brasileiro que deve ser incentivada. É, como diz Celso Falaschi, na apresentação, uma iniciativa no sentido de que o jornalista assuma-se como “narrador da realidade, com o fim único de gerar sentidos”. Pois que “Narrar é isto: a busca de um sentido”.

O AUTOR

Sérgio Vilas Boas é jornalista, escritor e professor doutor do curso de pós-graduação lato sensu em Jornalismo Literário da ABLJ. É autor dos livros Perfis: e como escrevê-los (2003), Biografias e biógrafos (2002) e Os estrangeiros do trem N (prêmio Jabuti de reportagem 1998), entre outros. Editor-executivo do site www.textovivo.com.br, é criador da coleção Formação e informação – Jornalismo para iniciados e leigos, editada pela Summus Editorial.

JORNALISTAS LITERÁRIOS: NARRATIVAS DA VIDA REAL POR NOVOS AUTORES BRASILEIROS / Organização de Sérgio Vilas Boas / Summus Editorial, 2007, 315 páginas

Trecho
“Agora são 17h40. Um final de tarde típico de verão: mar calmo e gaivotas voando. A brisa que vem do mar salga o ar vespertino. Com os olhos semicerrados e o rosto cheio de vincos devido à claridade excessiva, Martino tira lentamente um maço de L&M Lights do bolso e risca um fósforo para acender um cigarro. Com um ar de autoconfiança (mas sem qualquer afetação), reflete sobre o seu ofício de toda a vid: “Ser pescador é pra quem gosta de sofrer bonito”. Como assim? “É ser sozinho, é ter liberdade, é ser um pouco triste no lugar mais bonito do mundo, o mar.” (O pescador Marino Streck. Manuela Martini Colla)

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