Jogo de Representações à Luz de Luigi Pirandello

Sob a curadoria do poeta, desenhista e pintor Edson Calmon – ele também um dos expositores –, André Barbosa, Ivonete Moniz Pacheco e Lúcia Alfaya abrem no dia 7, na Academia de Letras da Bahia, a mostra “Quatro autores à procura de seus personagens”. Como o título sugere, inspirada em Pirandello. Na inauguração, uma surpresa aguarda o público: as 15 telas em técnica mista (látex, acrílica, colagem) estarão escondidas por um pano. O ator Vitório Emanuel fará a leitura do texto “A luz da outra casa”, do autor siciliano. O dançarino Markley virá na seqüência e, ao som de uma sinfonia de Bach, tocada ao violino pelo músico Mário Gonçalves, da Orquestra Sinfônica da Bahia, ele irá, literalmente, descobrir as obras. Não é a primeira vez que Edson Calmon recorre à literatura como estímulo à criação plástica.
“Esperando Godot”, de Samuel Beckett, já está nos seus planos.

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 Esta exposição nasce do olhar de quatro artistas plásticos baianos sobre dois textos de um dos fundadores da literatura e da dramaturgia modernas: o romancista, contista, poeta e teatrólogo siciliano Luigi Pirandello (1867-1936). Da famosa peça Seis personagens à procura de um autor retiraram não somente a inspiração para o título da mostra, mas o uso da metalinguagem como instrumento de reflexão sobre o ato de criação; do conto “A luz da outra casa”, um dos mais belos da literatura universal, a postura de um olhar que se alimenta, como voyeur, de uma felicidade que lhe é exterior: da felicidade que, para ser possuída, terá inevitavelmente que ser destruída. Eis o paradoxo e a tragédia de um mundo e de uma época “em que a luz de Deus se apagara”, como disse o próprio autor italiano – um dos que romperiam com o naturalismo e com o apego à ilusão de realidade no teatro e na literatura.

Quatro autores à procura de seus personagens é, portanto, uma reafirmação do (anti)ideal pirandelliano, mas também seu reverso: como uma imagem refletida no espelho. Daí a presença, em trabalhos de diversos estilos, de um motivo central que os perpassa: o do crepúsculo dos tempos heróicos, num mundo que emerge de seus escombros, em cenários urbanos, com homens tristes e obscuros vagando por ruas desertas; de janelas abertas para a noite profunda; de vultos sombrios que deixam de ser protagonistas da vida para tornarem-se observadores furtivos; da mulher como objeto do desejo e de uma utopia irrealizada. Mas também de um distanciamento ainda maior do olhar, numa era pós-moderna em que a própria realidade parece tornar-se simulacro.

Aqui está, portanto, nestes trabalhos, a percepção tão cara a Pirandello do artista como ser filosófico, que não apenas reflete sobre o mundo, mas também, e, sobretudo, sobre a forma e o ato de representar o mundo. Nestas pinturas e colagens misturam-se e se fundem, fragmentariamente, as personagens de Pirandello e ele próprio; o dramaturgo e os artistas plásticos; as janelas do conto e as do ateliê dos artistas; a Lua no céu noturno e a solidão de todos, e eles próprios, flagrados na tentativa inútil de dar um sentido ao mundo. Edson, André, Ivonete e Lúcia sabem dessa impossibilidade. No entanto, como filhos do Caos, ainda assim, persistem.

CARLOS RIBEIRO | é jornalista e escritor

Se acaso o vissem, compreenderiam logo quanto era infundado o seu receio. Aquele quartinho triste, escuro, tapado pela casa fronteira, condizia bem com o temperamento do inquilino.

Tulio Buti andava sempre sozinho, sem mesmo os dois companheiros dos solitários mais equívocos: a bengala e o cigarro. Com as mãos enterradas nos bolsos do capote de ombros encolhidos, dir-se-ia que incubasse o ódio mais profundo contra a vida.

(…) não escrevia nem recebia cartas; não lia jornais; não parava nem se virava para ver o que quer que acontecesse pela rua e, se alguma vez a chuva o colhia de improviso, continuava caminhando, como se nada tivesse acontecido.

Pirandello, em “A luz da outra casa”

 

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