Insólitos Venenos

A reedição pela 7 Letras de Os venenos de Lucrécia, de Sonia Coutinho, possibilita a leitura ou releitura de um título-chave no conjunto da obra da autora baiana. Publicado em 1978, ganhador do Prêmio Jabuti, o volume reúne dez contos cujas principais marcas são o refinamento e o apuro formal de uma escrita que conduz o leitor a um complexo universo de conflitos familiares, frustrações íntimas, desencontros amorosos, seres solitários e misteriosos. E, dentre estas marcas está, com destaque, a delicadeza através da qual nos faz vislumbrar o abismo interior de seus personagens: sua solidão extrema, suas seduções, perversões e fetiches, num território perturbador onde realidade e delírio se confundem.

O cruzamento entre o mistério e o prosaico, o grotesco e o sublime, muito bem apontado por Cristina Ferreira-Pinto, nas orelhas do livro, é um dos trunfos de Sonia. É através dessa insólita mistura que ela consegue levar seu leitor àquele “vale da inquietude”, referido por Edgar Allan Poe, e à conseqüente perplexidade perante os desvios da condição humana. Bailarina do abismo sabe como poucos mergulhar no âmago das relações familiares e amorosas, denunciando-lhes o lugar-comum, os estereótipos e os preconceitos que as envolvem – sobretudo (mas não somente) a partir de um determinado modelo de mulher madura, solitária, distanciada de suas raízes, na cidade moderna. Modelo que se desdobra em personagens paradigmáticas (Sibila, Cordélia, Lucrecia) que guardam similitudes na sua rica diversidade.

Tomemos, como exemplo, três dos dez contos do livro. “O leque do Afeganistão”, que abre o volume, dá o tom da obra. Nele, vê-se o complexo relato da relação tumultuada de um austero professor, “homem de seus 50 anos”, com Sibila, 35, “talvez (…) um tanto bonita e jovem demais para a austeridade do marido”. A incomunicabilidade do casal, como de tantos outros pares na obra de Sônia, é agravada pela introdução no lar de um Desconcertante Objeto: um exótico leque, cuja aquisição, numa sofisticada boutique oriental de Ipanema, precipita uma série de mudanças inquietantes que levam, de devaneio em devaneio, a um final ambíguo, talvez trágico; talvez, apenas, melancólico.

Em “Cordélia, a caçadora”, as sucessivas modificações da personagem título – de uma solteirona tímida e introvertida, “com Infinita Vocação para a Virtude”, em uma mulher casada, iludida por um marido “perfeito”, rico, culto, cortês, mas cuja perversão sadomasoquista passa a exigir-lhe estranhas “Concessões Sexuais”, e, posteriormente para uma platinum blonde, forte e poderosa, que excursiona, à noite, pelas calçadas de Copacabana, mostram uma mudança radical da condição de caça para a de caçadora – de cordeiro para a de lobo.

Em “Os venenos de Lucrécia”, agora narrado por uma voz masculina, o livro alcança seu clímax na ambígua relação de um estrangeiro recém-chegado a Salvador, de Nova Orleans, com “Uma bela Viúva, madura e rica, versada em Ocultismo e nas Artes Divinatórias” (a Lucrécia do título). Misteriosa femme fatale, que parece exercer, no espantado visitante, insólitas influências (“estaria eu intoxicado por estranhos filtros?”), levando-o ao receio de tornar-se mais uma vítima daquela que, num determinado momento de desvairado delírio, parece-lhe ser a própria guardiã do Hades. E ao ato extremo, mais jamais comprovado, do assassinato dessa mulher, de cuja existência guarda, como prova irrefutável, apenas uma calcinha de cetim vermelho e uma liga de negro organdi rufado, “preciosas peças que ponho no bolso do casaco, ao sair, ou debaixo do travesseiro, quando vou dormir”.

Também neste conto, como na maioria dos que compõem a contística de Sônia Coutinho, a realidade objetiva se perde num labirinto de desvairios, desejos, sonhos e delírios; em versões distintas de vozes que se entrecruzam, impossibilitando ao leitor qualquer visão unívoca dos acontecimentos. E, ao final de tudo, no deserto de carências de suas personagens, quando se lhes revela toda a fragilidade essencial, o que resta é o mistério. Não o sobrenatural, que reside nas longínquas distâncias do maravilhoso, mas aquele outro, que se manifesta no cotidiano, entre pessoas ditas normais, e que por isto mesmo é o mais estranho, o mais perturbador.

OS VENENOS DE LUCRÉCIA
Autora: Sonia Coutinho.
Editora: Sette Letras – Coleção Rocinante
95 páginas.

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