Histórias do Velho Chico

LANÇAMENTO – As paisagens e gentes do Rio São Francisco voltam à ficção brasileira, no romance de Carlos Barbosa, editado pela Bom Texto. 

Jornal A Tarde – 08/10/02
Carlos Ribeiro 

Um regionalismo do sertão ribeirinho, são-franciscano, mais próximo do obra de Wilson Lins”. É assim que o escritor baiano Carlos Barbosa define seu primeiro romance, A Dama do Velho Chico (Bom Texto, 243 páginas, R$ 30), que será lançado na próxima quinta-feira, a partir das 19 horas, no Salão Nobre do Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal.

Este é o segundo título do autor, que estreou na literatura em 1998, com o livro de poesias Água de Cacimba, obra que, como diz o escritor Ronaldo Cagiano, na orelha, “revelou seu talento e versatilidade na tradução poética de um mundo repleto de signos e idiossincrasias”.

Natural de Oliveira dos Brejinhos, no sertão baiano, onde nasceu em 1958, Carlos Barbosa escreve sobre paisagens, gentes, costumes e experiências que conhece muito bem: passou sua infância em Ibotirama, nas margens do Rio São Francisco, onde, aliás, vive, hoje, depois de ter-se aposentado.

Pois é justamente naquela vasta e culturalmente rica região que ele expõe, nas páginas do livro, a história trágica de Daura, a principal personagem, desenrolada entre mitos, lendas, histórias e vapores (gaiolas) que, como assinala Cagiano, transporta “gente, mercadorias, sonhos, esperanças e descrenças, pontificando histórias inusitadas”.

Regionalismo?

Histórias, diga-se de passagem, que não se resumem às narrativas com ênfase ao que comumente se chama de “cor local”, associada ao termo regionalismo. (A este respeito, vale abrir um parêntesis para transcrever um pequeno excerto do livro Itinerários do Conto – Interfaces Críticas e Teóricas da Moderna Short Story, lançado recentemente por Hélio Pólvora.

Após identificar “uma atitude de menosprezo, senão de hostilidade franca, ao regionalismo, assumida por pessoas despreparadas para o exercício da crítica literária”, Hélio questiona: “Eu gostaria de perguntar-lhes se consideram William Faulkner regionalista. Ou se Os Cossacos, de Tolstói, é romance regionalista. Ou se muitos contos de Hemingway, por se passarem em Michigan, são regionais). A contraposição entre regionalismo e universalismo desaparece, portanto, quando se entende, como Eduardo Portella (citado por Pólvora) que “a região é o mundo”.

Assim, apesar do autor assumir o rótulo de regionalista, o que importa no romance – que narra a história de Daura, uma adolescente de 15 anos, e sua tumultuada e trágica relação com três homens (o vaqueiro Agenor, o tio Vilino e o irmão Missinho) – é a qualidade do seu texto, a forma como conta o drama de seus personagens, num estilo correto, enxuto, preciso, como se pode ver no seguinte trecho: “O sol é um chicote de mil pontas a castigar o trecho de terra mais ignoto da região central da Bahia. Incandesce, relampeja, resseca o cenário. Lanceta, ofusca, exaure os seres. Uns e outros sendo um feixe de gravetos crepitantes no aguardo de faísca. Retorcidos, espinhosos, secos, inflamáveis. O tempo é de seca, corre julho. O chão se racha e a vida hesita em prosseguir viagem. O ajuntamento de tanta miséria forma uma imensa fogueira, prestes a resumir tudo em miragem cinzenta”.

Aí está, segundo Cagiano, “um autor em pleno domínio da arte ficcional”, que lança “um aguçado olhar sobre a profundidade dos sentimentos humanos, firmando um estilo vigoroso, que destoa do pastiche, do falso experimentalismo e das inócuas vanguardices que contagiam a literatura contemporânea”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *