Galos com Nova Plumagem

Jornal A Tarde – 23/03/02

Quarenta e três anos após sua estréia, em 1958, com o livro de contos Os Galos da Aurora, Hélio Pólvora reedita a obra, que será lançada, na próxima segunda-feira (25 de março), a partir das 18 horas, na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho. Mas não se trata, a rigor, de uma nova edição. Na verdade, o livro, agora intitulado Os Galos da Aurora & Outros Contos (Editora Casa de Palavras/Fundação Casa de Jorge Amado, 142 páginas, R$ 20), mudou, segundo o próprio autor, “a ponto de se tornar um livro novo, cujo título é mantido”. Dos 12 contos originais, apenas dois foram preservados integralmente, tendo sido os demais reescritos, refundidos e reaproveitados em outros livros do autor, conforme mostra Aramis Ribeiro Costa no elucidativo ensaio que acompanha o volume à guisa de prefácio.

Seja como for, vale a oportunidade de se ter mais um contato com a obra ficcional desse autor, que, sem dúvida alguma, está entre os mais importantes contistas brasileiros contemporâneos. Desde sua estréia, Pólvora apresentou-se como um escritor maduro, ou, como disse então a comissão julgadora do Concurso de Contos de A Cigarra, do qual o conto homônimo foi vencedor, um “escritor feito”. De lá para cá, os 12 volumes de ficção publicados por Hélio (sem falar nos diversos livros de crônicas, poesia, crítica literária e antologias) consolidou essa trajetória de crescente complexidade no desenvolvimento de novas técnicas e da sua concepção de mundo. É sobre isto, entre outras coisas, que o autor de Mar de Azov fala em entrevista ao jornalista Carlos Ribeiro.


Carlos Ribeiro – Hélio, por que reescrever e modificar tanto um livro que, já na época do seu lançamento, foi saudado pela crítica como obra de um “escritor feito?”
Hélio Pólvora – Essa crítica não se referia a todo o meu livro de estréia, mas, principalmente, ao conto-título, que, segundo Aurélio Buarque de Hollanda e Paulo Rónai, estava na altura de Miguel Torga, “o admirável Torga de Bichos”. “Os Galos da Aurora”, conto, inspirou alguns escritores, do que me envaideço, embora temas e metáforas estejam na vida, à espera de colheita frutífera. O mesmo tema tratado por dois escritores jamais resultará em conto assemelhado, o ponto de vista de cada um ditará um texto novo, um desdobramento pessoal. O conto me satisfez, à época. Lembro-me que, depois de escrevê-lo, em estado de êxtase, saí meio ébrio para as ruas, sorrindo à toa, querendo abraçar desconhecidos em Copacabana. Com o tempo, senti necessidade de reforçar o meio-de-campo, isto é, o miolo do conto, a fim de que a metáfora da noite que tarda a passar e do amanhecer que reluta em se fazer dia fosse enfatizada. E, muito respeitosamente, patinando em gelo fino, mexi no miolo. Eu já tinha resolvido reescrever os demais contos, de forma mais radical, e trocar uns por outros, ressalvada a mesma atmosfera e circunstância dos contos originais. É que adquiri novas idéias acerca do conto literário, e, conforme expliquei em nota introdutória, um escritor tem o direito de mexer na sua obra, porque ela é dele, nasce dele, ainda que não necessariamente para ele.

Carlos Ribeiro – O que mudou, essencialmente, no livro e no autor ao longo desses 43 anos?
HP – Leituras, experiência de quem escreve às vezes profissionalmente, emulação e outros fatores criam no autor, quando este tem o hábito de se consultar e espreitar, um estado de inquietação quase que permanente. Toda obra de arte literária está inconclusa, ou deveria estar enquanto não ocorre o trespasse do seu autor. Somente então a obra se completa. Mesmo assim, continua subjetivamente a ser reescrita pelo tempo, pelas diversas análises que enseja. Creio que, nesses 43 anos, mais que o meu conto, eu mudei – e eu estou preso ao destino, à fatalidade do conto que escrevo. Sob este aspecto, não se vive, nem se escreve impunemente. Você certamente entende: sou por fora um vulcão adormecido, por dentro me arrebento e escorro em lavas.

Carlos Ribeiro – Não tem receio de melindrar os leitores? Aliás, Fausto Cunha refere-se ao conto “As Dríades”, do livro Mar de Azov, como “uma das páginas mais belas e perfeitas da moderna ficção brasileira”. E, no entanto, o senhor fez alterações nele, publicando-o posteriormente com o título de “Ninfas, ou a Idade da Água”.
HP – Os leitores haverão de perdoar-me, porque já perdoei a mim próprio. Também sou leitor, e leitor compulsivo, faço parte do universo dos leitores, convoco o leitor para espiar por sobre o meu ombro, e a intervir, quando escrevo. Por que não mexer nos meus textos, se a visão crítica pede mudanças, se o autor aprende, por exemplo, a arte de “esconder gavetas”, como faziam os romântico-realistas alemães do tempo de von Kleist? Além do que a arte de sugerir, induzir, escrever nas entrelinhas é um traço do ficcionismo moderno, acentuado por Tchékhov, por Joseph Conrad e, no Brasil, por Clarice Lispector, entre outros. Não reescrevi o conto “As Dríades”. Apenas, tendo-o selecionado para uma antologia pessoal, editada em Portugal, alterei algumas passagens, sem perda de substância, segundo acredito. A alteração maior foi no título. Gosto mais de “Ninfas, ou a Idade da Água”. É mais misterioso. Pretendo mantê-lo em futuras e prováveis reedições do volume.

Carlos Ribeiro – Como explicar que Hélio Pólvora não tenha pleno acesso, atualmente, às grandes editoras nacionais? Inclusive, considerando que é vencedor dos mais significativos prêmios literários, como o Nestlé e o Jabuti?
HP – Trata-se de uma questão de marketing – e há escritores que, infelizmente para eles, têm temperamento avesso à badalação, pudor de pedir, adular, lisonjear pessoas e instituições em benefício próprio. Em sociedade globalizada, como está a nossa, quem não força a atenção sobre si, está perdido. Mas eu prefiro perder-me para a mídia dos notórios eixos culturais, e em contrapartida achar-me por dentro, lá naquele espaço onde a coruja pestaneja. Veja, passei 32 anos no Rio, fui crítico literário do Jornal do Brasil, durante anos, de Veja e do Correio Braziliense – e da influência que acumulei em anos de jornalismo, muito pouco usufruí. Sequer me candidatei à Academia Brasileira de Letras, embora contasse com amigos poderosos que fariam tudo por mim. Nasci simples, nasci ingênuo – de uma ingenuidade complexa – e assim prossigo. Eu não insisto em bater em portas, não forço a entrada. Espero que descubram a pólvora – o que equivale a descobrir ou redescobrir Hélio Pólvora.

Carlos Ribeiro – Alguns escritores baianos, radicados no Rio e em São Paulo, acham que os autores que aqui residem deveriam acabar com o que consideram ser um ranço provinciano, expresso através de um tom queixoso com relação à forma como são tratados (ou ignorados) pela mídia e pelas editoras do Sul. Como o senhor vê esta questão? Existe, realmente, uma discriminação?
HP – Não me parece provincianismo. Claro que um escritor deve aproximar-se das altas esferas literárias, que apreciarão melhor a sua obra. Mas, no caso brasileiro, tais esferas parecem fechar-se em clube privativo, em conventículo. Em geral, os conventículos do eixo Rio-São Paulo nos ignoram. Sim, eu sei que editar livro é difícil, em qualquer lugar, mas a prática literária torna-se penosa quando certos epígonos a transformam em ação entre amigos. Deveria prevalecer o mérito, mas quem falou em qualidade? Em matéria de literatura nos impingem muita carne de gato em lugar de picanhas. Há discriminação quanto a oportunidades editoriais e, sobretudo, quanto à mídia.

Carlos Ribeiro – O senhor publicou, nos anos 80, dois livros de poemas: Sonetos para o Meu Pai Morto e Cigarras da Vida Inteira. Por que nunca mais lançou novos livros de poesia?
HP – Os livros que você citou foram edições fora de mercado, que logo se esgotaram em mãos de amigos, curiosos e, principalmente, familiares. Pensando bem, o meu ideal seriam edições pequenas, de 50 exemplares, que eu autografaria para a confraria de espírito. Não me considero poeta, sequer poeta bissexto. Estou na falésia da prosa.

Carlos Ribeiro – Como o senhor define o atual momento literário? Existe, de fato, uma pós-modernidade? E o que ficará da semiótica desconstrutivista que domina hoje as nossas universidades?
HP – Ficará a obra literária legítima, instigante, apaixonada e apaixonante. O resto é conversa fiada, bagaço. Nunca leio esses críticos de novidades novidadeiras. Prefiro Camilo Castelo Branco, com a sua notável expressão em língua portuguesa, a uma Julia Kristeva, a um Lacan abstruso. Os semióticos, os desconstrutivistas e outros espécimes já têm o seu lugar cativo na USP, na Folha de S. Paulo. É deixá-los. Já houve modernidade na Idade Média. Modernidade ou pós-modernidade é mais um rótulo. Estamos num período de selvageria em todos os sentidos. Entendo que literatura é expressão do belo, e que o ideal de beleza supera épocas, atitudes, modas, definições.

Carlos Ribeiro – Como vê a polêmica criada em torno da Carta Aberta aos Poetas Brasileiros, do poeta carioca Alexei Bueno, referindo-se a uma “terra de ninguém crítica e ideológica, à incompetência e à pura mistificação”, que dominam hoje o panorama literário?
HP – Com raras exceções, crítica cheira a embuste. É um comércio de farinhas trocadas. É um intercâmbio de panegíricos. Não se deve confundi-la com matéria informativa, com divulgação. Mais de 15 anos atrás, dei entrevista a um jornal de Brasília sobre o assunto, levantado e copiado semanas depois, sem qualquer menção ao meu nome, por um escrevinhador de Veja. Que querem? Deve ser a intertextualidade. Algumas opiniões minhas coincidem com as de Alexei Bueno – ou vice-versa. Críticos foram Tristão de Athayde, Álvaro Lins. Crítico é o sr. Antônio Cândido. A desfaçatez está acabando com a crítica, especialmente a crítica de poesia. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *