Fenômeno Literário Anual

Jornal A Tarde –13/01/01

O projeto Revistas Literárias – Novas Publicações, Nova Poesia?, promovido recentemente pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, possibilitou o intercâmbio de editores e poetas de 15 revistas literárias de diversos estados brasileiros. O objetivo, segundo o coordenador do projeto e também poeta e ensaísta, Claudio Willer, era divulgar periódicos literários e apresentar um panorama da poesia contemporânea publicada pelas revistas. A iniciativa revelou uma grande vitalidade e pluralidade desses periódicos, após um grande vazio de revistas e jornais literários no Brasil, nos últimos anos. A qualidade, o pluralismo – afirmando o primado da diversidade e a fusão do velho e do novo, da modernidade e da tradição, são alguns pontos destacados pelos organizadores do evento. Dentre as diversas publicações, a exemplo da Cult, Dimensão, Babel e Literatura, marcou presença, pela Bahia, iararana – Revista de Arte, Crítica e Literatura, representada, no evento paulista, pelos editores Carlos Ribeiro e Aleilton Fonseca e pelos poetas Luís Antonio Cajazeira Ramos e Luiz Ruffato. Na entrevista a seguir, Claudio Willer fala sobre oos temas do encontro.

Carlos Ribeiro – Como e por que surgiu a idéia do encontro?
Claudio Willer – É que, conforme já havia escrito e declarado umas tantas vezes, essas revistas são algo de novo, espaços por onde a literatura pode respirar, ser veiculada de modo mais aberto. Isso, no contexto de uma crise, a meu ver, séria do ensino de literatura e do jornalismo cultural na grande imprensa, o que torna revistas como essas mais necessárias ainda. Então, a intenção foi mesmo divulgá-las, fazer que chegassem ao conhecimento de mais gente. Quanto ao formato do evento, a idéia que tive foi cruzar as séries de apresentações públicas de poetas que já havíamos feito, e seminários sobre periódicos literários. Não só poetas, mas os meios de divulgá-los, e não apenas mais um seminário fechado apenas sobre periódicos.

Carlos Ribeiro – Por que a ênfase na poesia? Afinal de contas, existem muitos ficcionistas que colaboram para essas publicações.
Willer – A poesia é onde a palavra se faz, onde a linguagem se renova. Se você promove encontros com poetas, tem essas possibilidades abertas pela transmissão oral. Pode-se expor e debater idéias e também mostrar poemas, o que sempre desperta interesse do público, como tem acontecido. O mais importante é que esse movimento prossiga. É fundamental o diálogo, a troca de figurinhas entre as revistas, a cooperação permanente, não obstante as diferenças entre cada uma. O conjunto oferece um bom panorama da poesia contemporânea brasileira.

Carlos Ribeiro – Qual o critério adotado para a seleção dos 15 periódicos que participaram do evento?
Willer – Sei que sobraram revistas e jornais literários de interesse, que mereceriam estar. Mas aí, tinha que haver um mês com 38 dias. Ou 43. Estar em um final de gestão me limitou. O critério foi de convocar revistas e jornais representativos de diferentes modos; ou seja, Poesia Sempre é representativo de um modo, Iararana de outro, Medusa de outro. Expressam propostas editoriais distintas, e, evidentemente, diferenças de valores, de poéticas.

Carlos Ribeiro – Quantas revistas literárias existem catalogadas no Brasil, atualmente?
Willer – Não faço idéia. Essa catalogação é necessária e urgente; é algo que poderia ser empreendido por alguma biblioteca. Selecionei 14; há mais umas dez que eu poderia ter incluído.

Carlos Ribeiro – Que conclusão tira do encontro? Quais as semelhanças e diferenças dessas publicações, em termos de linha editorial, estética, propostas, dificuldades, formas de obter recursos etc?
Willer – Senti um corte muito nítido entre revistas que são expressão de uma cultura mais universitária, de scholars, com uma produção mais cerebral, regrada, e outras mais anárquicas. Há, também, um pólo mais underground, outro mais tradicional. Algumas mais próximas à grande imprensa, outras correndo inteiramente por fora. Mas qualquer classificação pode estereotipar.

Carlos Ribeiro – Que futuro você vê para as revistas literárias? Haverá mudanças mais profundas causadas pela informatização ou algum outro elemento?
R – Futuro? Vejo um presente, o que já é alguma coisa. Refiro-me ao simples fato de essas revistas existirem, e de boa parte delas haver surgido nos últimos cinco anos. Isso é sensacional, pois a impressão, até 95, é que, depois da saída de cena de Leia, permaneceria apenas uma espécie de terra arrasada e salgada, sem nada de novo crescendo nela.

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