Espiritismo – Fantasmas de Hugo

Jornal A Tarde – 07/02/01
Carlos Ribeiro

Em meados do século XIX, a Ilha de Jersey – possessão britânica de solo estéril e clima frio, localizada numa região desolada do Canal da Mancha, onde as lufadas de vento “disputam o direito de incutir desespero nos corações daqueles que habitam a ilha contra sua própria vontade” – era residência compulsória de exilados políticos franceses, fugitivos do sangrento reinado de Luís Napoleão Bonaparte. Ali fixaria morada, durante dois anos, a partir do dia 5 de agosto de 1853, o escritor Victor Hugo, já célebre pela publicação de romances populares, como O Corcunda de Notre Dame.

Acompanhado da mulher, Adèle, e dos filhos Charles, François-Victor e Adèle (a mais velha, Léopoldine, de 19 anos, havia morrido, pouco tempo antes, afogada num acidente de barco), Hugo seria personagem de uma história singular, envolvendo fantasmas errantes e espíritos de grandes filósofos e escritores. É essa a história contada no livro Conversando com a Eternidade; A Inédita Obra-prima de Victor Hugo (Madras, 200 páginas, R$ 28,00) – na realidade, um livro escrito (e não apenas comentado, como consta na capa) pelo pesquisador John Chambers.

Não se trata de uma obra de ficção: os acontecimentos, devidamente documentados, inclusive nos escritos do próprio Hugo, que pontuam alguns trechos do livro, mostram o envolvimento do escritor e família com uma atividade bastante popular entre a nata parisiense em meados do século XIX: a conversa com os mortos, através de mesas giratórias.

As sessões, que eram feitas na casa do escritor, reuniam também amigos de Hugo. Logo na primeira sessão, o “aparecimento” de sua filha Léopoldine teria o efeito “de uma granada explodindo” no espírito do autor, que, até então, mantivera postura distanciada e cética. O que veio depois é de embasbacar os mais crédulos seguidores do espiritismo: a mesa giratória do Hugo daria “voz” a personalidades como Rousseau, Shakespeare, Luthero, Galileu, Aníbal, Ésquilo, Moliére e até Jesus Cristo! – além das sombrias figuras dos “fantasmas terríveis”, que asombravam a ilha, a exemplo da Senhora de Branco, que, por ter assassinado seu bebê há vários milênios, fora condenada a vagar pelos campos estéreis. “Sou o espírito guardião da tumba sem número, cheia de esqueletos desconhecidos; sou aquela que traz pesadelos; tenho os cabelos brilhantes do horror” – dizia ela, num estilo gótico, aliás não muito estranho ao estilo do próprio Hugo.

Embora não seja um livro de ficção, é como tal que Conversando com a Eternidade deve ser lido. Cometerá um erro o leitor que procurar, entre o emaranhado de comunicações, uma consistente mensagem espiritual. Talvez a melhor pista para os estranhos eventos da Marine-Terrace, como era conhecida a casa dos Hugo, é a que nos é dada por Martin Ebon, na introdução do livro. Diz ele: “Em Jersey havia uma grande comunidade de franceses exilados, mas Victor Hugo não gostava deles e mal podia esconder um certo preconceito elitista. Quem, então, poderia ser o novo público para suas idéias e pensamentos? Quem estaria acima dos literatos de Paris, dos burgueses e do sistema político? Sem dúvida, somente os membros de uma dimensão superior de existência, o mundo dos espíritos, das grandes mentes e de conceitos sobre-humanos ainda maiores!”

Victor Hugo morreu, em 1885, depois de ter sido abandonado pela mulher Adèle H. e de ver mortas a mais fiel amante, Juliette Drouet, e a filha Adèle, esta enlouquecida de amor, num hospício. Continuou, até o fim dos seus dias, acreditando na vida após a morte, levando consigo, para o caixão, os últimos estertores da era romântica da qual foi um dos maiores representantes.

EDITORA: MADRAS
TELEFONE: (11) 6959-1127
PÁGINAS: 200
PREÇO: R$ 28,00

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