Espelho de Oito Faces

CONTOS – Civilização Brasileira reedita clássico do realismo fantástico, Octaedro, um dos mais importantes livros do escritor argentino Julio Cortázar.
Jornal A Tarde – 26/11/2000
Carlos Ribeiro

Julio Cortázar, um dos maiores expoentes latino-americanos do realismo fantástico, realizou, com perfeição, a regra proposta por Ray Bradbury para as modernas histórias de fantasia: a de jamais desvincular os elementos insólitos, presentes em suas histórias, da realidade cotidiana, do universo familiar ao qual estamos habituados e no qual vivemos, muitas vezes adormecidos, sem nos darmos conta de sua enigmática estranheza. É essa teia habilmente entretecida, do fantástico com o real, um dos elementos mais marcantes da narrativa fantástica moderna. E da de Cortázar.

É claro que não é possível uma total desvinculação entre o elemento considerado “irreal” ou “supra-real” com a realidade, na obra literária, visto que não se pode conceber atos, pensamentos e sensações humanas dentro de um vácuo. Mas a definição de Bradbury – de que um contador de histórias fantásticas deve induzir no leitor a sensação de “irrealidade da realidade” – cabe como uma luva para alguns dos oito contos de Octaedro, livro publicado por Cortázar em 1974 e que é reeditado, agora, pela Civilização Brasileira.

Ao contrário do gótico Lovercraft, que deu a seus personagens a difícil missão de enfrentar o horror provocado por criaturas monstruosas surgidas de abismos cósmicos, carregando em adjetivos muitas vezes cansativos e desnecessários, Cortázar é bem mais direto e sucinto na tarefa de mostrar que existe algo estranho, lá fora, batendo em nossa porta; que há alguma coisa no hall, e que vem subindo, lentamente, a escada.

Objeto mágico

Como sugere o próprio título da obra (encontro de ângulos e linhas de um polígono de oito lados), Octaedro apresenta-se como oito formas de enxergar o mundo e perceber a realidade. O livro é, dessa forma, uma espécie de objeto mágico de oito faces, diferente, cada um deles, no estilo, na linguagem empregada para contar suas histórias. Em Liliana Chorando, por exemplo, um doente terminal analisa minuciosamente as atitudes e rotinas dos amigos, parentes e médico, como se quisesse se apossar e controlar a vida que, lentamente, lhe escapa pelos dedos. Os Passos no Rastro retrata o extraordinário erro de um biógrafo que ganha e perde a glória literária, encontrando perturbadoras semelhanças entre ele próprio e o biografado. Em Manuscrito Achado num Bolso, o autor estabelece uma inusitado jogo de imagens entre passageiros do metrô e seus reflexos em portas e janelas de vidro.

Mas é em Aí, Mas Onde, Como que ele leva mais longe o experimentalismo da linguagem, mostrando a persistente presença de um morto nos sonhos do narrador. O conto Verão é o que melhor realiza, no entanto, a sensação de medo e impotência diante do imponderável. Um casal ouve, à noite, estranhos ruídos do que se supõe ser um cavalo no jardim. “É um cavalo, disse Mariano sem acreditar, parece um cavalo, ouça os cascos, está galopando no jardim”. E assim continua, num crescente suspense, até o final prosaico – anticlímax que acentua o sentimento de estranheza da história, outra característica do estilo cortaziano.

Octaedro não é um livro fácil. Exige, do leitor, uma postura ativa, de um explorador que percorre, não sem dificuldade, um microcosmo único e insubstituível, de estranhezas e singularidades. De uma supra-realidade que nada mais é que essa invencível esfinge: a vida.

EDITORA: CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
PÁGINAS: 125
TELEFONE: (021) 585-2047

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