Era uma Vez em Arembepe

FICÇÃO – Romance-memória retrata ideário de uma das mais conhecidas sociedades alternativas do Brasil.

Jornal A Tarde – 27/03/2003 
Carlos Ribeiro 


arembepeBeto Hoisel é um remanescente do paraíso. Isto é: de um tipo bem peculiar de paraíso, no qual ainda se podia ver, até meados dos anos 70, “os eternos campos de morango sobrepondo-se entre dunas e coqueirais” e “Lucy no céu, entre flores de cactos e diamantes”, conforme lembra o psicólogo Paulo Pedro Pepeu.

Havia noites estreladas e longas extensões de areias; o brilho leitoso da lua nos coqueiros e no mar, e paisagens serenas nas quais se caminhava tranqüilamente, sem medo de morrer. A não ser, é claro, que o governo militar estivesse atrás de você.

Da mesma geração de Gláuber Rocha e João Ubaldo, Beto – que é arquiteto e autor do livro de science fiction Anais de um Simpósio Imaginário – Entretenimento para Cientistas, lançado em 1998, pela Editora Palas Athenas, de São Paulo – foi, no início dos anos 70, um desses sujeitos que se enfronharam, sem muitas delongas, pelas paisagens de mar, coqueiros, dunas, rios e sonhos que compunham o litoral norte do Estado da Bahia.

Muito além das margens do Joanes, num tempo em que o rio era longe, foi um dos que, munidos de mochilas surradas e barracas de camping, alcançaram as então distantes paragens do Caratingui. Isto quando, para se chegar ao bucólico povoado de Arembepe, seguia-se, a partir da Tibrás, por estradas de chão batido, “na paleta, de marinete velha ou fusca”.

Olhar de fora

Arembepe era, in illo tempore, “um só porto de pesca (…), uma vila pequenina, esticada na beira do mar, protegida da ressaca por vastos lajedos de pedra ajardinados pela natureza com algas verdinhas, rosadas e marrons, habitados por pinaúnas, polvos e lagostas que se escondem nas locas do lado de fora, onde as ondas quebram com força lançando para o alto explosões de espuma branca nas tardes de verão”.

Foi lá que, num dia qualquer do final dos anos 60, começaram a chegar uns tipos esquisitos: chincheiros curtidores e cabeludos, que construíram casinhas de palhas de coqueiro, fizeram seus colares e pulseiras, que vendiam em Itapuã e no Mercado Modelo e foram ficando, sem que se lhes dessem maior importância – até que alguém lhes disse que haviam fundado o paraíso.

Mas o que era exatamente aquele “paraíso”? O que significava aquele conceito de vida que atrairia para seu território livre, do prazer e do sonho, um grande número de artistas, como Janis Joplin, Mick Jagger, Roman Polanski, Caetano Veloso, Raul Seixas, alguns deles em início de carreira e, apesar das constantes referências a eles, sem maior significação para a maioria dos moradores da comunidade?

O que Hoisel encontrou por lá foi muito diferente do que anos mais tarde se convencionaria chamar de comunidades hippies. Em vez de pessoas irresponsáveis e intelectualmente limitadas, que só sabem dizer “Tudo bem…”, “Falou, bicho” e “Curtir um barato legal”, eram, diz ele, uma comunidade dinâmica e criativa, povoada “por alguns seres humanos respeitabilíssimos”, ainda que dados a atividades pouco ortodoxas, como o nudismo e o sexo livre, muitas vezes praticado a céu aberto.

É dessa experiência que Beto Hoisel fala no romance Naquele Tempo, em Arembepe, que lança, pelo selo Século 22 Editora, amanhã, a partir das 18 horas, no Espaço do Autor Baiano (Rua Gregório de Mattos, 43, Pelourinho).

Com prefácio de Pedro Paulo Pepeu, ilustrações de Leo Celuque, coordenação editorial de Cardan Dantas e apoio da Fundação Ondazul e Safra, através do Fazcultura, o livro não é “um romance hippie, ou sobre os hippies”, mas uma forma de, recuando aos tempos do sonho libertário do flower power, lançar um olhar “de fora” para a dolorosa farsa em que vivemos cotidianamente. “O tema maior desse romance é a sociedade em que vivemos, hoje. O que eu mais quero que motive as pessoas para a leitura do livro é essa visão crítica da sociedade em que estamos inseridos”.

Além de mostrar uma preocupação com a sociedade contemporânea, que Hoisel vê como “um barco desgovernado rumando célere para o desastre”, o livro aborda questões políticas e ambientais, a exemplo da repressão militar e da instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari na região, mostrando que o impacto sobre o grande aqüífero existente naquela área – fruto de uma decisão imperial do general Ernesto Geisel
-, foi um extraordinário exemplo de irresponsabilidade ambiental.

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