Enigma Mineiro

RESENHA – Cunha de Leiradella renova o gênero policial numa história de detetive cuja maior surpresa é a própria linguagem do narrador.
Jornal A Tarde – 13/11/01

Carlos Ribeiro 

O romance policial, até há algum tempo, era quase sempre associado à novelística inglesa, com as intrincadas, cerebrais e assépticas tramas de Agatha Christie (Hercule Poirot) e Conan Doyle (Sherlock Holmes), ou à americana, mais especificamente a escola hard-boiled, materializada no jogo sujo do submundo do crime, retratado, com frases curtas e contundentes, nas histórias de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Além, é claro, da famosa novela Os Crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, que marcou o surgimento do gênero, e muitas outras variações, inclusive na França, pátria do famoso personagem Arséne Lupin.

Geralmente considerado “menor”, embora executado por alguns grandes escritores, o gênero ganhou, ao longo do século XX, algumas variações surpreendentes. Exemplo disso é o romance O Nome da Rosa, no qual Umberto Eco mescla, de forma magistral, características do romance policial com as da crônica histórica, ou melhor, da crônica da vida religiosa num mosteiro da Itália medieval, no século XIV. Há, inclusive, bons ecos do romance policial em contos fantásticos de Jorge Luiz Borges, como se vê em O Jardim de Caminhos que se Bifurcam, do livro Ficções.

No Brasil, onde o gênero é geralmente associado à violência urbana presente em romances de Rubem Fonseca, e, mais recentemente, na ficção exercida pelo psicanalista Luiz Alfredo Garcia Rosza, surge uma novidade que merece atenção. Trata-se do romance Apenas Questão de Método, de Cunha de Leiradella – escritor, dramaturgo e roteirista nascido em Portugal, em 1934, e radicado em Belo Horizonte desde 1985. (Ele chegou ao Brasil em 1958, já tendo morado no Rio de Janeiro e, inclusive, em Salvador, no bairro da Liberdade, nos anos 70).

Humor cáustico

Apenas Questão de Método – lançado em Portugal, pela Editorial Caminho, onde ganhou o Prêmio Caminho de Literatura Policial de 1999, e publicado este ano, na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, pela Quartet – traz uma inovação no gênero. Para usar uma expressão do crítico André Seffrin, trata-se de “um policial barroco”, no qual o que mais sobressai não é, como em Doyle, o raciocínio dedutivo, ou, como em Hammett, o estilo seco e direto, do detetive. Aqui, a principal atração é a linguagem requintada do autor.

A história, quase banal, gira em torno da ida do detetive carioca Eduardo da Cunha Júnior, alter ego do escritor que aparece em alguns dos seus livros, a Belo Horizonte para investigar uma seqüência de roubos e falcatruas na Mercúrio S/A, Crédito, Financiamento e Investimento, a maior financeira independente do Estado de Minas Gerais. De repente, Cunha Júnior, ex-policial, ex-capanga de bicheiro e devoto de Santo Expedito (“santo das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução”), que nunca tinha colocado os pés fora do Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Nova Iguaçu, Teresópolis e alguns cafundós da Baixada Fluminense, vê-se mergulhado num intrincado jogo de interesses escusos. E, o que é pior, num perigoso jogo de xadrez onde as peças movem-se, com desconfianças dissimuladas, em movimentos lentamente ensaiados.

É nesse terreno pantanoso que o pragmático detetive desloca-se, entre personagens sinistros do mundo financeiro, tateando o caminho que levará ao desvendamento de um complexo jogo de interesses. E, como num romance noir, não poderia faltar a presença de uma mulher, com a qual se envolve e que termina carregando-o para o submundo das drogas e do crime de Belo Horizonte.

O que importa, no entanto, em Apenas Questão de Método é a força da linguagem do autor, ou, como assinala Seffrin, “o seu poder de sugestão, a fina carpintaria do diálogo e do suspense, o ritmo frenético da frase, o traquejo no uso de gírias e preciosismos que integram um todo coeso (…), um castelo de palavras que só um mestre da ficção consegue pôr de pé”. Acrescente-se a isto o humor cáustico, a sátira mordaz com que o autor/narrador radiografa as convenções da “alta” sociedade mineira, ou ainda, à filosofia de malandro que acompanha o detetive em suas elucubrações.

Leiradella, ainda pouco conhecido na Bahia, é autor de extensa obra, publicada no Brasil e em Portugal, incluindo romances, livros de contos – um deles, Síndromes & Síndromes (e conclusões inevitáveis) foi um dos vencedores do Prêmio Cultural de Literatura 1996, da Fundação Cultural do Estado da Bahia –, peças de teatro e roteiros de cinema. Dentre seus livros mais conhecidos, e premiados, estão O Longo Tempo de Eduardo da Cunha Júnior, Guerrilha Urbana, Cinco Dias de Sagração e Fractal em Duas Línguas.

Dele disse, referindo-se a respeito de Fractal…, livro com o qual Leiradella ganhou o Prêmio Cruz e Souza, em 1995, o escritor Ignácio de Loyola Brandão: “Quando todos perguntarem o que está havendo com a literatura brasileira que não ‘revela’ nenhum livro de choque, nos chega este autor sem contemplações, sem rodeios, dotado de um incrível senso de humor, permeado de sensualidade (um Henry Miller vagando alucinado por Minas Gerais; logo por Minas!!!)”.

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