“É nescessário algum limite”

ENTREVISTA – Uma das principais atrações da I Bienal do Livro da Bahia, Ferreira Gullar fala sobre os rumos (e os riscos) das artes no Brasil.
Jornal A Tarde – 15/09/01

Carlos Ribeiro 

Jornalista e poeta maranhense Ferreira Gullar, autor de livros importantes da poesia brasileira, como Luta Corporal (1954) e o seu famoso Poema Sujo (1976), continua sendo também uma das inteligências mais lúcidas a refletir sobre os rumos das artes e da literatura no Brasil. Presente na abertura da I Bienal do Livro da Bahia, onde participou, ontem, do Café Literário, Gullar continua ativo na sua crítica ao extremo cerebralismo
 

de algumas vertentes da cultura, no Brasil. Na entrevista a seguir, dada por telefone de sua casa no Rio, ele alerta contra os deslimites característicos da época que vivemos. “É necessário algum limite, porque sem limites você termina explodindo as torres de Nova Iorque”, afirmou. Veja a seguir, trechos da entrevista.

P – Há muitos anos, o senhor vem questionando a tentativa de se fazer uma arte cerebral e com uma ênfase excessiva na forma. Esta questão continua fazendo parte de suas preocupações?

R – A minha posição com relação à arte em geral é a de que o trabalho com a forma é fundamental na arte. Não existe arte sem trabalho sobre a linguagem. Escrever não é fazer literatura. Existem “n” formas de escrever, desde um bilhete, uma carta para um amigo, uma carta comercial, uma reportagem. Tudo é escrever. Mas uma reportagem e uma carta podem transformar-se num trabalho literário. O que faz a diferença é o apuro, é a exigência sobre a linguagem. Daí eu afirmar que não existe arte sem haver linguagem, uma arte conceitual, que seria uma arte sem linguagem. Esse fato não significa que não é uma forma de expressão, mas não é arte. Gritar é uma expressão, mas não é arte.

P – A idéia de que tudo é arte está associada à questão dos limites, ou melhor, da falta de limites, nas sociedades modernas, com toda essa mistura de gêneros, linguagens e conceitos?

R – A idéia de que tudo é arte é um equívoco, uma interpretação errônea do trabalho e das idéias do Duchamp (NR: Marcel Duchamp, artista plástico francês, criador da arte conceitual), que era uma personalidade especial, um homem talentoso, mas extremamente cerebral. Ele traçou um caminho que era o dele, mas criou uma quantidade de seguidores, muitos dos quais são meros copistas, que realmente misturaram as coisas. É verdade que a época moderna caracteriza-se pelo deslimite, mas é necessário algum limite, porque sem limites você termina explodindo as torres de Nova Iorque.

P – E, se for levar a separação entre ética e estética ao extremo, pode-se até ver esse acontecimento como uma performance espetacular…

R – O fato é que é preciso haver limites. O homem tem que ter limites porque ele é uma construção dele mesmo. A natureza nos deu o corpo, os sentidos, a inteligência, a sensibilidade. Se você destrói os limites, você destrói o ser humano, destrói o resultado de tudo o que foi legado pelos artistas. Voltar à coisa irracional e meramente instintiva, sem nenhum controle da razão, é atraso. Não se pode ceder ao irracionalismo. Na descoberta da psicanálise valorizou-se demais a irracionalidade, mas o próprio Freud disse que a civilização nasce com a repressão dos instintos, da bestialidade. É o homem transformando-se em ser humano: aí ele cria a arte, a ética, os valores.

P – Como se justifica o fato de que tantas imposturas continuem ganhando terreno, seja no campo da literatura como das artes em geral?

R – Reina uma grande confusão, e as pessoas precisam refletir. Nem todo mundo é gênio, um gênio é uma coisa rara. Mas, hoje, todo mundo quer reinventar a arte. Um poeta como Virgílio orgulhava-se de ser discípulo de Homero; e Dante, de Virgílio. Hoje ninguém quer ser discípulo de ninguém. Todo mundo quer ser o mestre de si mesmo. Quando o cara diz: “a arte é tudo o que eu digo que é arte” é a mesma coisa de dizer que a arte não existe. Agora, o surpreendente é que as instituições todas e os museus prestigiam isso. Isso é que é escandaloso. Mas o público não vai lá ver essas obras, fica tudo vazio. Toda essa impostura mantém-se à custa do dinheiro oficial e das empresas. É uma arte sem público.

P – No outro extremo, da indústria cultural, como o senhor vê a tendência atual, do mercado editorial brasileiro? Existe uma ênfase maior, hoje, nas qualidades comerciais do livro, em detrimento do seu aspecto cultural?

R – Este é o outro extremo. A tendência predominante é a da comercialização da subliteratura. Eu não tenho nada contra isso, que o cara faça uma arte para vender. A editora é comercial e faz livro para vender, mas o importante é ter claro que, na maioria dos casos, isso não é literatura, mas entretenimento. E, como não existe mais críticos para dizer isso, a coisa fica na mão da mídia, misturada como se fosse farinha do mesmo saco. Tudo isso é conseqüência da comercialização desenfreada e da transformação de tudo em jogo de mercado.

P – A crítica torna-se indesejada do ponto de vista do mercado?

R – Não interessa a crítica. Interessa promover a mercadoria. O crítico é pernicioso, pois, como ele tem a mania de ter opinião, ele vai prejudicar interesses. Por isso, ele desapareceu de quase todos os suplementos literários. Antigamente, todo mundo esperava a opinião de Otto Maria Carpeaux, de um Adonias Filho. Hoje não existe mais isso.

P – Como o senhor vê a publicação de antologias destacando os melhores poetas e contistas do século? Elas têm importância?

R – Em princípio é melhor publicar poesia do que não publicar, mas o que eu acho estranho é que há uma tendência a igualar tudo. O cara diz que é a antologia dos melhores do século e bota um poema de cada poeta. Coloca Drummond e o João de Tal, o amigo. Eu, se fizesse uma antologia dos melhores do século, ia ficar com poucos poetas.

P – Como o senhor vê essa exigência por parte dos críticos, se é que se pode chamá-los assim, de que os autores estejam a todo momento renovando a literatura?

R – Essa é uma doença do século que passou e que continua, da busca do novo pelo novo. As pessoas são obrigadas a buscar o novo pelo novo, mas não é o novo verdadeiro que eles querem, é o paletó de três mangas, o falso novo. Eu não acredito que não haja boa literatura que não contenha em si algo de novo, mesmo porque o escritor não escreve um conto ou poema se ele não coloca algo que ele ainda não disse. O novo nasce do velho, é como uma criança, que é o novo, mas que nasceu da mãe e do pai. Novo sem pai nem mãe não existe. Ele está impregnado do passado, como o filho está impregnado do pai e da mãe. O novo surpreendente, que ninguém viu, na maioria da vezes, é uma besteirada, é pretensão e água-benta.

P – O senhor é autor de uma das melhores minisséries da televisão brasileira, As Noivas de Copacabana. Como avalia a sua participação na TV?

R – As Noivas de Copacabana foi escrita pelo Dias Gomes, por mim e pelo Marcílio Morais. Foi uma coisa bem feita e um dos poucos momentos gratificantes que tive na TV. Mas eu estou fora da TV, felizmente, porque a televisão é inibidora da criatividade dos autores. A natureza da televisão inibe a criatividade. Os autores de novela não têm o que dizer e têm que fazer.

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