Dez anos sem o velho urso

O Brasil completa, este mês, 10 anos sem o seu maior cronista. No dia 19 de dezembro de 1990, Rubem Braga, aos 77 anos de idade, morria em decorrência de um câncer na laringe -doença diante da qual adotou um posicionamento singular: não quis se submeter a qualquer tipo de cirurgia ou quimioterapia e se encarregou, pessoalmente, de encomendar a sua cremação.

Conta-se que, ao ser indagado pela atendente do crematório, em São Paulo, sobre onde estava o cadáver que iria ser cremado, teria respondido, em seu estilo característico: “O cadáver sou eu”. Atendendo a um pedido do cronista, suas cinzas foram lançadas por seu filho Roberto, nas águas mansas do rio Itapemirim, em Cachoeiro do Itapemirim, sua terra natal.

Foram-se, então, levados pelo vento e pelas águas, os últimos vestígios materiais do Velho Urso (como era chamado carinhosamente pelos amigos), deixando, entretanto, as lembranças de uma vida singular, num dos períodos mais criativos da vida jornalística e literária do Brasil, neste século. Deixou, como legado, mais de 15 mil crônicas publicadas durante 62 anos de atividade jornalística, parte delas selecionadas, por ele mesmo, em 13 livros, compondo algumas das mais belas páginas da literatura brasileira em todos os tempos. Veja, a seguir, um breve perfil de Braga e, também, uma homenagem de A TARDE CULTURAL a um dos mais importantes escritores brasileiros.

“(…) Como passou a vida inteira a escrever aqui e ali, ele acha que quando morrer vai virar um pequeno verbete no Dicionário dos Escritores. Fulano de Tal. 1913-1990. O leitor automaticamente fará a conta: são 77 anos. ‘Bem que viveu bastante’, pensará ele, lembrando que Álvares de Azevedo morreu com 21 anos, Castro Alves, com 24, Machado de Assis, velhinho, velhinho, com 69, Coelho Neto (120 volumes publicados!), com 70 anos. ‘É, este viveu bastante’. Como poderá suspeitar o homem do verbete em grande parte ainda uma criança, ou pior muito pior, um adolescente?”1

O trecho da crônica publicada por Rubem Braga, no jornal O Estado de São Paulo, em fevereiro de 1990, mostra um dado importante para a compreensão da sua obra. O escritor que, aos 77 anos de idade, pouco antes da sua morte, apresenta-se como, em grande parte, uma “criança” ou um “adolescente”, é o mesmo que, ao longo de quase 60 anos de atividade profissional, traçou de si mesmo a imagem de um homem melancólico e envelhecido, inadaptado ao seu tempo e lugar.

Já nos seus primeiros livros, publicados quando transitava ainda na casa dos 20 e dos 30 anos, era esta a imagem que traçara de si próprio, como indicam os seguintes trechos: “Não sou cangaceiro por motivos geográficos e mesmo por causa do meu reumatismo”, diria ele em fevereiro de 1935, aos 22 anos.2 Aos 33, em julho de 1946, afirmaria: “O que interessa é o abraço do amigo que há muito não se vê; a doce e triste volta ao tempo antigo; a emoção de reconhecer traços perdidos do desenho de nossa velha alma”.3 E, em julho de 1948, aos 35: “Mas ando pelo chão há muito tempo: chão perigoso, onde há pedras e buracos para um homem já escalavrado e já afundado; porém chão”.4 Com apenas 35 anos, em outubro de 1948, se referia à sua “amarga e fria velhice” (sic)5 e, em abril de 1951, aos 38, exclamaria: “Volta, portanto, a cara e vê de perto – a cara, a tua cara verdadeira – ó Braga envelhecido, envilecido”.6

Como criança, aos 77 anos, ou como um velho, aos 22, ou apenas como seu próprio alter-ego, Rubem Braga foi, entretanto, um homem do seu tempo, que viveu intensamente os problemas do seu tempo, ainda que mantivesse sempre os olhos presos a um passado ao qual jamais pôde retornar. A “doce e triste volta ao tempo antigo” foi sempre uma utopia acalentada nos seus escritos, numa vã tentativa de reconhecer “os traços perdidos do desenho (de) sua velha alma”.
Que tempo antigo era esse? Antes de mais nada, deve-se considerar o fato de que o cronista nasceu apenas um ano antes do início da Primeira Guerra Mundial, a 12 de janeiro de 1913, justamente no momento histórico que, segundo alguns historiadores, marca efetivamente o fim do século XIX e o início do século XX. O Brasil vivia um processo de transição cultural que ainda não se fazia sentir na pequena cidade de Cachoeiro de Itapemirim, berço natal do cronista. Ali ele viveria, nos seus primeiros anos de vida, as experiências que ficariam marcadas para sempre na sua sensibilidade de escritor e que apareceriam mais tarde em grande parte da sua obra.

Cachoeiro de Itapemirim era, segundo Braga, um lugar no qual as moças “não aprendiam datilografia nem taquigrafia, pois o tempo era de pouca máquina e nenhuma pressa e a carreira de toda a moça era casar”.7 Ali ele viveu um “tempo em que todos os telefones eram pretos e todas as geladeiras eram brancas”8 e no qual a gente “lamentava não ter nenhum problema de espaço no lar”.9 Eram dias em que o mar bramia e os objetos eram reais e belos na sua utilidade, “centro de muitas cenas perdidas”, e não “meros objetos vazios que são apenas objetos de decoração”.10

A inadaptação ao tempo e lugar em que se vive, a idealização de um passado distante, da infância ou de um tempo além dela, são aspectos românticos típicos, ou ecos do romantismo, que estão presentes na obra do cronista, mas que são atualizados por um olhar e por um estilo modernos do autor.

A infância de Rubem Braga passou-se, portanto, como a de muitos outros meninos do interior, entre pescarias e banhos de rio, jogos de futebol, festas patrióticas, estudos e pequenos trabalhos. No contato direto com a natureza, com bichos e árvores, na observação dos tipos locais, no fascínio do encontro com o mar, na descoberta do amor e da literatura, ele moldou um ideal de simplicidade que seria uma das principais características da sua visão de mundo. Aquele foi, segundo suas próprias palavras, o “tempo da descoberta da beleza das coisas”.11

Observa-se, em muitos textos de Braga, referentes à infância, a nostalgia dos paraísos perdidos, característica do romantismo à qual se refere José Guilherme Merquior.12 Braga reconstrói um passado idílico que não mais existe, ou que, possivelmente, jamais existiu. A sociedade provinciana da sua infância é retratada nos seus aspectos mais favoráveis e as suas próprias contradições são vistas, diversas vezes, através de um olhar irônico, mas de uma ironia benevolente, compreensiva. Trata-se, evidentemente, de uma imagem idealizada, o que não significa que seja menos verdadeira.

Como Zora, uma das cidades invisíveis retratadas por Ítalo Calvino, Cachoeiro de Itapemirim é um itinerário no qual se pode estabelecer uma relação de afinidades ou de contrastes que serve de “evocação à memória”.13 O que importa não é o que a cidade é, mas o que ela significa. O olhar lírico do cronista é o que atribui essa significação, com base na sua experiência, ou melhor, na experiência do menino que ele foi e que procura (inutilmente) resgatar. A busca dessa matéria sutil que o cronista utiliza em sua obra é que dá às suas crônicas a perenidade que a mantém viva, tantos anos depois de terem sido escritas. 

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