Denúncia ao Obscurantismo

FUNDAMENTALISMO Livro de Tarik Ali analisa as causas e as conseqüências da guerra dos Estados Unidos contra o terrorismo, denunciando suas verdadeiras intenções.

A Tarde – 2002

Nos dias que se seguiram aos atentados de 11 de setembro, poucas vozes ousaram opor-se ao superpatriotismo imperial dos Estados Unidos. Numa atmosfera ideológica que não admitia qualquer visão discrepante ao “quem não estiver conosco estará ao lado dos terroristas”, conforme a frase de George W. Bush, raríssimos intelectuais tiveram a coragem de lembrar que a ação terrorista, mesmo que abominável, não havia surgido no vácuo. Ela tinha raízes solidamente plantadas numa política internacional suja e desumana, que semeou e continua semeando a revolta e o ódio nos quatro cantos do planeta.
Dentre essas vozes, ao lado de nomes conhecidos, como os de Gore Vidal, Susan Sontag e Noam Chomsky, estava a do escritor paquistanês Tarik Ali. Nascido em 1943, numa próspera família muçulmana de Lahore, mas vivendo na Inglaterra desde 1961, onde graduou-se em Política, Filosofia e Economia por Oxford, Ali é editor da New Left Review e autor, entre outros livros, dos romances Sombras da Romãzeira, O Livro de Saladino, Mulher de Pedra e Medo de Espelhos, publicados no Brasil pela Record.
Tarik Ali é, hoje, uma das principais personalidades internacionais cujas idéias destoam do coro dos chauvinistas que, a pretexto de lutarem contra o obscurantismo dos fundamentalistas muçulmanos, não percebem (ou fingem não perceber) que são meros instrumentos de um outro fundamentalismo não menos odioso: o de um sistema que permite que uma única nação imponha sua vontade sobre o mundo inteiro.

Genocídio

Não é apenas como escritor que ele denuncia as influências profundamente deletérias do imperialismo americano. No início deste ano, ele discursou para 100 mil pessoas reunidas, em Washington, numa manifestação contra a política externa americana. Mas é em seu mais recente livro, Confronto de Fundamentalismos – Cruzadas, Jihads e Modernidade (Record, 480 páginas, R$ 30), que Ali mostra, com mais clareza e profundidade, que a “guerra contra o terror”, ora empreendida pelos Estados Unidos, é, na realidade, um choque de fundamentalismos: o religioso versus o imperial.
Tarik lembra que “Nos últimos cem anos e mesmo antes, eles (os americanos) têm bombardeado países, derrubado governos, feito o que querem”. E acrescenta que “O perigo real não está no fundamentalismo religioso, mas no modo de agir dos Estados Unidos”. Assim, o aparato de guerra movido atualmente pelos EUA, seria uma ação destinada, não a conter o terror, mas a estender o domínio americano.
Segundo Ali, a solução do conflito jamais se dará com a chuva de bombas jogadas sobre populações indefesas, o que apenas gera mais ódio, ressentimento, e, portanto, mais terrorismo. A única forma de deter o avanço da insanidade teria que passar pela criação de um estado palestino soberano e independente e pela finalização do embargo e dos bombardeios ao Iraque. Diz ele: “Apesar de toda a devastação que causou, sem esperança de solução durável, o resultado da intervenção nos Bálcãs se empalidece diante do balanço do Iraque. Lá, o resultado foi um verdadeiro Massacre dos Inocentes. Vamos enxergar a vaidade dos nossos líderes como o que realmente é. Clinton e Blair são pessoalmente responsáveis pela morte de centenas de milhares de crianças, trucidadas impiedosamente para salvar a ´credibilidade` dos dois. Se tomarmos um número conservador de 300 mil crianças com menos de cinco anos, e colocarmos uma estimativa provisória da morte prematura entre adultos como sendo de 200 mil pessoas, chegamos a um dos maiores assassinatos em massa do último quarto de século”.
Mas o livro não dispara críticas apenas ao fundamentalismo americano. Ao traçar um amplo painel da história do Islã, desde as suas origens, ele é implacável no retrato que traça do fanatismo religioso, baseado em interpretações espúrias do Alcorão. Inclusive mostrando como foram caladas as vozes de pensadores e poetas “heréticos” que contestavam idéias absurdas como a de que o céu é o lugar do “orgasmo infinito”, onde cada clímax tem duração mínima de 24 anos e em que cada homem tem permissão para possuir setenta virgens, além das esposas que o Escolhido teve na terra. Idéias que, ainda hoje, levam muitos jovens a sacrificarem suas vidas por uma grande causa. E cujas manipulações políticas e ideológicas são poucas vezes postas a nu, como nesta obra.
Para Ali, o ponto culminante de toda essa insanidade é a ditadura dos mulás, que, antes de chegarem ao poder no Afeganistão, eram apenas “objeto de ridículo, geralmente considerados desonestos, hipócritas e preguiçosos”, além de pedófilos, arquivilões que usavam a religião para obter seus desejos e ambições.


CONFRONTO DE FUNDAMENTALISMOS – CRUZADAS, JIHADS E MODERNIDADE
TARIK ALI
RECORD, 2002, 479 PÁGINAS
TELEFONE: (21) 2585-2047

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