Contra o Horror

Jornal A Tarde – 01/03/03

DETALHE DE O.S.T.
DE RAQUEL FORNER

O desdém expresso pelo governo norte-americano em relação às manifestações de milhares de pessoas que se mobilizaram pela paz, nas últimas semanas, em todos os continentes, pode e deve ser visto como um ultraje para toda a humanidade. E, sobretudo, para aquele que deve ser um dos mais destacados defensores da palavra como veículo de entendimento entre indivíduos e nações: o escritor. É o caso, entretanto, de se perguntar:

será que o escritor contemporâneo ainda se vê na posição de consciência de uma nação ou coletividade (como, por exemplo, foram Victor Hugo, Jean-Paul Sartre e Thomas Mann, em seus respectivos países e momentos históricos)?
Em interessante editorial, intitulado “As palavras sem poder”, veiculado na internet, o escritor Miguel Esquirol Rios declara, com indifarçável melancolia, que já perdeu sua confiança nas palavras. Ele lembra uma frase anônima, cunhada poucos dias antes do início da Segunda Guerra Mundial e que é citada por Elias Canetti, no livro A Profissão do Escritor: “Já não há mais nada a fazer. Mas, se eu fosse de verdade um escritor, deveria poder impedir a guerra”. E conclui: “Eu não creio que um escritor possa parar uma guerra”.

As palavras podem realizar muitas coisas, mas, para que possa parar a guerra, é preciso, pelo menos, que alguém queira escutá-las, pois, “se quem empunha a bomba decide não escutar não há nada o que fazer”. Se isto é verdade – e vamos torcer para que não seja – o que resta pensar? Será que só restará ao escritor ser um “sobrevivente” – aquele que, segundo Franz Kafka, enquanto afasta com uma mão o desespero pelo seu destino, utiliza a outra para “anotar o que vê entre as ruínas”?

A CONSCIÊNCIA ULTRAJADA

Quem já sofreu algum tipo de injustiça e violência premeditadas, certamente sentiu uma forma muito particular de angústia: a de constatar a inutilidade de deter seus agressores pela voz da razão. A impossibilidade de convencê-los da ineficiência ou da desumanidade da ação que pretendem cometer, embora ela seja tão clara, tão indiscutível, tão evidente. É quando a palavra não encontra ouvidos para captar a sua mensagem, e o desastre se torna inevitável.

Nada exprime melhor essa sensação de impotência e desamparo do que a deflagração de uma guerra – aquele momento em que o diálogo cessa, e a lei da força se impõe como forma de resolução de um conflito. Resolução? Mas, a que custo? E em benefício de quem? “O homem é o lobo do homem”, é Hobbes de volta.

A iminência da guerra entre os Estados Unidos e o Iraque – ou melhor, dos Estados Unidos contra um inimigo abstrato e metafísico, denominado vagamente de “terrorismo internacional” – representa, de forma exemplar, uma crise de confiança na palavra. O que vale, o que realmente importa, não são argumentos recionais, respaldados em fatos, e sim um discurso monocórdio, baseado em frases de efeito e com inacreditável desdém pelo outro. Trata-se, neste caso, de uma espécie de delírio narcisista (fabricado e manipulado por mentes que, entretanto, sabem muito bem aonde querem chegar), no qual anula-se o outro, como voz, para dominá-lo – ou aniquilá-lo.

Essa negação do outro é exemplificada pelo professor de literatura palestino (radicado em Nova Iorque), Edward Said, autor de dois livros traduzidos para o português, Orientalismo (Cia das Letras) e Cultura e Política (Boitempo). Diz ele que, ao tentar organizar um festival de filmes palestinos, na universidade de Columbia, sofreu “fantásticos ataques por e-mail, investidas da imprensa e de outros meios tentando cancelar o evento”.

Sobre essa incrível manifestação de intolerância – em se tratando da cidade mais cosmopolita do mundo – disse o autor, em entrevista à Folha de São Paulo (Caderno Mais!, 2/2/03), que “qualquer iniciativa que tente mostrar outro ponto de vista sobre o Oriente Médio, mesmo que não tenha um enfoque político, é imediatamente atacada. O Outro simplesmente não existe e, se existir, será necessariamente visto como terrorista, fanático ou fundamentalista”.

O fato é que parece haver uma descrença generalizada, entre os escritores contemporâneos, na idéia de que possa existir em seus livros (e na sua autoridade, como escritor e cidadão) o poder de alterar qualquer coisa. O escritor parece não ser mais visto como uma ameaça ao sistema e aos poderosos. Em vez de queimar seus livros – como na novela Farenheit 465, de Ray Bradbury – é mais fácil ignorá-los, deixando cair sobre eles o manto da indiferença ou, simplesmente, deixando-os entregues à lógica do Mercado – segundo Eduardo Galeano, “o verdadeiro autor do pânico planetário”. Numa farsa democrática, a palavra não é mais silenciada, mas negligenciada, ridicularizada ou soterrada por outras palavras. Para Saul Bellow, escritor judeu norte-americano, o escritor e o poeta são, hoje, motivo de desprezo pelos homens verdadeiramente poderosos. “Eles agem assim porque a literatura moderna não lhes dá nenhuma prova de que alguém esteja pensando sobre qualquer questão significativa”.

Talvez haja um exagero nisto. Afinal de contas, alguns escritores estão entre as vozes dissidentes dos intelectuais que se opõem ao fundamentalismo, em todas as suas formas. Nomes como os de Norman Mailer, Susan Sontag, Phillip Roth, Gore Vidal, Kurt Vonnegut (EUA), Eduardo Galeano (Uruguai), Pepetela (Angola), John le Carré (França), Umberto Eco (Itália), José Saramago (Portugal) e Tarik Ali (Paquistão), entre outros, engrossam o coro dos descontentes, não somente contra a doutrina Bush, mas, de forma mais ampla e geral, contra o neoliberalismo e a globalização.

Sim, ainda existem vozes (de escritores) que se levantam. “A doutrina Bush é exatamente uma teoria fundamentalista e imperialista. Ela declara ao mundo: ‘Nós temos o direito de fazer o que quisermos, onde quisermos e vamos usar a força para prevenir que qualquer país do mundo nos desafie’”, diz Tarik Ali, autor do excelente Confronto de Fundamentalismos (Record). Galeano ironiza a tremenda ameaça do Iraque ao mundo: “A humanidade não pode permitir esse perigo, proclama o perigoso presidente do único país que já usou armas nucleares para assassinar a população civil. Terá sido o Iraque quem exterminou os velhos, mulheres e crianças de Hiroshima e Nagazaki?” Umberto Eco aponta a imprevisibilidade dos riscos de uma guerra: “O problema, como sabe Bush, é se uma ação militar não desencadearia contra-ataques terroristas como os de Nova Iorque e Washington. Os norte-americanos poderiam dizer: ‘Ok, bombardeamos Meca’. Mas seria como uma declaração de guerra contra todos os muçulmanos por igual. Uma cruzada seria o pior dos erros que poderíamos cometer”.

A idéia de que um escritor poderia deter uma guerra é, certamente, ilusória. Por outro lado, muitos conseguiram fornecer farto material para legitimá-la. No artigo “Rui e a Guerra”, do livro Prosa Dispersa, Ivan Junqueira cita o estadista inglês George Canning, quando este diz que “doutrinas precedem aos atos”. Segundo Canning, “a guerra sob a qual se debate a Europa mutilada (referia-se à I Guerra Mundial) teve por origem montão de teorias disformes e virulentas que, durante meio século, nas regiões mais acreditadas da sua cultura, encheram os livros dos filósofos, dos historiadores, dos publicistas, dos escritores militares”. Vale lembrar a glorificação da guerra como “única higiene do mundo”, pregada pelo Futurismo de Marinetti.

Mas poderia se chamar isto de literatura? Não, certamente, a grande literatura, que, como assinala muito bem Alberto Manguel, em No Bosque do Espelho, não pode ser uma “literatura do ódio”. “É provável que quando se submete ao preconceito, o escritor perca o controle de sua arte e suas palavras se recusem a obedecer, de tal forma que ele fica apenso com rótulos e simulacros, o invólucro vazio da linguagem”. “A verdade é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é a linguagem que exprime o universal”, disse Saint-Exupéry, em Terra dos Homens.

Até mesmo um exaltador da guerra, como o alemão Ernst Jünger, não poderia escrever um grande romance louvando os crimes perpetrados pelo nazismo. Pode-se louvar o heroísmo dos guerreiros, mas não a carnificina – absurdo que continua existindo, apesar de se apresentar, hoje, aos olhos do mundo, como disse o escritor Hélio Pólvora, como “uma fria matança dos mísseis”.

Na essência, as “batalhas de videogame”, das guerras contemporâneas, pouco diferem do quadro sangrento de mortes, mutilações e sofrimentos infinitos retratados, por exemplo, no romance Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, sobre a I Guerra Mundial. Nele, o autor alemão descreve um bombardeio de granadas em que dois enfermeiros ficam tão esmagados que podiam ser raspados da parede da trincheira com uma colher e enterrados numa marmita. “Um outro teve o abdome arrancado juntamente com as pernas. Está morto, com o peito encostado na trincheira, seu rosto está verde como um limão, e, no meio da barba cerrada, ainda arde um cigarro, que continua queimando até apagar-se nos seus lábios”.

Remarque mostra, muito bem, no seu libelo, que, se o escritor não pode deter a guerra, ele pode, pelo menos, ser sua testemunha. Pode ir até mais longe do que o jornalista, na medida em que conta, não somente com fatos, geralmente manipulados pelos generais de sempre, mas com a imaginação. A função do escritor é, portanto, como lembra Saramago, a de manter a memória, a de ajudar a humanidade a não esquecer.

Na iminência de mais uma guerra, temos que nos lembrar dos homens, mulheres e crianças mortos, mutilados, devastados (física e psicologicamente) não só nas guerras mundiais e no Vietnã, mas também em conflitos localizados, como os do Chile (o bombardeio do palácio de La Moneda foi também num 11 de setembro), na Nicarágua, em Ruanda, no Timor Leste, na Guerra do Golfo e tantas outras. É preciso dar uma cara e um nome ao anônimo, ao impessoal, pois é sempre mais difícil aceitar a morte de uma pessoa quando ela tem uma humanidade reconhecível. Cristopher Isherwood diz que é mais difícil destruir um exército de cinco milhões de homens quando “o quinto milionésimo homem é Waldemar. E Waldemar pode ser qualquer um”. E, “se você se recusou a apertar o botão por causa do Waldemar”, diz ele, “você nunca mais conseguirá apertá-lo”.

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