Cônicas de Encantamento

Livro do jornalista Edson Lodi retrata aspectos da União do Vegetal e da vida do seu fundador, o baiano José Gabriel da Costa

Jornal A Tarde – 06/12/04
Carlos Ribeiro 


Embora enxuto em suas 104 páginas, Estrela da minha vida – Histórias do sertão caboclo, de Edson Lodi, é um livro singular. Não apenas por suas qualidades jornalísticas e literárias – é bem-escrito e tem uma mistura bem-equilibrada de informação, poesia e experiência –, mas por retratar, de forma pioneira em livro, pequenos trechos da vida de um homem especial: o baiano José Gabriel da Costa, mestre Gabriel (1922-1971), fundador, em 22 de julho de 1961, do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV). Com o lançamento marcado para hoje, das 18 às 21 horas, na livraria Grandes Autores (Itaigara), o livro retrata, de forma simples e direta, aspectos desta religião 100% brasileira, que utiliza o chá hoasca em seus rituais e conta atualmente com cerca de 12 mil sócios distribuídos em núcleos instalados em quase todas as capitais brasileiras e no exterior (EUA, Inglaterra e Espanha).

Mineiro de Juiz de Fora, mas morando há 40 anos em Brasília, Edson Lodi, 53, é jornalista, paisagista (trabalha com bonsai) e coordenador de relações internacionais da UDV, além de integrar o quadro de mestres da instituição. A primeira parte do livro, intitulada Crônicas da floresta, mostra a sua chegada à União do Vegetal, em 1976, na cidade de Porto Velho, onde comungou, pela primeira vez, o chá hoasca (também conhecido como ayahuasca), utilizado para efeito de concentração mental e como valioso recurso para o desenvolvimento espiritual. A burracheira (nome dado ao efeito do chá) proporcionou-lhe a abertura para uma experiência inesquecível. “Um mundo secreto e misterioso abria suas portas a um Eu igualmente desconhecido. Voava leve, livre, breve passarinho pelo céu, onde me aninhava em paz”.

No capítulo seguinte, Revisitando o sertão, Lodi apresenta o depoimento de um dos irmãos do mestre Gabriel, Antonio Gabriel da Costa, 77 anos.

Comerciante e ex-camioneiro, mestre Antonio mora em Feira de Santana e é membro do núcleo Coração de Maria, uma das sete unidades existentes no estado da Bahia. A UDV foi trazida para a Bahia, em 1976, por Raimundo Nonato Marques, o artista plástico e compositor M. Nonato, fundador do núcleo Apuí.

Neste capítulo, mestre Antonio relembra a infância com seu irmão Gabriel, “que se destacava em tudo o que fazia”, nos anos 30 e 40, na Fazenda Pedra Nova, localizada onde fica hoje o município de Coração de Maria. Lembra que, aos 22 anos, José Gabriel se mudou para Salvador, onde trabalhou como comerciante no mercado das Sete Portas e como cobrador de bonde, até que seguiu, em 1944, para a Amazônia, como Soldado da Borracha. Trabalhou durante muitos anos, como seringueiro, na fronteira do Brasil com a Bolívia, casou-se com Raimunda Ferreira da Costa (dona Pequenina) e, em 1959, reencontrou-se com o vegetal, então distribuído nos seringais. Em 1961, ainda morando no seringal com sua família, fundou o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, hoje religião reconhecida pelas autoridades brasileiras, norte-americanas e pela ONU.

M. Antônio fala, numa das melhores partes do livro, sobre seu reencontro com o irmão, em 1970, após quase 30 anos sem ter notícias dele. Conta que, pouco antes de sua morte, ele retornou a Feira de Santana para rever a família. No ano seguinte, foi visitá-lo em Porto Velho, onde bebeu o chá pela primeira vez e ouviu, do M. Gabriel, que a União do vegetal seria conhecida no mundo inteiro, através da sua missão de trabalhar pela paz.

No terceiro capítulo do livro, “Tecendo a branca rede”, Lodi fala também de seu contato, como representante da UDV, com outra instituição da Amazônia que utiliza o chá hoasca: o Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus – Fonte de Luz”, fundado no Acre, nos anos 40. A origem da entidade, segundo Lodi, “está intimamente relacionada à história do Acre e nasce da prática cristã de Mestre Daniel (Daniel Pereira de Matos, fundador do Centro), de seu aprendizado como o do feitio do Daime, de origem indígena, e, ainda, dos saberes apreendidos das populações tradicionais, manifestos no uso de plantas medicinais”.

O leitor encontrará nos relatos de Edson Lodi momentos de sensibilidade e sabedoria. Segundo diz a jornalista carioca Cristina Rego Monteiro, “como que à espera do momento apropriado, conhecimentos preciosos vêm à tona neste livro, revelando a serena força ancestral da religiosidade brasileira. Edson Lodi transita com respeitosa intimidade neste preservado universo sagrado da nossa cultura, chave do futuro gerado através de gerações”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *