Cenas de um Visionário

FICÇÃO-CIENTÍFICA Coletânea mostra o universo perturbador de Philip K. Dick, um dos mais populares autores americanos. 

Jornal A Tarde – 01/10/02
Carlos Ribeiro 

A edição, pela Record, de Minority Report – A Nova Lei, de Philip K. Dick (368 páginas, R$ 32), abre para o leitor brasileiro uma nova janela para a science fiction. Embora não seja um mestre como o Ray Bradbury dos magníficos contos de Os Frutos Dourados do Sol e O País de Outubro, Dick está sendo redescoberto e saudado como um dos mais criativos autores de um gênero que coroou, também, nomes como os de Arthur C. Clarke e Isaac Asimov.

Mais do que isto, um excêntrico visionário, capaz de antecipar um futuro sombrio, no qual as liberdades e direitos individuais são sistematicamente violados por poderes obscuros, respaldados por uma tecnologia levada ao extremo da sua capacidade de manipulação da realidade.

Grande parte dos dez contos reunidos nessa coletânea, que leva o nome de uma das histórias – não por acaso, a que foi adaptada recentemente para o cinema, no filme homônimo de Steven Spielberg -, traz essa atmosfera de pesadelo, em que realidade e delírio confundem-se. Trata-se da velha história do indivíduo que é colocado diante de um sistema opressivo que devora quem ouse confrontá-lo.

Os personagens dos contos de Philip Kendred Dick (1928-1982) são geralmente homens afetados por graves crises de identidade, incapazes sequer de saber se são de fato humanos ou criações da ciência; se suas memórias são verdadeiras ou se foram implantadas.

Um bom exemplo disso é o policial Decker do conto Do Androids Dream of Eletric Sheeps!, interpretado por Harrison Ford no filme de Ridley Scott, Blade Runner – O Caçador de Andróides (ausente nessa coletânea), ou o Douglas Quail de Podemos Recordar para Você, Por um Preço Razoável, vivido por Arnold Schwarzzenneger em O Vingador do Futuro, de Paul Verhoeven (este sim, incluído no volume).

Dilema ético

Ainda que não alcance o patamar de sofisticadas distopias políticas, como os romances 1984, de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Dick consegue criar um universo particular, coerente e perturbador, numa obra composta por dezenas de contos e cerca de 40 romances. Universo que conquista novos leitores, talvez por abordar temas que se mostram cada dia mais próximos da realidade.

Outro elemento que parece exercer um fascínio crescente sobre os admiradores do autor é a forma como ele retrata os personagens. A distinção entre Dick e outros autores, como Asimov, Clarke e Robert A. Heinlein, conforme assinala Malcolm Edwards, no prefácio, é que “enquanto eles optavam centrar suas histórias no conceito, Dick preferia as pessoas.

E essas pessoas não eram heróis ou heroínas tradicionais: eram os cidadãos comuns do futuro, lutando contra versões diferentes dos problemas humanos normais: dificuldades financeiras, no trabalho e nos relacionamentos”.

Assim é, por exemplo, o herói John Anderton, do conto Minority Report – interpretado no filme de Spielberg por Tom Cruise. Ele é um policial que, no ano de 2054, em Washington, chefia uma agência que, através de videntes, chamados precogs, consegue antever os crimes que seriam cometidos, prendendo por antecipação os futuros criminosos antes que eles os praticassem.

O problema começa quando os mutantes vêem o próprio chefe da Pré-Crime assassinando um homem, o que o coloca diante de um dilema: ao provar que é inocente, ou seja, que não cometerá o crime do qual é acusado por antecipação, ele admitirá que as milhares de pessoas que prendeu, ao longo de 30 anos, poderiam ser também inocentes – o que o torna, mais uma vez, culpado.

Philip K. Dick morreu, aos 53 anos, em 1982, pouco antes de ter seu trabalho reconhecido como algo mais do que uma forma de ficção barata. Chegou a assistir a pré-estréia de Blade Runner – filme que o tornaria conhecido como um dos mais populares autores de ficção científica.

Morreu como viveu: atormentado por problemas financeiros (chegou a se alimentar de comida de cachorro), dependente de anfetaminas e, acredita-se, esquizofrênico, tomado por visões assustadoras de um futuro que se torna cada dia menos improvável.

EDITORA: RECORD
PÁGINAS: 368
PREÇO: R$ 32
TELEFONE: (21) 2585-2047 

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