Cenas Brasileiras – Ensaios Sobre Literatura

Cenas brasileiras: ensaios sobre literatura, de Igor Rossoni ultrapassa, criativa e conscientemente, as fronteiras dos gêneros ensaísticos, não raro mesclando o “espírito” da crônica – tema de um dos ensaios, um dos melhores –, o ritmo do poema e a análise textual objetiva e rigorosa, sem, entretanto, abrir mão da subjetividade e da sensibilidade, aqui aceitas como formas legítimas de conhecimento.

O autor, também poeta e ficcionista, além de teórico, ensaísta e professor universitário, não hesita em reformular o “objeto” estético da sua análise através de um olhar que não se nega como sujeito – e, mais ainda, como autor que dialoga com outros autores no âmbito da linguagem estética, deslocando incessantemente o lócus tradicional do crítico, aquele do qual se exigia isenção e distanciamento no ato de informar e formar o público leitor.

Lembra-nos que – a despeito do fato de necessitarmos de classificações, para não nos perdermos numa complexa miscelânea inter(con)textual, e dos rigores acadêmicos, com suas normatizações não poucas vezes engessantes e castradoras – os limites entre o que tradicionalmente entendemos como prosa e poesia, nas suas diversas subdivisões, ou mesmo entre o que seria ou não literatura, são, hoje, frequentemente difusas.

O livro é, portanto, uma casa de portas abertas à análise objetiva do crítico, mas também à perspicácia do jornalista, que reúne dados e os contextualiza; à coloquialidade do cronista, que os comenta a partir de um ponto de vista pessoal e humano; e, sobretudo, à paixão do poeta que exprime o encantamento pela palavra, causando, algumas vezes, o “estranhamento” próprio da boa literatura, misturando códigos linguísticos e procurando extrair deles novos significados.

Creio ser este “encantamento pela palavra” o que determina o elenco dos autores e textos aqui abordados, alguns deles já visitados em outros livros de Rossoni, a começar pela autora de Laços de família, estudada em Zen e a poética auto-reflexiva de Clarice Lispector: uma literatura de vida e como a vida (Unesp, 2002), e Manoel de Barros, idem em Fotogramas do imaginário: Manoel de Barros (Vento Leste, 2007).

Há canônicos: Drummond, Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Cabral, Rubem Braga, Ariano Suassuna, Dalton Trevisan, Manuel Bandeira. Mas também nomes pouco conhecidos e/ou estudados, como os da poeta paulista Vera Lúcia de Oliveira, do Tempo de doer / Tempo di soffrire, publicado em Roma; da poeta sul-matogrossense Flora Thomé, com os haicais de Nas águas do tempo; do carioca/baiano Nivaldo Lariú, autor do popularíssimo Dicionário de Baianês; do paulista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, redator do jornal O Pirralho (1911-1917); e, dentre outros, dos gaúchos Eduardo Sterzi e Ubirajara Moreira Lopes, este último autor de poesias gauchescas, dos quais o belíssimo poema “Minuano” é destacado e transcrito na íntegra.

E há, não devemos esquecer, “entrelugares” e territórios de afetividades (da linguagem) pelos quais o autor transita, em suas andanças líricas, em horas de pouco falares, tecendo “impressões sobre estrelas e mananciais dos autores sugeridos. No breve das ventanias…”

Carlos Ribeiro

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