Cartas de um Poeta

LANÇAMENTO Globo reedita obras-primas de Rainer Maria Rilke, com traduções de Paulo Rónai e Cecília Meireles.
Jornal A Tarde – 05/03/02

Carlos Ribeiro

Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Nesse caráter de origem está o seu critério – o único existente”. A frase, extraída da primeira das cartas endereçadas por Rainer Maria Rilke (1875-1926) ao jovem Franz Xaver Cappus, dá uma idéia do que significava a poesia para este que é considerado um dos mais importantes poetas líricos alemães.

A poesia, diz Rilke, deve ser fruto de um profundo e minucioso exame interior. Daí a inutilidade de buscar respostas fora, com os críticos ou com qualquer outra pessoa. “Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém”, sentencia, ao mesmo tempo em que mostra a inutilidade de se escrever quando isto não é absolutamente necessário. “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte na hora mais tranqüila de sua noite: Sou mesmo forçado a escrever? Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar à aquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa sua vida de acordo com essa necessidade”.

As cartas – dez no total -, escritas entre 1903 e 1908, foram enviadas ao jovem poeta Kappus, que as guardou, publicando-as somente em 1926, três anos depois da morte de Rilke. A publicação alcançou enorme popularidade, ultrapassando em muito os limites de uma mera correspondência pessoal para tornar-se uma mensagem a todos os jovens poetas do futuro – a todos os que, nas sucessivas gerações (mesmo nas mais cínicas), procuram uma referência, uma orientação para o sempre incerto, e muitas vezes ingrato, fazer poético. “O Rilke dessas cartas é como um intermediário de mistérios, uma espécie de oráculo, que se consulta e em quem se crê”, diz Cecília Meireles, no prefácio à primeira edição do livro, no Brasil, lançada em 1953 pela editora Globo.

Pois é a Globo que nos brinda agora com a segunda edição (após 31 reimpressões) dessa obra-prima, mantendo a tradução original de Paulo Rónai, o prefácio de Cecília Meireles e acrescida de prefácio intitulado A ética da solidão, do poeta gaúcho Nei Duclós. A nova edição mantém a inclusão do belo poema em prosa A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, traduzido por Cecília. Trata-se, neste caso, de uma peça literária na qual o poeta conta a saga de um ancestral morto numa batalha. Escrito numa única noite do ano de 1899, o poema alcançou fama imediata, espalhando-se rapidamente pela Europa e pela América.

Nesse texto, a “fantasia lírica”, referida por Hegel como elemento diferenciador, indispensável para a apreensão poética de um conteúdo, expressa-se de forma vivamente pictórica, que pode ser visualizada como numa pintura, ou como numa cena cinematográfica, já que plena de movimento, como mostra o seguinte trecho:

“Principiou como banquete. E converteu-se em festim, mal se sabe como. As altas chamas tremulavam, as vozes estrugiam, confusas canções jorravam dos cristais e das luzes; e finalmente dos ritmos amadurecidos brotou a dança. E a todos arrastou. Era um bater de vagas pela sala – um encontrar-se e um escolher-se, um despedir-se e um reencontrar-se, um embriagar-se de brilho e um cegar-se de luz, e um embalar-se no vento estival que mora na roupagem das cálidas mulheres.

Do escuro vinho e de mil rosas, a hora sussurrante se escoa no sonho da noite”.

Cartas a um Jovem Poeta e A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke (111 páginas, R$ 14) têm bela capa, ilustrada com foto de Regina Stella, da série “Os objetos silenciosos”. Puro deleite.

EDITORA: GLOBO
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