Cadeira Elétrica: Memórias de Quem Sobreviveu

Este livro é fruto da experiência radical de um sobrevivente, como o autor, Levi Wenceslau, muito apropriadamente se intitula. Experiência decorrente de uma travessia dramática da qual o herói demasiado humano desta narrativa emerge para nos contar uma extraordinária história de resistência e superação.

Com uma linguagem que prima pela fluência, clareza, lirismo, criatividade e precisão, Levi consegue compartilhar uma realidade em princípio inacessível para a maioria de nós, seus leitores, mesmo os mais sensíveis e imaginativos. Não por ser obscura e complexa, mas por implicar uma vivência que não poderia ser compreendida, na sua totalidade, por quem não tenha vivido, na carne e no espírito, os difíceis momentos de incerteza, solidão e sofrimento passados por ele.

Na sua longa romaria mar adentro, na tênue fronteira entre a vida e a morte, Levi vivencia e testemunha situações estranhas, descreve personagens pra lá de insólitos, e, na dura readaptação à vida cotidiana, faz a vigorosa denúncia do desrespeito e do despreparo que a nossa sociedade dispensa ao deficiente físico, este ser incompreendido que “sofre com a falta acessibilidade e de inclusão social”.

Eis porque podemos dizer que Levi Wenceslau realizou uma dupla façanha: a de extrair significados profundos da dor que foi obrigado a vivenciar, e a de compartilhá-los com seus semelhantes através de uma narrativa que nos enriquece e sensibiliza ao ponto de nos colocar em contato com o que há de mais humano em nós – e com o divino que nos ultrapassa.

O simples relato de um jovem que, no dia do seu aniversário de 23 anos, sofre um acidente de automóvel na entrada da cidade de João Pessoa, onde então morava, tornando-se tetraplégico, adquire, sob o olhar inteligente, lúcido, saudavelmente crítico e irônico, mas nunca amargo, de Levi, uma dimensão maior.
Este livro, caro leitor, é a prova de que os alquimistas estavam certos: é possível, sim, transmutar o metal pesado (da privação, do desespero e da desesperança), no ouro da firmeza, da esperança, do amor e do conhecimento.

Carlos Ribeiro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *