Boiadas de Versos

ENTREVISTA – José Inácio Vieira de Melo lança o segundo livro, Decifração de Abismos, na próxima quinta-feira, na Fundação Casa de Jorge Amado. 

Jornal A Tarde – 24/09/02
Carlos Ribeiro 


Eis aí, leitor, o sertão de volta à nossa poesia. “De volta” é uma maneira de dizer, pois dela jamais saiu – e nem podia, pois o sertão é a própria poesia. Mas que alegria nos dá saber que existem, nas gerações mais recentes, poetas que continuam fazendo de sua obra “um aboio livre que ajunta boiadas de versos”.

José Inácio Vieira de Melo é um desses. Nascido no povoado de Olho D’Água do Pai Mané, município de Dois Riachos, Alagoas, em 1968, mas morando em Salvador desde 1998, ele mostra, no livro Decifração de Abismos – cujo lançamento será na próxima quinta-feira, das 18 às 21 horas, na Fundação Casa de Jorge Amado -, que, como disse o poeta cearense Patativa do Assaré, pra fazer versos, não precisa professor, pois “Basta vê no mês de maio,/ Um poema em cada gaio/ E um verso em cada fulô”.

Vale dizer que Patativa é, ao lado de João Cabral de Melo Neto e Gerardo Mello Mourão, uma das principais referências na formação de Inácio, que já publicou, em 2000, o livro Códigos do Silêncio, pelo selo As Letras da Bahia, e foi um dos vencedores do Prêmio Iararana de Poesia 2001. Veja a seguir a entrevista com o poeta.

P – O que você quer dizer com o título Decifração de Abismos?

R – É o poeta peregrinando pelos próprios abismos em busca da decifração. Com Decifração de Abismos, digo o que sinto, expresso o modo como vejo o mundo e o que causa em mim essa maneira de ver e entender o mundo. Mas é importante lembrar que o título deu-se por conta da publicação do prefácio do meu primeiro livro, Códigos do Silêncio, no suplemento literário A TARDE Cultural. O prefácio, que foi feito por Gerardo Mello Mourão, tinha o nome de Um Momento de Beleza, mas foi publicado com o título de Decifração de Abismos, creio que sugerido por Florisvaldo Mattos. Achei muito bonito. A princípio, o livro se chamaria Zoada, depois é que resolvi mudar.

P – Ruy Espinheira Filho afirma, no prefácio, que o seu universo poético permanece sendo o mesmo do primeiro livro, embora mais amadurecido. Como você distingue o livro atual do anterior?
R – Fico contente com a afirmativa de Ruy, pois a entendo como a identificação de um estilo. E ser identificado pelo estilo é o que todo poeta almeja. O que faz a diferença entre os dois livros é que, em Decifração de Abismos, me sinto mais seguro, mais maduro, dominando melhor as formas que visito, porém ciente dos caminhos que ainda estão pela frente e do aprendizado que eles proporcionarão. Costumo dizer que sou completamente poeta, mas não um poeta completo. Há muito para se aprender.

P – Luís Antonio Cajazeira Ramos diz, nas orelhas, da sua trajetória do sertão para a cidade grande, e do trânsito, na sua poética, da vivência no sertão aos mestres da nossa literatura. Como você explica esse processo?
R – Sou uma pessoa da roça e sempre vou ser. Nasci em Alagoas, em Olho d’Água do Pai Mané, um pequeno povoado; passei a infância e a adolescência entre as cidades de Palmeira dos Índios e Arapiraca. Estudava na cidade, mas sempre passava os finais de semana e as férias na fazenda de meu pai, na Ribeira do Traipu. Fiz o segundo grau em Maceió e, depois, em 1988, vim parar numa fazenda no município de Maracás, sudoeste da Bahia, onde fiquei por 10 anos. Foi justamente nesse período que fui desenvolvendo as minhas leituras e comecei a me aceitar como poeta, pois não tinha outra opção – nasci com esta praga sagrada. A minha poesia parte da tradição que nos legou o século XX. Vivi no campo, tangendo e aboiando o gado e li boa parte das obras dos mestres da nossa poesia do século XX alumiado pela luz de um candeeiro, daí a afirmação de Luís Antonio, e não poderia ser de outra forma.

P – Por que você, um dos poetas mais admirados dessa nova geração, depois de ter estreado pelo selo As Letras da Bahia, com um trabalho que passou pelo crivo de uma comissão editorial, resolve agora publicar um livro independente?

R – Porque não encontrei outra maneira. O selo Letras da Bahia só publica o mesmo autor depois de quatro anos da publicação anterior. O Prêmio Copene é restrito a autores inéditos. As editoras do Rio-Sampa fazem vista grossa para os poetas consagrados, imagine para os jovens. Tive algumas promessas, mas eram pura embromação. Então, resolvi fazer essa publicação independente. O selo Aboio Livre Edições surgiu para mostrar que se pode fazer um trabalho sério sem ter que ficar à mercê dos caprichos dos parcos editores da província. Escolhi o nome “aboio livre” porque é assim que sinto a minha poesia: um aboio livre que ajunta boiadas de versos.

P – Fale mais sobre o livro…
R – Como já afirmei, o livro dá continuidade a minha expressão poética, tendo por acréscimo um misticismo que o perpassa como um todo, nas suas cinco partes: Zoada, Cânticos, Jardim das Algarobeiras, Cantigas e Irresidência. Apesar do forte traço místico, cada um dos cinco capítulos tem uma certa linha temática. Em Zoada, o poeta dá voz aos gritos do silêncio, numa retomada ao livro anterior, Códigos do Silêncio. Em Cânticos, é onde está mais forte a presença mística, uma fé que provém das suas raízes – avô, pai e mãe – e que transmite ao filho. Em Jardim das Algarobeiras, percebe-se a força telúrica, o poeta abóia para o mundo as suas toadas. Cantigas são poemas feitos para musas inspiradoras, é o conjunto que apresenta uma musicalidade maior. O capítulo que encerra o livro é Irresidência, no qual o poeta revela seus conflitos, fala da angústia que o acompanha e da falta de sentido que percebe em tudo. É perceptível também uma insinuação para a morte que chega encerrando esse enorme nada, mas que – no início do livro – ao mesmo tempo promete jardins.

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