Baú de Monstros

INFANTO-JUVENIL

Vampiros, demônios primitivos, fantasmas e invasores alienígenas são alguns dos ingredientes do livro Treze Noites de Terror, lançado pela Editora do Brasil.

“A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido”. A frase, que inicia o ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura, de Howard Phillips Lovercraft, remete ao “terror cósmico”, que, nas palavras do autor, ele próprio um dos grandes mestres do gênero (apesar da sua indigesta prolixidade), “aparece como ingrediente do mais remoto folclore de todos os povos, cristalizado nas mais arcaicas baladas, crônicas e textos sagrados”. No Egito, nos países semitas, entre os nórdicos das geladas montanhas do norte ou entre os pele vermelhas das múltiplas e variadas nações indígenas das américas, essa estranha e obscura espécie de terror esteve sempre à espreita, manifestando-se assim que alguma coisa (sobretudo a escuridão das noites primordiais) limita os sentidos, dando asas à imaginação.

Das antigas tradições orais às mais avançadas manifestações literárias da contemporaneidade, as fantasias de terror percorreram um longo caminho, adquirindo as mais diversas formas. O romance gótico, iniciado em 1764 por Sir Horace Walpole, com seus cortejos de fantasmas, masmorras e castelos assombrados deu o pontapé inicial a uma extensa linhagem de autores que levaram o gênero aos seus pontos mais culminantes, como Poe, Hoffmann, Shelley, Stoker, Stevenson, Hawthorne e Machen, até atingir a forma mais moderna do horror, que sai da esfera do sobrenatural para mostrar a sua face mais assustadora: a do que é afligido ao homem pelo próprio homem.

Exercício imaginativo

Com longa tradição, sobretudo na literatura anglo-saxã e alemã, o romance ou conto de horror não alcançou maior projeção no Brasil. Apesar da existência de um traço profundamente místico do povo brasileiro, parece haver algo, na nossa forma de ver o mundo, que imprime um certo ceticismo com relação aos seres que nos assombram as noites. Algumas das nossas melhores obras são as que têm, embutidas nelas mesmas, um tom de desdém, temperada com uma melancolia, cujo melhor exemplo talvez seja o primoroso conto “Flor, Telefone, Moça”, de Carlos Drummond de Andrade. Nesse caso, o importante é que fique, ao final, um traço de dúvida: será que houve, realmente, a interferência do sobrenatural? Ou teria sido tudo efeito de um estado psicológico de morbidez?

O livro Treze Noites de Terror (Editora do Brasil, 175 páginas), do poeta, ficcionista, publicitário, jornalista e letrista da MPB Luiz Roberto Guedes, consegue mostrar, com certa dose de verossimilhança, a seriedade que alicerça os antigos clássicos do gênero. Mas é num traço de humor inteligente e perspicaz, que pontilha sutilmente algumas de suas páginas, num tom de auto-paródia, que consegue alcançar os melhores resultados Autor de um belo livro de poemas, Calendário Lunático – Erotografia de Ana K e de várias obras infanto-juvenis, o paulistano Guedes mistura com engenhosidade uma série de temas familiares aos aficcionados da science fiction e dos filmes de terror (a invasão da terra por seres alienígenas após a queda de um meteoro, a escravização dos humanos por extraterrestres, a comunicação com espíritos desencarnados, a libertação da força primitiva de um sanguinário deus-animal nas ruínas de uma civilização pré-colombiana, o apocalipse provocado por explosões atômicas subterrâneas, entre outros).

Embora se observe o que parece ser uma influência de filmes americanos, a exemplo do clássico Vampiro de Almas, de Don Siegel, em algumas de suas histórias, o livro de Luiz Roberto Guedes consegue salvar-se do que poderia ser um mero pastiche, ao mostrar-se como um interessante exercício imaginativo. Exercício que prende a atenção e, o que é importante numa obra infanto-juvenil, diverte ao mesmo tempo em que provoca a reflexão sobre temas atuais, como a guerra biológica, a vida após a morte, a cegueira espiritual da civilização contemporânea que marcha para a auto-destruição. Destaca-se, entretanto, no que achamos ser o melhor conto do volume, o velho tema, bem brasileiro, do caminhoneiro que se hospeda numa pousada que já havia sido incendiada anos antes. (História contada no estilo dos programas sertanejos veiculados nas rádios do interior do País).

O mais interessante, em Treze Noites de Terror, é que, trabalhando com temas já tão explorados, Guedes consiga driblar o lugar-comum para dar ao leitor uma narrativa instigante e criativa, valorizada pelo projeto gráfico de Joca Reiners Terron e as ilustrações neogóticas de Victor Tavares. Eis aí, aberto, o “baú de monstros” de um autor que, entretanto, confessa não ter medo do sobrenatural, e sim das ameaças do mundo real, mas que admite o prazer de contar uma boa história, para arrepiar você. “Pelo menos um pouco”.

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