Aquém do Mistério

RELIGIÃO – Livro aborda aspectos da vida de Jesus, mas passa longe do significado simbólico mais pleno do representante máximo da fé cristã. 
Jornal A Tarde – 26/03/02

Carlos Ribeiro 

Uma pequena biografia de Jesus é o que propõe o ministro da Igreja Metodista Britânica e reitor da Wesley House, em Cambridge, Martin Foward, no livro Jesus, editado no Brasil pela Cultrix. Nas 200 páginas do volume, ele se propõe a retratar a figura do Messias, procurando “descrever não só a importância da vida de Jesus em seu contexto histórico, como também quais aspectos da vida dele tiveram e continuam tendo significado para as gerações subseqüentes, especialmente a nossa”.

Tal perspectiva remete aos autores que, desde o advento do iluminismo europeu, alimentaram a ilusão de encontrar um Jesus histórico, como diz o próprio Forward, além dos “labirintos do mito e da lenda” (…), “livre de acréscimos teológicos e miraculosos” que lhe foram impostos ao longo desses dois mil anos da Era Cristã. No entanto, como bem assinalou o pensador humanista alemão Albert Schweitzer – citado neste mesmo livro – “o que cada época sucessiva da teologia encontrou” foram “seus próprios pensamentos em Jesus”. Ou seja: “Cada pessoa criou Jesus segundo seu próprio caráter”.

A busca por um Jesus histórico tem-se revelado, sempre, insuficiente. E não sem razões, já que, além do fato de ele pertencer a uma outra esfera, restaram vagos (quase inexistentes) registros históricos da mais influente, enigmática e surpreendente personagem da história da humanidade. Do “jovem” galileu, que vagava pela Palestina, por volta do ano 29, empreendendo “um breve ministério que terminou com sua morte violenta, executado na cruz”, conforme diz Forward, sobraram algumas sucintas e até suspeitas referências.

Fontes precárias 

Uma delas consta dos anais, escritos pelo historiador romano Públio Cornélio Tácito. Ele se refere ao incêndio de Roma, em 64, citando o que dizia ser uma seita de “depravados cristãos”, que foi punida, “com refinamento”, pelo imperador Nero. Diz ele que “o fundador dessa seita, Cristo, fora executado durante o reinado de Tibério pelo governador da Judéia, Pôncio Pilatos. Apesar desse revés temporário, a fatal superstição renasceu, não só na Judéia (onde esse mal tinha começado), mas, até mesmo, em Roma”. E finaliza: “Todas essas práticas degradadas e vergonhosas florescem na Capital”.

Há, ainda, referências breves aos cristãos, feitas por Suetônio e pelo político Gaio Cecílio Plínio, que dizia ser a religião dos cristãos “uma tosca e exagerada superstição”. Mais tarde, nos anos 90, o historiador judeu Flávio Josefo traçaria o retrato mais aproximado de Jesus com relação ao que foi divulgada pelos evangelhos: o de “um homem sábio, se, na verdade, é possível chamá-lo homem”. Flávio teria sido, dessa forma, o primeiro não-cristão a admitir, nos seus escritos, a possibilidade de uma origem divina do Cristo. Há, entretanto, sérios questionamentos sobre a autenticidade desse documento, por parte dos estudiosos.

O fato é que, apesar da existência de outras fontes – estóicas e dos chamados evangelhos apócrifos, não reconhecidos em sua autenticidade pela Igreja Católica -, todo o extraordinário impacto da doutrina cristã deve-se, sobretudo, aos evangelhos atribuídos aos apóstolos e aos discípulos destes: Marcos, Mateus, Lucas e João. São neles que estão registrados todos os acontecimentos referentes ao nascimento, vida e morte do Messias – e da sua definição como o Filho de Deus.

Deficiências 

O livro de Martin Forward pode ser visto como um bem-documentado passeio por todas essas e outras questões que envolvem o nazareno. Começando pelas Fontes para o Estudo da Vida de Jesus (título do primeiro capítulo), ele passa pelas diversas concepções de Jesus, como Filho de Deus, Messias e Filho do Homem, para desembocar na sua relação com a religião judaica e com as demais religiões: muçulmana, hinduísta e budista. No capítulo 3, aborda a relação, “surpreendentemente livre a aberta”, do galileu com as mulheres.

A principal deficiência do livro é retratar o representante máximo da fé cristã como um homem, de certa forma, comum. Isto é, como alguém que, embora sob muitos aspectos extraordinário, é passível de medos, frustrações, decepções e esperanças. Enfim, como alguém que se sujeitaria a análises psicológicas e, até mesmo, a suposições sobre as suas preferências sexuais – especulações que só fazem confirmar a constatação de Albert Schweitzer referida no início desta matéria. Na condição de um ícone que pertence à esfera do sagrado, Jesus é, sobretudo, um fenômeno simbólico, espiritual, que sempre transcenderá as análises que possam ser feitas sobre ele. Pertence, enfim, ao território insubmisso do Mistério.

EDITORA: CULTRIX
PÁGINAS: 200
PREÇO: R$ 21
TELEFONE: (11) 272-1399 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *