Apenas questão de método: pelas vias do estranhamento

Carlos Ribeiro

Por muito tempo, o romance policial foi associado à novelística inglesa, com as intrincadas, cerebrais e assépticas tramas de Agatha Christie (Hercule Poirot) e Conan Doyle (Sherlock Holmes), ou à americana, mais especificamente a escola hard boiled, materializada no jogo sujo do submundo do crime, retratado, com frases curtas e contundentes, nas histórias de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Além, é claro, da famosa novela “Os crimes da rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, que marcou o surgimento do gênero, e muitas outras variações, inclusive na França, pátria dos famosos personagens Arsène Lupin, de Maurice Leblanc, e do Inspetor Maigret, de Georges Simenon.

O gênero ganhou, ao longo do século 20, e neste início do século 21, algumas variações surpreendentes. Mais recentemente, um grande número de escritores inundou o mercado com tramas vigorosas e personagens com perfis inusitados, em livros que servem, com grande frequência, para adaptações cinematográficas de boa qualidade, a exemplo de Los Angeles: cidade proibida (James Elroy), Mystic river / Sobre meninos e lobos (Denis Lehane), O colecionador de ossos (Jeffery Deaver), Dívida de sangue, e Os homens que não amavam as mulheres, de Stieg Larsson.

Não faltaram títulos de autores “não policiais”, eruditos, dos quais podemos citar um exemplo emblemático: o romanceO nome da rosa, no qual Umberto Eco mescla, de forma magistral, características do romance policial com as da crônica histórica, ou melhor, da crônica da vida religiosa num mosteiro da Itália medieval, no século 14. Há, inclusive, bons ecos da literatura policial em contos fantásticos de Jorge Luís Borges, como se vê em “O jardim de caminhos que se bifurcam”, do livro Ficções.

No Brasil, onde o gênero é geralmente associado à violência urbana presente em romances de Rubem Fonseca, e, mais recentemente, na ficção exercida pelo psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza, uma obra merece uma atenção especial. Trata-se do romance Apenas questão de método, de Cunha de Leiradella – escritor, dramaturgo e roteirista nascido em Portugal, em 1934 e que viveu 45 anos no Brasil, desde 1958, no Rio de Janeiro, em Salvador e em Belo Horizonte, retornando a Portugal em 2003.

Humor cáustico

Lançado em Portugal, pela Editorial Caminho, onde ganhou o Prêmio Caminho de Literatura Policial de 1999, e publicado em 2001, pela Quartet, Apenas questão de método traz uma inovação no gênero. Para usar uma expressão do crítico André Seffrin, transcrita na contracapa do livro, trata-se de “um policial barroco”, no qual o que mais sobressai não é, como em Doyle, o raciocínio dedutivo, ou, como em Hammett, o estilo seco e direto, do detetive. Aqui, a principal atração é a linguagem requintada do autor, repleta de expressões, máximas, ditos, preceitos e aforismos, marcados pela singularidade do contexto semântico, onde o lugar comum, por um surpreendente e paradoxal golpe de mágica, ganha o efeito do riso pelas vias do estranhamento.

A história, quase banal, gira em torno da ida do detetive Eduardo da Cunha Júnior – protagonista dos romances de Leiradella e com o qual diz este manter uma “relação simbiótica” – a Belo Horizonte para investigar uma sequência de roubos e falcatruas na Mercúrio S/A, Crédito, Financiamento e Investimento, a maior financeira independente do estado de Minas Gerais. De repente, Cunha Júnior, ex-policial, ex-capanga de bicheiro e devoto de Santo Expedito (“santo das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução”), que nunca tinha colocado os pés fora do Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Nova Iguaçu, Teresópolis e alguns cafundós da Baixada Fluminense, vê-se mergulhado num intrincado mecanismo de interesses escusos. E, o que é pior, num perigoso jogo de xadrez onde as peças se movem, com desconfianças dissimuladas, em movimentos lentamente ensaiados.

É nesse terreno pantanoso que o pragmático detetive desloca-se, entre personagens sinistros do mundo financeiro, tateando o caminho que levará ao desvendamento de um complexo jogo de favorecimentos. E, como num romancenoir, não poderia faltar a presença de uma mulher, Manuela, com a qual se envolve e que termina carregando-o para o submundo das drogas e do crime de Belo Horizonte. O que importa, no entanto, em Apenas questão de método é a força da linguagem do autor, ou, como assinala Seffrin, “o seu poder de sugestão, a fina carpintaria do diálogo e do suspense, o ritmo frenético da frase, o traquejo no uso de gírias e preciosismos que integram um todo coeso […], um castelo de palavras que só um mestre da ficção consegue pôr de pé”. Acrescente-se a isto o humor cáustico, a sátira mordaz com que o autor/narrador radiografa as convenções de uma “alta” sociedade mineira, ou ainda, a filosofia de malandro que acompanha o detetive em suas elucubrações.

O tom irônico já se anuncia na epígrafe, tomada d´O Livro vermelho dos pensamentos de Millôr [Fernandes]: “E quando disserem que ‘o crime não compensa’ você tem de lembrar que isso é porque, quando compensa, não é crime”. Narrado na primeira pessoa, o herói da trama chega a Belo Horizonte, a serviço da Mercúrio, e reconhece, na cidade, “um caso de amor à primeira vista”. Embora, como lembra o velho pai do detetive, cujas máximas são citadas ao longo de toda a história, “a primeira vista a gente não vê nada”.

Em poucas palavras, define-se, logo nos dois primeiros capítulos, o perfil do personagem: curioso exemplar da classe média baixa suburbana carioca, que desde cedo precisou “manducar”, com “olho vivo” e “boca-de-siri”, entre os “vivaldinos”, jamais desperdiçando as oportunidades que lhe surgiam à frente. De empregado no boteco do seu pai, “um português aterrado em Niterói, que só falava numa Serra do Gerês, lá em Portugal”, para onde sonhava retornar ao final da vida, a radiotécnico por correspondência, passaria ainda pela polícia – “arquivista dos berros que os padres confessores da Central da Rua da Relação, mais papistas do que o papa e não querendo ficar atrás do mais católico convento militar, arrancavam aos pecadores na porrada” –, e, depois, já lotado na 9ª DP, do Catete, por uma nebulosa relação com um Secretário de Segurança, “candidato a candidato numa de deputado federal”, que resultaria em problemas para ele e “mais meia dúzia de barnabés, justo, justo, os zês, os ultiminhos da fila da folha de pagamento dos bicheiros”.

Instalaria, na sequência, o escritório de investigações sobre transações financeiras, no qual adotaria o primeiro enunciado da “Lei siamesa de cavalgar qualquer hipótese”: “a de que a pessoa jurídica da empresa tem muito mais medo de escândalo do que a pessoa física de qualquer dos componentes”. Máxima basilar do personagem, repetida ao longo da trama.

Herdeiro de um sistema no qual a ascensão social se dá através de um complexo mecanismo de omissões, esquivas, espertezas, pragmatismo e trocas de favores, Eduardo da Cunha Júnior desenvolve, em grau superlativo, a capacidade de “nadar em mar de tubarão”, não descartando jamais a sorte como aliada – o dia em que “o carteiro vira compadre e toca duas vezes na sua campainha”. Sorte que chega, finalmente, na forma de um bichano de madame, desaparecido.

Olha só, uma madame trata um gato a pão-de-ló, um dia o bicho enjoa e sai de casa e a madame quer morrer, e o marido me procura com um cheque, uma foto e o pedigree do siamês. Binóculos e máquina fotográfica a tiracolo, lá vou eu, e, uma semana depois de muito mato e muito farejar, eis o fujão que se esgueira, sorrateiro, pelos fundos do Hotel das Paineiras. Não deu nem para ver a maloca do esgueiro, o que vi e fotografei num dos quartos foi suficiente. Me deu um carro, um apartamento e uma sala na Rua Buenos Aires, bem no centro da cidade. E, o que foi ainda mais importante, me deu um livre-trânsito nos elevadores e corredores das empresas mais privadas. (p. 18-19).
E prossegue:

(…) A primeira aplicação da Lei siamesa de bem cavalgar qualquer hipótese, reconheço, não foi cavada por mim. Foi madame, reconhecendo a minha competência na captura do fujão, e o marido, agradecendo aminha discrição como fotógrafo, que distribuíram aos amigos as sobras do meu profissionalismo. E a progressão do efeito foi ainda mais do que algébrica. Em menos de um ano a reação em cadeia prendeu todo mundo, de A a Z, nem K, nem W, e muito menos Y, deixaram de considerar a proficiência dos meus métodos, e o quilate da minha honestidade, uma verdadeira corrente,prá frente, Brasil! (p. 19).

É quando, já maduro, aos 35 anos, solteiro e sem nenhum compromisso, com o velho Taurus cano longo, suando no suvaco, pode, finalmente, traçar o seu Ballantine´s, no capricho e “passar até férias nessa tal de Serra do Gerês, coisa que meu velho pai, infelizmente, nunca pôde”. Estava, pois, no ponto para o grande desafio de sua carreira, quando desembarcou no aeroporto de Confins, no ano de 1984, após um “pouso feito na manivela”, sentindo “aquele frio polo sul congelar até o mercúrio do termômetro”.
Para quem vinha do Rio de Janeiro habituado a voar nas pistas do Aterro do Flamengo e a tomar quarenta graus à sombra na poeira de Bangu, a catraca do pouso e as navalhadas do gelo doeram mais do que morte de papa em convento carmelita, diria o narrador.

Labirinto sem saída

É somente no terceiro capítulo que o detetive adentra o ninho de cobras criadas: a sede da Mercúrio S/A, que “rolava bilhões de cruzeiros no asfalto na maior tranquilidade”. Chegou ao prédio guiado pelo senhor Melquíades, funcionário da Mercúrio, que o havia recebido no hotel e cuja principal característica era assoar estrondosamente o nariz sempre que se encontrava numa circunstância desfavorável. Característica que o tornava previsível perante o detetive, fator, aliás, nada desprezível no terreno instável que adentrava, apostando “um marechal no nariz do senhor Melquíades”. “Sabia que ia ganhar e ganhei”, diria ele referindo-se ao homem que assoava “o nariz tabaqueiro com a força de um panelaço em greve de servidores municipais”. E que é assim descrito pelo impiedoso narrador:

Já descendo a ladeira, entre os sessenta e os setenta, calças cinzentas, sapatos pretos de solas grossas de borracha, casaco de couro marrom, o ex-cabelo louro colado na careca à força de brilhantina, o bigode fino e reto, pintado de preto, e as orelhas cobertas por duas enormes costeletas, o senhor Melquíades parecia mais um cantor de tangos aposentado do que o elemento de contato que estaria à minha espera. Mas, como era com um Melquíades que eu devia falar, estendi a mão. (p. 13)

Ao adentrar os muros da empresa, parecido com “um daqueles antigos puteiros da Rua Alice querendo trocar figurinhas com os puteiros cinco estrelas de Ipanema”, o detetive seria apresentado, ao longo dos próximos capítulos, a uma estranha miscelânea de tipos. A começar pelo doutor Epaminondas, presidente do grupo empresarial, cujo escritório “era a edição, revista, aumentada e comentada, do resto do casarão”, cujas paredes eram “forradas com seda e cobertas de molduras maiores do que os quadros, madeiras laqueadas a dourado, cortinas adamascadas e tapetes mais grossos do que pneu de caminhão”.

Entusiasta de Vivaldi, doutor Epaminondas gabava-se de ter gravado As quatro estações de forma que desse, exatamente, duas horas para cada estação, e desenrolava, “no seu melhor doutorado”, um complicadíssimo cálculo de como conseguira tal façanha, enquanto dava, no cigarro, tragadas “que os ecologistas pulmonares esconjuram e chamam caixão-à-cova, e o pessoal menos iniciado traduz por cova-funda”:

O doutor Epaminondas era uma figura. Muito alto e muito magro, dois metros por setenta quilos ou talvez mais alguns centímetros por menos alguns quilos, moreno e totalmente careca, barba passa-piolho e óculos bifocais, não aparentava os quarenta e cinco anos que disse ter. Sempre curvado e engelhado, parecia mais o tio do avô do que ele mesmo. E vestia-se como mandava o figurino do mais hifenizado manual do sistema de circulação fiduciária, terno de tropical inglês risco-de-giz, jaquetão seis botões, bem apertado na cintura, camisa de seda branca e gravata azul de crochê. Os sapatos não deu para avaliar, mas, a ver pelo resto, apostaria, no mínimo, dois marechais que brilhavam no cromo preto, bico fino. Se o senhor Melquíades parecia um cantor de tangos aposentado, o doutor Epaminondas só poderia ser o autor da bandonionada ou o regente da orquestra. Mas não era, era o presidente do grupo das empresas Mercúrio e um advogado que nunca tinha exercido a profissão, como fez questão de frisar com o orgulho digno de um orientador de teses de doutorado. (p. 33)

Após os circunlóquios da música e dos cálculos, o doutor Epaminondas, “peagadê em prolegômenos”, diz o que espera do detetive: “Que, no mais breve tempo possível, pegasse o larápio no maior particular, sem lamiré ao mercado, independentemente, claro, do pagamento integral dos três meses do contrato”. Exigiria sigilo absoluto. “O nome do implicado, seja ele quem for, só a mim, só a mim e a mais ninguém, deve ser dito”.

Para alcançar seu objetivo, Cunha Júnior adotaria um cargo de fachada – o de especialista para criação de um departamento de exportações – e mergulharia nas entranhas da Mercúrio, que, segundo ele, “não passava daquilo que a putaria mais nova chamava de caixão: um quarto fechado, fedendo a mofo, entulhado de badulaques, cada executivo ciscando no seu próprio galinheiro e o aviário que se danasse”. Mais adiante, assim descreveria a fauna desse zoológico humano, do presidente aos burocratas que faziam a máquina funcionar, ou emperrar, a depender dos objetivos e dos interesses envolvidos:

Tirar algumas conclusões dos dados que já tinha. Preceito curto, contundente e sem redondos, digno de figurar na plataforma de promessas de qualquer candidato. O problema era, mas que dados eu tinha? Que o senhor Melquíades nem sonhava que tinha sido embrulhado para presente naquele Mercedes vermelho, tinindo de novo, atado com o laço do cebolão de ouro do tamanho da medalha-mor das Olimpíadas, que o doutor Epaminondas sabia muito mais o que queria com aquelas oito horas gravadas das estações do vivaldino do que o próprio vivaldino, que o doutor Oliveira chutava com os dois pés mas prestava muito mais atenção à bola do que ao pulo do goleiro, que o doutor Laurelino rezava credos e padres-nossos ao retratão do papa Pio XII mas guiava-se pela luz que saía pelas frestas do boudoir da velha Madame Francine, que o senhor Mendes gostava de curtir azia apesar das toneladas de Pepsamar que engolia, que o senhor Pereira Mendes bancava o avestruz para que ninguém o mandasse escrever livros na tal de Serra do Gerês, que o senhor Aparecido cantava boleros para encobrir outras afinações, que o senhor Iglésias dungava todo mundo mas defendia com unhas e dentes as suas cristianíssimas terras da Galiza, que o senhor Souza, embora não parecendo, calculava o parentesco com o doutor Epaminondas até à milésima casa decimal e que era a radiação eletromagnética da Luzinete que chacoalhava o esqueleto do doutor Epaminondas nas pranchas dos mergulhos? (p. 94)

No labirinto de burocracia e corrupção da Mercúrio, no qual nada é o que parece ser, os personagens adquirem a extraordinária capacidade de “jogar aquele pingue-pongue sem bola e sem raquete” e de fazer “a velha cara das duas caras”, lembrando sempre que “mais vale um dedo na mão do que cinco mãos sem nenhum dedo”. Diferentemente das histórias policiais clássicas, em Apenas questão de método, a solução do crime não leva a lugar algum. É, como espelho do Brasil, um mero jogo de aparências, um labirinto sem saída, pegajoso e sufocante. Talvez por isso o romance se encerre numa catarse violenta, que só poderia acontecer numa vertente paralela, ou transversal, à trama principal do romance. A única na qual Eduardo da Cunha Júnior poderia agir como o Dirty Harry e dar “um THE END à Clint Eastwood e amigos Smith & Wesson”.

Com seu apreço pelo Ballantine´s e pelo Old Eights, pelos filmes policiais de Humphrey Bogart e Clint Eastwood, pelas músicas de Pixinguinha e Cartola, e pelos livros de Saramago e Murilo Rubião, Eduardo da Cunha Júnior tem na sua amoralidade uma forma de defesa, uma estratégia de sobrevivência num ecossistema selvagem, cuja luta pela sobrevivência define-se pela Lei do mais forte, ou, pelo menos, do mais esperto. Razão, talvez, pela qual ganhe, apesar de tudo, a simpatia do leitor.

Leiradella é autor de extensa obra, publicada no Brasil e em Portugal, incluindo romances, livros de contos – um deles,Síndromes & síndromes (e conclusões inevitáveis) foi um dos vencedores do Prêmio Cultural de Literatura 1996, da Fundação Cultural do Estado da Bahia –, peças de teatro e roteiros de cinema. Dentre seus livros mais conhecidos, e premiados, estão O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior, Guerrilha urbana, Cinco dias de sagração e Fractal em duas línguas.

Referência

  • CUNHA DE LEIRADELLA (2001). Apenas questão de método. Rio de Janeiro: Quartet.

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