A Saga Modernista

“O livro é uma série de histórias de pessoas notáveis que conseguiram, de alguma forma, produzir e apresentar novas idéias”
TÍTULO: OS PRIMEIROS MODERNOS – AS ORIGENS DO PENSAMENTO DO SÉCULO XX
AUTOR: WILLIAM R. EVERDELL
EDITORA: RECORD
PÁGINAS: 574
PREÇO: R$ 62,00

Carlos Ribeiro

Não é por acaso que o historiador americano William R. Everdell inicia seu volumoso ensaio Os Primeiros Modernos (Record, 574 páginas, R$ 62), falando não apenas sobre o que o Modernismo é, mas também do que ele não parece ser. O fato, intrigante e desafiador, é que um século depois da revolução desencadeada por uma plêiade admirável de pintores, ficcionistas, poetas, músicos, críticos e arquitetos, num período que, a grosso modo, pode ser delimitado entre os anos de 1913 e 1925, mas que foi gestado desde os últimos anos do século XIX, ainda não se saiba sequer se essa era já acabou.

Para Everdell, ex-professor de História na Saint Ann´s School, em Nova York, e autor de diversos artigos sobre a história européia moderna, a idéia, hoje bastante difundida, de que estejamos numa era pós-moderna, parece não se sustentar. “Os inquietos acadêmicos e outros empregados da indústria cultural que lançaram o ´estruturalismo` nos anos 60 experimentaram um novo termo nos anos 70, o ´pós-modernismo`, esperando aplicá-lo aos últimos cinqüenta anos da cultura ocidental (com uma ou duas referências anteriores a Nietzsche). Foi calorosa a discussão em torno do possível significado do pós-modernismo e, antes mesmo de a palavra ter perdido o seu hífen, havia quem discordasse e reivindicasse a inexistência de tal coisa”, diz ele.

Everdell concorda com Margaret Atwood, quando ela diz que “hoje em dia tudo é pós, como se fôssemos meros rodapés de algo que antes foi real o suficiente para ter o seu próprio nome”. E acrescenta que, “talvez em reação a esse tipo de frivolidade, Kirk Varnedoe, do MoMA (Museum of Modern Art), expulsou a palavra do seu vocabulário em 1990”.

O fato, diz Everdell, sem rodeios, é que sabemos menos sobre o “modernismo” do que sobre qualquer outro “ismo”, “muito pouco realmente”. A definição do que é modernismo é feita pelo autor como a primeira premissa deste livro. “Devemos definir logo o modernismo ou perderemos o uso do termo assim que a última geração de modernistas seguir a primeira em seu centenário, pondo fim ao que pode ser o mais duradoura movimento cultural que a nossa civilização já experimentou”.

Mas, quais seriam, afinal de contas, as origens desse conceito? Para Everdell, a gênese do pensamento moderno surge no momento em que se supera a convicção de que as coisas poderiam ser vistas “contínua e integralmente”, de um ponto de vista privilegiado, em um momento particular. É o momento em que “a crença na objetividade se esfacela de forma que a fenomenologia e o solipsismo começam a dominar não só a filosofia, mas a literatura, a política, a psicologia e, por último, até mesmo a física”. O mundo e todas as suas representações começavam a se deslocar do referencial absoluto do objeto independente do seu observador, para a perspectiva relativa do Eu.

A percepção descontínua do mundo – e aí está uma contribuição importante do livro – não começa, como geralmente se diz, nos campos da arte e da literatura, mas no das ciências exatas, mais propriamente da matemática pura. O primeiro modernista ocidental não teria sido Picasso, nem James Joyce, mas um desconhecido matemático alemão Richard Dedekind, que juntamente com outros de seus colegas, Gottlob Frege e Georg Cantor, “estipularam os fundamentos de um novo modo de pensar no Ocidente”. As fronteiras abertas pela descoberta dos números irracionais suscitaria paradoxos, como o de que há, entre dois números, infinitos números de pontos descontínuos.

A revolução, iniciada na torre de marfim da matemática pura, propagar-se-ia, posteriormente, em cidades como Viena, Paris, Munique, São Petersburgo, Nova York, Londres, Estocolmo, Berlim e Zurique, como uma flama que, subitamente, colocava o homem diante de uma perspectiva inédita diante do mundo e de si próprio. Flama esta que queimaria, irremediavelmente, muitos dos seus portadores. (Basta ver os acessos de esquizofrenia paranóica de August Strindberg, introdutor do modernismo no teatro.) Uma das virtudes do livro é a de apresentar o pensamento moderno através da história dos principais protagonistas dessa grande aventura: visionários como Arthur Rimbaud, James Joyce e Wassili Kandinsky, os mais modernos entre os modernos, segundo Everdell.

Um dos maiores desafios do livro, diz Renata Saraiva, em matéria publicada na revista Valor, “é levar o leitor a descobrir quais são as diferenças entre as características do modernismo nas artes, na literatura, na ciência e no comportamento das pessoas”. “Essas diferenças”, segundo Everdell, são o principal interesse do livro, que é uma série de histórias de pessoas notáveis que conseguiram, de alguma forma, produzir e apresentar novas idéias”. Histórias que, conclui ele, se fizerem sentido, mostram que “o modernismo ainda está conosco e o pós-modernismo pode não significar nem a metade do que julga a crítica continental”.

2 comentários em “A Saga Modernista

    • 25 de junho de 2016 em 13:16
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      Grato pela leitura. Um abraço.

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