A Nobreza em Cheque

Romance de Lampedusa, editado, agora, no Brasil, é uma oportunidade valiosa para se conhecer uma das mais importantes obras da literatura italiana neste século.
Jornal A Tarde – 24/08/2000
Carlos Ribeiro

Num mundo automatizado, no qual há uma ênfase excessiva na informação, geralmente superficial e isenta da experiência, perde-se, pouco a pouco, o prazer insubstituível do deleite proporcionado pelas narrativas: o fruir lento e saboroso de textos que proporcionam ao leitor uma satisfação íntima e refinada. Esse deleite, expresso de forma exemplar nos romances impressionistas de Marcel Proust e Henry James, foi preservado, ao longo do século XX, em obras que parecem nos dizer que nem tudo se rendeu, ainda, ao apelo grosseiro do consumismo. O Gattopardo, do príncipe Tomasi di Lampedusa, lançado recentemente, no Brasil, pela editora Record, com tradução e introdução de Marina Colasanti, é um bom exemplo disso.

Escrito em 1955, mas só publicado em 1958, na Itália, o romance de Lampedusa tornou-se logo um grande sucesso de público. Em 1963, ganhou primorosa adaptação para o cinema, no filme O Leopardo, dirigido por Lucchino Visconti e protagonizado por Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes.

O Gattopardo retrata, com admirável riqueza de detalhes, a decadência de uma família nobre da Sicília nos agitados tempos da unificação da Itália pelas tropas de Garibaldi. É, por extensão, um flagrante da derrocada da aristocracia – da perda de suas tradições, de suas lembranças vitais. A conhecida frase “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, proferida por um dos personagens, Tancredi, ao seu tio, o príncipe Fabrizio Salina, embora perspicaz, não correspondeu à profunda mudança de valores que ocorreria com a ascensão da burguesia ao poder, representada, no romance, pela família Sedàra.

O livro mostra o esforço sobre-humano do príncipe Salina de adaptar-se aos novos tempos; de descer do seu Olimpo para misturar-se com os burgueses – “vulgares e inescrupulosos”, mas incrivelmente “práticos e eficientes”. Esforço esse que teria seu remate definitivo no casamento de Tancredi com a bela Angelica Sedàra. A crença de que Tancredi “poderia ser o alferes de um contra-ataque a ser desfechado pela nobreza, sob novos uniformes, contra a nova ordem política”, daria lugar, ao final do romance, à constatação melancólica de que “Garibaldi, aquele Vulcano barbudo, afinal de contas, vencera”.

O Gattopardo expressa a visão de mundo aristocrática do próprio Lampedusa, ele também membro da nobreza italiana, vivendo numa época em que grande parte dos intelectuais europeus mergulhava de cabeça na utopia marxista. Por isso, foi patrulhado e tachado por críticos como exemplo de “formalismo decadente”, ou “um feuilleton de prosa antiquada”. Sua publicação foi adiada por dois anos, devido à recusa dos originais por duas editoras, até que foi lançado, em 1958, pela Feltrinelli. O sucesso de público foi imediato, mas tardio. Por uma dessas ironias do destino, o autor morreu, de câncer no pulmão, um ano antes de o livro ser publicado. Mais lamentável ainda por ter sido esse o seu único romance, planejado por 25 anos de sua vida e escrito quando ele tinha 59 anos.

Giuseppi Tomasi, duque de Parma e príncipe de Lampedusa, só escreveu durante dois anos de sua vida. Deixou, além de O Gattopardo, três contos e ensaios sobre Stendhal, Flaubert e Mérimée, além de outro romance apenas iniciado. Hoje, O Gattopardo é considerado, por muitos críticos, uma obra-prima, “…um trabalho de um grande artista”, como disse Peter Ackroyd, do The Times, com (melancólica) razão.

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