À Luz das Narrativas

Tribuna Cultural – Feira de Santana/BA

12/12/04

Carlos Ribeiro

São evidentes, logo à primeira vista, as qualidades do ensaio Olhos de não ver ou Narrativa oral de crianças cegas, de Isa Gonçalves. A primeira delas: a sensibilidade da autora, seja na escolha do tema para a sua tese de Mestrado em Educação Especial (defendida, em agosto de 2002, sob o título de Desenvolvimento da narrativa oral de crianças com cegueira – uma proposta didática, na própria Uefs), seja na forma como desenvolve o livro, lançado recentemente pela Universidade Estadual de Feira de Santana.

A respeito disto, disse o escritor Guido Guerra, no pósfacio intitulado “A construção da esperança”: “Obra de profundidade social e psicológica, em que também se insere uma proposta didática, fruto de uma pesquisa pioneira no âmbito do Estado da Bahia, Olhos de não ver mergulha nas águas turvas e fundas das perdas e danos da essência humana e inscreve sua autora, Isa Gonçalves, entre os nomes exponenciais da ensaística brasileira, a dar testemunho comovido e comovente sobre as luzes que se apagam para reacender o olhar do imaginário”.

Na verdade, as virtudes do livro são aquelas que se espera de uma publicação acadêmica (mas que muitas vezes se diluem no jargão universitário e em textos nos quais freqüentemente se confunde profundidade com prolixidade e pedantismo). Ou seja: rigor analítico, clareza de objetivos, relevância social, originalidade e simplicidade na forma da expressão. Além de investigar, cruzar dados e levantar informações, Isa sabe expor, com clareza, os resultados desse mergulho num universo de carência pungente: o da cegueira infantil. Sua maior vitória é mostrar que esses abismos de escuridão podem guardar tesouros luminosos que se expressam na capacidade humana de construir significados através da linguagem, da produção de símbolos. Como diz Guido: “Isa Gonçalves – neste livro que acompanha duas crianças com cegueira e sua capacidade inventiva para a narrativa oral – anuncia que os olhos que não vêem, também brilham e brilham tão intensamente quanto as estrelas do céu. E assim compõe, com os olhos de ver pelos de não ver, uma suíte em dor maior”.

Professora de Metodologia do Francês da Uefs e autora de diversos trabalhos apresentados em congressos no Brasil e em Havana, além de Membro Correspondente da Academia de Letras da Bahia, Isa lembra, na introdução de seu livro, que trabalhos na área de Educação Especial – “aquela que se destina a pessoas com necessidades educativas específicas” – ainda são exíguos, no Brasil. Segundo ela, “as ações ainda se dão de forma pouco adequada, principalmente no que diz respeito à cegueira”, e “a educação brasileira ainda convive com procedimentos tradicionais, conservadores no que concerne ao atendimento das pessoas com necessidades educativas especiais”. E acrescenta: “Os estudos a respeito do tratamento mais adequado a crianças que apresentam essas necessidades ainda não fazem parte de um programa de formação docente”.

Como resposta a isto, ela desenvolveu este trabalho que, por sua vez, resultou na elaboração de um programa – o Pronarro –, que tem como objetivo “(…) estimular e desenvolver narrativas orais (relatos de experiência pessoal e de ficção) por crianças com cegueira , na interação com adulto interlocutor, com base nas estratégias de narrativas de crianças videntes na interação com um adulto”. O Pronarro, diz a professora Irani Rodrigues Menezes, na orelha do livro, “Visa a possibilitar a essas crianças com cegueira, o desenvolvimento da sua capacidade de narrar e de melhor se integrar como sujeito da história”.

A descrição do trabalho desenvolvido com duas crianças, identificadas apenas como P.H. e R., e com as respectivas análises de dados e diagnósticos de narrativas, é precedida por um capítulo no qual a autora situa o problema da cegueira na perspectiva histórica. Interessante, aqui, as diferentes percepções sobre esse fenômeno, classificadas em três fases distintas: a mística, que se estende da Antigüidade até boa parte da História Moderna; a biológica ou ingênua, fruto do Iluminismo, e a Contemporânea. Na primeira, diz a autora, ela [a cegueira] “(…) sempre esteve recoberta por concepções de cunho popular e, sobretudo, por um misto de sentimento de piedade, medo supersticioso e respeito, ou, até mesmo, como castigo”. É também desta fase a percepção do cego como portador de luz espiritual, da sabedoria. Na literatura, talvez o melhor exemplo desta definição é o vidente Tirésias, cujas profecias o desventurado Édipo negou-se a aceitar, na célebre peça de Sófocles.

A visão (sic) dos cegos como sábios ou vítimas de castigo divino é substituída, paulatinamente, no Iluminismo, por uma outra, que caracteriza a segunda fase: a biológica ou ingênua, na qual a cegueira, embora vista como defeito ou deficiência “(…) pode incorporar novas forças e novas funções para a vida, como também ser motivação para outras atividades criativas”.

“Esta teoria”, diz Isa, “tinha como argumento principal que um sentido poderia ser substituído por outro, como se a mão, por exemplo, fosse capaz de substituir o olho”. Por fim, a fase contemporânea, informa a autora, “caracteriza-se e se diferencia das anteriores porque encara o problema e a solução da cegueira apenas como uma situação social e psicológica. As questões místico-espirituais que nortearam toda a Antigüidade, e até boa parte da Idade Moderna, bem como as inferências ingênuas de ordem biológica que nortearam o pensamento da época homônima, foram redimensionados ou descartados”.

Nesta fase, coloca-se em dúvida, de forma mais incisiva, a possibilidade de que a deficiência visual poderia propiciar o desenvolvimento de outro dom, que tivesse um caráter compensatório. A ênfase, agora, recai na necessidade de se vencer as dificuldades que a cegueira traz e que são manifestadas, entre outras coisas, no sentimento de debilidade, na recusa em interagir socialmente, na tendência à neurose. Por outro lado, reforça-se a noção de igualdade entre o cego e o que vê, já que aqueles sentimentos não são exclusivos do indivíduo portador desta excepcionalidade. Partindo da constatação de que “a sombra da cegueira não se estende às zonas da psique”, e que “(…) os significados não tem a sua origem na experiência visual, mas na elaboração intelectiva, da linguagem, tanto a pessoa com cegueira, como aquela que vê são, em tese, iguais”.

Tais conceitos são essenciais para o trabalho proposto por Isa Gonçalves. Com a ressalva de que, tal como assinalou Maria Pilar Platero Ortega, em Lenguaje y deficiência visual; aspectos psicoevolutivos y educativos (1994), a maneira da criança com cegueira perceber o mundo, não é igual à de uma criança normal privada da vista. “Esta autora diferencia o modo de apreensão de uma criança vidente daquela portadora de cegueira. As crianças com visão normal adquirem uma série de experiências de modo passivo, uma vez que, pelo simples fato de olhar acabam por repetir e assimilar o real, pois o sentido da visão lhe permite participar da vida social. No entanto, a criança com cegueira, por não dispor desse sentido, fica, assim, privada de muitas experiências; em outras palavras: a cegueira restringe o desenvolvimento. Dessa forma, a criança com cegueira não recebe uma informação da mesma maneira e ou igual quantidade como a vidente”.
A compensação para essa deficiência, portanto, precisa ser trabalhada pela via da linguagem – pelo simples motivo de que, como diz Octavio Paz, em O arco e a lira, “esta faculdade é a ponte que conduz o homem à sua exterioridade”. “Verbalizar sentimentos e pensamentos é a função que a linguagem exerce, tanto nas pessoas que vêem, quanto nas portadoras de cegueira, já que esses sentimentos são inerentes à pessoa humana”, diz Isa. A manifestação lingüística passa, portanto, a funcionar, não apenas como a expressão de sentimentos, mas também como com “o olho daquele que não vê”.

São muitos os argumentos e referências teóricas que embasam a tese de Isa Gonçalves, impossíveis de serem expostos no curto espaço de uma resenha. Impõe-se, portanto, a necessidade de se dar um salto para o segundo capítulo do livro, no qual a autora descreve o trabalho realizado no CIP – Centro de Intervenção Precoce, um segmento do Instituo de Cegos da Bahia, em Salvador.

Na seleção das crianças, foram adotados dois critérios fundamentais: 1) ser portadora de cegueira congênita e ter idade entre 5 e 6 anos; 2) não apresentar outros distúrbios físicos ou mentais associados à cegueira. Em diversos relatos e fragmentos de diálogos que se seguem, entre as crianças e a pesquisadora (interlocutor), observa-se o esforço das crianças de construírem relatos de experiência pessoal. Da análise destes relatos constatou-se, entre outras coisas, “que as crianças-sujeito da pesquisa apresentam duas especiais situações no que tange ao desenvolvimento da narrativa: 1) grande dependência da eliciação por parte do interlocutor, e 2) atraso significativo (de três a quatro anos) no desenvolvimento do discurso narrativo, em relação às crianças videntes”.

A defasagem observada, informa Isa, foi de ordem qualitativa e quantitativa, visto que ambas interferem na qualidade de vida da criança e a relação com seu mundo e o seu tempo. Segundo a autora, “A proposta para a estimulação e desenvolvimento da narrativa oral de crianças com cegueira, desenvolvida neste estudo, apresenta-se como uma necessidade para o estabelecimento do processo de comunicação da criança cega. Os fundamentos desta proposta tornaram possível a elaboração de um programa didático envolvendo a família, a escola e a criança DV (com cegueira)”. Eis aí a proposta do Pronarro: compensar as limitações que essa criança enfrenta no dia-a-dia. Aumentar a auto-estima desta criança, e colocá-la, dentro do possível, na melhor condição possível de igualdade, direito que lhe é inalienável.

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