A crônica pedagógica de Euclides Neto

Carlos Ribeiro1

É ainda frequente a percepção equivocada da crônica como um texto leve e “digestivo”, voltado para o entretenimento. Aquele que o leitor procura, nos jornais dominicais, para desanuviar a mente dos problemas acumulados durante a semana. Nesse gênero, prevaleceriam comentários ligeiros sobre temas da atualidade, numa linguagem simples e comunicativa, pois não se permitiria ao cronista o luxo da incompreensão.

Como assinala Davi Arrigucci, em seu estudo sobre a crônica de Rubem Braga, publicada no livro Enigma e comentário — ensaios sobre literatura e experiência (São Paulo: Companhia das Letras, 1987), é característico da crônica o “tom menor do bate-papo entre amigos, para tratar das pequenas coisas que formam a vida diária” — mas é também, acrescenta ele, “onde às vezes encontra a mais alta poesia”. Trata-se de um gênero cuja complexidade interna, penetração psicológica e social, força poética e humor lhe permitem, ainda segundo Arrigucci, “uma forma de conhecimento de meandros sutis da nossa realidade e da nossa história”.

Pela sua força poética, pelo seu lirismo, esse gênero tão especificamente brasileiro consegue, através de seus melhores autores, driblar a contingência dos acontecimentos passageiros, à qual parecia estar condenado. Isto é lembrado também por Antonio Candido, no célebre ensaio “A vida ao rés-do-chão”, quando, referindo-se às crônicas reunidas no livro Para gostar de ler (São Paulo: Ática, 1981-4, vol. 5), diz: “É curioso como elas mantêm o ar despreocupado, de quem está falando coisas sem maior consequência; e, no entanto, não apenas entram fundo no significado dos atos e sentimentos do homem, mas podem levar longe a crítica social”.

Tais comentários nos permitem compreender, de imediato, que a crônica — sobretudo a que se consolidou no Brasil, no século XX —, por ser um gênero híbrido, localizado na fronteira da literatura e do jornalismo, não é facilmente definível. E que, como qualquer outro gênero jornalístico ou literário, encontra-se, felizmente, num processo contínuo de transformação: sobretudo quando é cada vez mais difícil delimitar as fronteiras com outros gêneros.
Portanto, através dessas considerações iniciais, chego às crônicas deste O menino traquino, de Euclides Neto, reunidas em 1994, num volume de 111 páginas, pela Littera Editores Ltda., de São Paulo, com o subtítulo “Crônicas políticas e crônicas leves”. E que ganha agora merecida reedição.

Nelas estão visíveis alguns elementos híbridos aos quais me referi: são textos leves e comunicativos? Sim, se considerarmos a dicção clara e fluente do autor uma forma pedagógica de despertar a consciência crítica do leitor. E, por isso mesmo, ganham consistência e densidade. O “tom menor de bate-papo entre amigos” adquire a dimensão maior de quem anuncia — e denuncia — fatos dramáticos, em torno de dois eixos básicos: a opressão e a fome. O leitor pode pensar em algo menos “leve” e “digestivo” do que isto?

Página após página, Euclides aborda, com clareza e precisão, as mazelas da pobre gente brasileira, especialmente do Nordeste, pátria do autor, ele próprio um nordestino exemplar. Diz, com todas as letras, aquilo que políticos corruptos e empresários inescrupulosos gostariam de ocultar. Porém, o tom dominante não é jamais o do rancor e da virulência.

A proximidade com o leitor, quase um confidente, mantém-se, preservando-se o tom intimista, próprio da crônica. Mas não se anula o distanciamento, sem o qual se perderia a objetividade do analista. Bom exemplo disto é a crônica “Toque de silêncio”, a qual, na contramão do dogmatismo das esquerdas, louva os soldados que são obrigados a reprimir trabalhadores.

Vi soldados chorando, braços cruzados, quando recebiam ordens para destruir roças de mandioca. Conheço oficiais que repugnam a violência contra lavradores, mesmo quando são obrigados a cumprir determinações judiciais. Acredito que, se os juízes fossem ver o cumprimento de certas medidas de manutenção de posse, as revogariam no ato. É que presenciariam mulheres desesperadas, rasgadas, crianças espancadas, outras de peito, chorando, chamando as mães, homens apanhando, velhas levantadas pela mira das armas cano-longo, os míseros teres destruídos: panelas, potes, cobertas dorme-bem, cuias de farinha, mochilas de feijão. E quase sempre não é a polícia a causadora de tais excessos. (p. 14).

Diferentemente de outros cronistas, Euclides não constrói uma persona. É econômico na expressão da própria subjetividade, preferindo manifestar-se quase exclusivamente no campo das ideias — e dos valores. Razão pela qual se nota uma inflexão para o tom ensaístico em alguns de seus textos. Como bom sertanejo, parece não querer perder tempo consigo mesmo, haja vista a urgência do sofrimento e da miséria dos excluídos, como podemos ver na crônica “Também é Bahia”.

Caatingão do meu Deus!

A grelha do sol fringindo as plantas e bichos. E as trovoadas vasqueiras criando a vida em sete dias, descansando em seguida, durante sete anos.

A capela, sem torres, mocha, portanto: platibanda grosseira, e a carne das paredes coçadas pelos tempos e jumentos, esfincada onde o arruado incha a barriga, feito praça. Tudo colado na meia encosta. Houve muito zelo no planejamento: a lagoa fica embaixo, colhendo todas as águas escorridas dos telhados, das covas do cemiteriozinho, quintais e latrinas. Aquela poça d’água é o paraíso dos meninos, éguas banhadeiras, sapos, lavadeiras de trapos e penicos. E dos vermes, caracóis malignos, mosquitos de pernas longas e curtas — animais menores. Essa água vai murchando, retraindo-se, evolada, ingerida, mudando de cores, de barrenta a verde-bandeira. O povo bebendo. Vira lameador de capados, bacorinhos e parideiras. Torrão rachado. Poeira espojadora, é a seca.

Chega-se ali e o povaréu cerca o extraterreno. Nota-se logo: só existem velhos e jovens antes de buçar a barba. Chegando à maioridade do bigode, já foge para São Paulo, corrido da miséria. (p. 74).

Euclides expõe as vísceras de uma Bahia que muitos teimam em desconhecer. Não como mera constatação. Toda a miséria tem causas, e ele jamais deixou de apontá-las.

Quem dá assistência àquele mundo de meu Deus? Quem tapa os buracos do caminho e leva os doentes para a casa de saúde? Quem manda o caminhão-pipa que engana a sede? É o estado do Caracol, mais ao nortezinho, na banda do Piauí. Minto. Estado, não — município de Caracol, que recebe uns trocadinhos do fundo de participação e ainda sobram recursos para essa aliançazinha para o progresso em favor da Etiópia baiana.

Há quantas secas aquilo vive assim? Sabemos lá. O partido que era oposição por aqueles currais ganhou. Vamos ver o que acontecerá agora. E tem que acontecer. (p. 74).

As crônicas deste livro expressam, de forma inequívoca, as convicções de um homem público — advogado, prefeito de Ipiaú, entre 1963 e 1967; secretário da Reforma Agrária e Recursos Hídricos no Governo Waldir Pires —, constituindo-se, não somente uma obra literária, mas também uma obra eminentemente pedagógica.
Sua finalidade, portanto, não se restringe a um projeto estético. Ela é, sobretudo, no que se refere ao exercício da crônica, parte de um projeto político, no sentido mais nobre do termo, que é o da conscientização. É um projeto de cidadania.

A crítica social, conforme vimos acima, não é elemento raro na crônica brasileira. Ela está presente na maioria dos nossos cronistas, mas quase sempre de forma indireta e eventual. No caso deste O menino traquino, ela é o cerne, o ponto central de todas as reflexões, denúncias, ilações, conselhos, advertências e conclusões do cronista. É o alicerce de todas as 75 crônicas reunidas neste volume — alicerce construído solidamente com princípios éticos e políticos que tem, na biografia do escritor, sua mais perfeita correspondência.

Eis aí algo que impressiona muitíssimo: a expressão de uma coerência inabalável entre o que se escreve e o que se é. As crônicas de Euclides Neto são Euclides Neto. Mas, também, cada um de nós, onde não se apagou o senso de justiça.

Teria muito a dizer sobre os textos reunidos neste pequeno volume, mas deixo para o leitor a responsabilidade e o prazer de fazê-lo. Acrescentaria apenas a constatação de que, se em alguns deles persiste a marca circunstancial do momento em que foram escritos, noutros é maior a marca da atemporalidade, que lhes confere maior permanência.
Crônicas primorosas, como “Campanha política”, “As grandes lições”, “As virtudes de um prefeito”, “Corrupção do comportamento”, “Fome e violência”, “Cidadania”, “A Universidade” e, principalmente, a belíssima “O lavrador”, mereceriam ser gravadas em placas e colocadas nos escritórios, nas prefeituras, nas fazendas e vendinhas do interior, onde quer que haja olhos e boa vontade para reconhecer a mensagem humanitária que transmitem. Pois, atendendo sua função eminentemente pedagógica, a mensagem de Euclides é como a dos Evangelhos: exigem um terreno fértil onde possam germinar e dar frutos.

1Escritor, professor adjunto do curso de jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, membro da Academia de Letras da Bahia. É autor de nove livros e dois estudos sobre a crônica de Rubem Braga: Caçador de ventos e melancolias: um estudo sobre a lírica nas crônicas de Rubem Braga (Edufba, 2001) e Rubem Braga: um escritor combativo — a outra face do cronista lírico (inédito).

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