Imagens de Mulher

PATRÍCIO, Rosana Ribeiro. As filhas de Pandora: imagens de mulher na ficção de Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

Carlos Ribeiro

A escassez de nomes femininos de destaque nos compêndios de literatura brasileira suscita uma indagação: será que, de fato, ao longo de cerca de quatrocentos anos de história, do início do Brasil Colônia até meados do século XX, passando por movimentos e escolas como as do Barroco, do Arcadismo, do Romantismo, do Realismo/Naturalismo, do Parnasianismo, do Simbolismo, bem como todo o período que antecedeu o Modernismo, não existiu uma escritora que merecesse ser destacada em nossa história literária? Na História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, só para citar um exemplo, a primeira autora a merecer uma referência específica, ainda que breve, é a poeta parnasiana/simbolista Francisca Júlia (1874-1920). A ela seguiram-se, já em pleno Modernismo, os nomes de Rachel de Queiroz, na ficção, e Cecília Meireles, na poesia – até que, já na metade do século XX, Clarice Lispector iniciasse efetivamente uma mudança nesse quadro, promovendo, como assinala Rosana Ribeiro Patrício, em As filhas de Pandora – imagens de mulher na ficção de Sonia Coutinho “uma espécie de abertura de trilhas fundamentais”, através das quais “a narrativa de autoria feminina se expande no universo cultural brasileiro”.

De lá para cá, fez-se em 40 anos o que não havia sido feito em quatrocentos: deu-se visibilidade às autoras (que antes permaneciam no anonimato), multiplicaram-se os livros de e os estudos sobre essas autoras, não somente do ponto de vista da linguagem, como do próprio universo temático.

O livro acima citado, fruto da tese de doutorado, defendida na Universidade de São Paulo, em 1998, pela professora e ensaísta baiana Rosana Ribeiro Patricio, é mais um título que se soma ao esforço de contribuir para ampliar os horizontes da ensaística sobre a representação da mulher na literatura. Proposta que se consolida na escolha do tema – “Imagens da mulher na ficção de Sonia Coutinho”.

Ao estudar a obra da premiada ficcionista baiana, Rosana enfoca justamente um momento em que se consolida um conceito de autoria feminina. Um momento, portanto, diz a autora, em que “os estudos literários se voltam para questões referentes à especificidade desse discurso, destacando a perspectiva narrativa e as formas de representação da mulher no texto ficcional”. Há aqui, portanto, uma noção de peculiaridade da voz narrativa feminina, que se distingue e, às vezes, se contrapõe a uma narrativa masculina na perspectiva de uma trangressão. Transgressão esta que se constitui, conforme diz Beatriz Weigert, na epígrafe do livro em “acto de ousadia, na exibição de um corpo estranho, no conjunto consagrado de obras oferecidas a uma colectividade. É texto que se introduz no grande texto, reclamando, para si, foros de propriedade.”

A obra de Sonia Coutinho representa, portanto, “uma vertente literária representativa da condição da mulher, a partir dos anos sessenta”, que tem, segundo Rosana, entre seus principais representantes, nomes como os de Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Hilda Hilst, Adélia Prado, Lya Luft e Helena Parente Cunha, entre outros. Para Rosana, “Em sua narrativa, a autora demonstra uma constante preocupação com os temas relacionados à situação da mulher. Nos seus contos, as personagens femininas comparecem como figuras preponderantes, em primeiro plano, envolvidas em enredos problematizadores de sua condição na sociedade. As personagens transitam em narrativas cujos desenvolvimentos representam a trajetória da mulher no espaço social, vivendo conflitos, atualizando anseios e enfrentando limites”.

O estudo de Rosana Ribeiro Patricio focaliza os romances O jogo de Ifá (1980), Atire em Sofia (1989) e O caso Alice (1991), e contos de Uma certa felicidade (1876), Os venenos de Lucrécia (1978) e O último verão de Copacabana (1985). São, portanto, narrativas que, segundo a autora, “(…) apresentam um painel de personagens vivendo as vicissitudes da presença da mulher numa sociedade ainda marcada por valores remanescentes do sistema patriarcal, nos anos 70-90. Geralmente as personagens são conduzidas por uma voz narrativa que assume um discurso de contraposição aos valores sociais vigentes”.

Rosana estabelece aqui uma relação simbólica entre as personagens femininas de Sonia Coutinho e a mítica Pandora. Elas, diz a autora, “abrem a caixa do entendimento, revelando os males que as afligem nas relações problemáticas com os homens, a família e a sociedade”. O título refere-se implicitamente ao quarto romance da escritora baiana, Os seios de Pandora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *