Entrevista com Boris Schnaiderman

Boris Schnaiderman
Por Carlos Ribeiro e Aleilton Fonseca

“A LITERATURA APÓS
A GLASNOST É EXTRAORDINÁRIA”

Ao contrário do que geralmente se acredita, o período mais importante da literatura russa não se esgotou com a instauração do regime comunista, após a Revolução de 1917. Importantes contistas, poetas e romancistas continuaram, ao longo do século XX, produzindo grandes obras, que permaneceram desconhecidas do Ocidente, por muitos anos devido à opressão exercida sobre artistas e escritores pelo regime soviético. Somente a partir da abertura promovida por Gorbatchev, com a Glasnost, é que elas passaram a ser mais conhecidas e devidamente apreciadas. Esta é a opinião de Boris Schnaiderman, 89 anos, ucraniano naturalizado brasileiro, professor aposentado de língua e literatura russa da Universidade de São Paulo e um dos mais conceituados tradutores do idioma de Tolstoi e Dostoievski no Brasil. Na entrevista a seguir, Boris fala também sobre o processo de tradução, que, segundo ele, exige uma grande dose de ousadia. A entrevista foi concedida em janeiro de 2006, em Salvador, aos editores da Iararana, e contou com a participação da professora de literatura e mulher de Boris Jerusa Pires Ferreira.

IARARANA– Nós conhecemos realmente a literatura russa, no Brasil?

BORIS SCHNAIDERMAN – A literatura russa teve uma presença forte no Brasil, mas os autores traduzidos foram poucos. Há muito mais a traduzir. Ás vezes há umas falhas estranhas. Por exemplo, estão traduzidos para o português vários trabalhos do ensaísta inglês, nascido na Rússia, Isaiah Berlin. Estão traduzidos para o português vários estudos dele sobre literatura russa. E depois, a Companhia das Letras publicou um famoso ensaio dele em duas traduções diferentes. Publicou primeiro no livro Pensadores russos, e agora publicaram, recentemente, com outro título, o mesmo trabalho numa tradução completamente diferente. Agora, o Isaiah Berlin fala muito de um pensador russo, Aleksandr Herzen, que não está traduzido em português. Ele tem um livro de memórias pessoais que é extraordinário. A tradução literal do título seria Passagens e pensamentos. É muito citado em muitas obras estrangeiras, há uma verdadeira obsessão por esse autor.

IARARANA – Um caso semelhante talvez seja o Nikolai Leskov, que é tão falado, mas tem pouca coisa traduzida aqui.

BS – Pouca coisa… mas existem vários contos em várias coletâneas. Houve no Brasil uma onda muito grande de contos. Traduziam-se muitos contos, que eram publicados em antologias. A principal parte da obra de Leskov são contos e novelas.

JERUSA PIRES FERREIRA – Há alguns grandes autores que quase não são percebidos, como Liérmontov.

BS – A obra de prosa dele é relativamente curta. Ele morreu aos 27 anos. Mas tem um grande romance, O herói de nosso tempo, que foi traduzido por Paulo Bezerra. Não foi muito divulgado, circulou pouco, mas é uma obra importante.

IARARANA – E há outros, como Antikarov…

BS – Antikarov não está traduzido, é um autor um pouco difícil. Não é um autor popular, mesmo na Rússia, porque a obra principal dele é um romance vastíssimo no qual não acontece quase nada, pois narra o cotidiano monótono de um funcionário público. Atrai pouco, e os editores não se arriscam. Antikarov é um escritor importante, mas editá-lo é um pouco difícil. Agora, o caso que eu acho mais surpreendente é o de Aleksandr Herzen. Um pensador político, importante, um grande escritor e completamente desconhecido no Brasil. É conhecido por citação. As pessoas lêem a obra do Isaiah Berlin, que é muito lido, lêem os trabalhos do Isaiah Berlin sobre o Herzen, e o próprio Herzen ninguém conhece.

IARARANA – Há um autor que o senhor falou que gostaria de traduzir, Daniil Kharms.

BS – Kharms é um autor extraordinário. Eu traduzi textos dele, mas muito pouco. Ele é muito importante, é o autor do absurdo. Na Rússia houve, na década de 1920, em Leningrado (atual São Petesburgo), um grupo de poetas, prosadores, dramaturgos, que fundaram o ABEIL, uma associação da arte real. Eles se diziam defensores da arte, se diziam realistas, e era uma literatura do absurdo. Mas que para a mentalidade soviética, era um absurdo completo. Depois, com o stalinismo, isso se tornou impossível. Eles não publicaram nada, a obra deles ficou inédita. Durante muitos anos, era impossível publicá-los. Eles só conseguiam publicar contos para crianças, porque a criança tem muita sensibilidade para o nonsense. Então eles se dedicaram também a contos para crianças, esses eram publicados. Eles sobreviviam graças à literatura para crianças. Mas o Daniil Kharms, que, na minha opinião era o mais importante deles, diz, num diário, horrores sobre crianças e detestava crianças e velhos. Não suportava pessoas de idade, não suportava crianças, e, no entanto, fazia literatura para crianças. Inclusive, ele tem um livro para crianças que se passa no Brasil. (Risos.)

JPF – Tem um capítulo, no livro de Boris Os escombros e o mito, editado pela Companhia das Letras, em que ele trata dos arquivos, de tudo que se pôde ter acesso durante a Peretroiska. Tem um título que é muito interessante, “Rindo com a corda no pescoço”, onde ele trata dessas questões do humor, dessa literatura de humor, desses contos que mereceriam uma tradução.

IARARANA – Na verdade, não só não conhecemos muitos autores russos importantes, como desconhecemos grande parte da obra dos autores mais conhecidos. Geralmente só se traduz as principais. E fica uma lacuna muito grande, pois só se conhece um autor, realmente, lendo também suas obras consideradas menores.

BS – Há realmente um grande desconhecimento dos autores russos. A literatura que veio à tona com a Glasnost é extraordinária. Os russos têm o hábito de arquivar. Isto é uma grande vantagem, e mesmo a polícia, a KGB, arquivava tudo. Não destruíam. Houve alguma coisa que se destruiu. Por exemplo: sabe-se que [Isaac] Babel escreveu um romance, que ele tinha aprontado um romance quando foi preso. Esse romance nunca apareceu. Hemingway tinha um respeito enorme por Babel. Ele chegou a afirmar: “Dizem que eu escrevo muito sinteticamente. Não é verdade. Quem escreve com verdadeira síntese é o Isaac Babel. Eu até que sou prolixo em relação ao Babel”. O Isaac Babel está traduzido em parte. Saíu recentemente uma nova tradução de Cavalaria vermelha, que é geralmente considerado o livro mais importante de Babel. Babel escreveu pouco. Ele foi preso e fuzilado quando tinha apenas 50 anos. Ele trabalhava muito os textos. Então, a obra dele não é extensa. Existem várias traduções para o português de Cavalaria vermelha. Eu traduzi pouco os contos dele. Ao todo, eu traduzi quatro contos dele. Inclusive, há um que eu acho extraordinário, que é chamado “Guy de Maupassant”. Realmente, no conto moderno ele atingiu o máximo.

JPF – Essa história você trata em Os escombros e o mito. Gostaria que falasse um pouquinho desse livro.

BS – Bom, esse livro trata essencial-mente do que veio à tona com a Glasnost. O que veio à tona é extraordinário. Hoje em dia, a idéia que se tem da literatura russa do século XX é inteiramente diferente da idéia que se tinha antes da Glasnost. Com a divulgação maior que aconteceu em 86, 87, 88, quer dizer, o que se conhecia antes disso não permitia que se tivesse a idéia que se tem hoje sobre a literatura russa do século XX, que foi muito mais importante do que geralmente se pensa. Com muita freqüência se fazia a seguinte pergunta: mas como foi possível que a Rússia produzisse tantos gênios da literatura e depois do século XX não aparecesse quase nada? Não é verdade. A literatura russa do século XX é uma literatura forte, uma literatura importante. Há quem discorde disso. Por exemplo, Josef Brodsky acha que não, que a grande literatura russa é a do século XIX, que a do século XX não é lá essas coisas, com exceção de algumas obras de poesia. Essa é a opinião dele. Eu não concordo. Eu acho que a literatura russa do século XX é uma literatura forte.

JPF – Além dos escritores tradicionais, houve toda uma corrente de utópicos que criou outro tipo de ficção.

BS – Ah, bom, o Zamiátin. O Ievguêni Zamiátin. Ele tem um livro que está traduzido para o português. Existem duas traduções dele. Uma das tra-duções brasileiras chama-se Nós!, e a outra se chama A onda verde. Eu não concordo com esse título de jeito nenhum. O título é Nós! E é importante que seja assim, muito incisivo. O certo é que Zamiátin teve um romance utópico com esse nome. Esse romance, na realidade, teve uma repercussão muito grande. Foi publicado no Ocidente. A publicação lá não foi permitida. O romance é de 1920. Foi publicado, se não me engano, na antiga Tchecoslováquia, uma coisa assim, em russo, e depois foi traduzido para o inglês e para o francês e teve uma repercussão muito grande. Orwell afirma que o 1984 dele e o Admirável mundo novo, do Huxley, nascem desse romance. O Orwell afirma isso. Esse Nós! foi extraordinário porque aconteceu justamente o que ele estava prevendo. O romance é de 1920, mas não conseguiu publicá-lo na Rússia, Ele publicou no Ocidente e foi muito atacado por causa disso. Deixaram de publicar as obras dele. Foi escrevendo e não conseguia publicar.

JPF – Mas entra numa coisa importantíssima que é importante falar. Tinha o Boulgakov, do O Mestre e Margarida e da força de criação das literaturas periféricas da Rússia no século XX.

BS – Eles [Zamiátin e Boulgakov] eram amigos, e os dois tiveram a ilusão de escrever para Stalin. Mas o Zamiátin era amigo de Gorki, então Gorki conseguiu que o Zamiátin pudesse viajar para o exterior. O Zamiátin não era publicado na Rússia, e acabou entrando, sendo autorizado, o Gorki se empenhou nisso, e Zamiátin acabou indo para o exterior. Agora, o Boulgakov teve um destino muito mais triste. Ficou na Rússia, em situação muito precária, não era publicado. Tem mais de uma tradução para o português de O Mestre e Margarida, mas não existe uma tradução recente. Agora saiu um volume grande da Edusp com obras mais curtas do Boulgakov, tradução do russo de Homero de Freitas. Saiu recentemente.

IARARANA – Falamos de traduções de prosa, mas o senhor fez traduções importantes de poesia, sobretudo Maiakovski e Khelébnikov. Gostaria que falasse dessa experiência.

BS – Na poesia só tenho feito tradução em colaboração com poetas nossos. Eu não domino plenamente a linguagem poética para traduzir poetas russos. Mas eu tenho feito traduções com Augusto e com o saudoso Haroldo de Campos, e depois com Nelson Ascher. Principalmente de poesia russa moderna, isto é, poesia russa a partir do início do século XX. Uma ou outra coisa da poesia anterior eu também traduzi em colaboração. Foi o caso de Puschkin, pouca coisa. Agora, poesia russa moderna, eu realmente me empenhei com Haroldo e Augusto de Campos. Foi assim um trabalho muito importante para mim. Eu tinha uma formação muito tradicional, eu sou completamente autodidata em literatura, nunca fiz um curso em literatura. Eu tenho cursos de literatura, mas nunca fiz um curso de literatura, sou completamente autodidata, é o meu caso e o caso de muita gente boa no Brasil. (Pausa) Agora, eu disse há pouco que foi muito importante para mim, porque eu passei a traduzir poesia com Augusto e Haroldo de Campos numa fase em que eu estava me voltando para o moderno. Eu tinha uma formação muito tradicional e autodidata e estava me voltando para o moderno. Eles faziam uma poesia muito centrada no estudo de linguagem e estavam se voltando para uma posição política mais definida. Foi uma época de grande entusiasmo nosso por esse trabalho. Produzimos a poesia de Maiakovski e estendemos um pouco o leque para a poesia russa moderna em geral. Daí resultaram dois livros: Poemas de Maiakovski, editado pela editora Perspectiva (de início foi pela Tempo Brasileiro, a primeira edição só, depois todas as demais edições foram pela Perspectiva), e Poesia russa moderna, que teve um trajeto bastante variado. Quer dizer, começou pela Civilização Brasileira, depois passou a ser editado pela Brasiliense, e a edição mais recente saiu pela editora Perspectiva. Está na sexta edição, e Maiakovski está na sétima edição.

JPF – De alguma maneira esses livros são formadores de imaginário, não é? Porque tem a parte gráfica também das vanguardas russas. A parte gráfica: o famoso anel que Maiakovski deu para Lilia Brik. Isso foi incorporado até na publicidade. Isso está até no Museu Maiakovski, na Rússia, em Moscou.

BS – É realmente uma questão bastante complexa. Eu conheci o Museu- biblioteca Maiakovski, que estava instalado na casa em que Maiakovski viveu com Lilia Brik, que foi o grande amor da vida dele, era esposa de um amigo dele. Ele se apaixonou por Lilia e foi uma história bastante complicada. Em 72, quando eu estive em Moscou, fui visitar a Lilia Brik e tive uma conversa com ela, uma conversa muito im-portante pra mim. Agora, em poesia russa moderna nós reunimos o que nós considerávamos então como o que havia de mais importante na poesia russa a partir do início do século XX. Foi uma visão pessoal naquele momento, a nossa concepção era de centrar principalmente na criação da linguagem poética que surgiu no século XX. Agora, nós não centramos tudo em Maiakovski. Maiakovski seconsiderava discípulo de Khlébnikov, o grande poeta russo. A partir daí nós abrimos um leque e procuramos abranger o que acreditamos que havia de mais importante na poesia russa da época.

JPF – E tem o contemporâneo que vai juntar com essas idéias que vem da periferia, que é um grande poeta de um povo tártaro perdido lá no fim do mundo: um povo do Volga, de uma etnia chamada chuvash. Lá existe um sujeito chamado Guenádi Aigui, que é um dos maiores poetas do mundo.

BS – É o poeta russo recente que tem maior espaço na nossa antologia. Agora, verdade seja dita que nós ajudamos a divulgá-lo no Ocidente. Eu tinha recebido umas notícias vagas sobre ele. Foi em revistas, principalmente em revistas publicadas no Ocidente. E quando o Haroldo de Campos esteve em Praga, um pouco antes do golpe de 64. Quando ele estava em Praga, na embaixada soviética de Praga, uma funcionária da embaixada falou para ele com entusiasmo do Guenádi Aigui. O Guenádi Aigui não era publicado na Rússia, mas era conhecido em traduções para o tcheco, para o húngaro, para o sérvio-croatra. Depois, mais tarde começou a aparecer em alemão. Ele começou a ser divulgado no Ocidente, mas assim muito pouco. Eu o procurei em Moscou, e, quando fui lá no Museu-biblioteca Maiakovski, ele estava viajando. Eu deixei pra ele uma carta, e ele me respondeu. Ele me respondeu e mandou poemas, e mandou cartas longas, e mandou materiais. Estabeleceu-se assim um contato, e muitos poemas dele eu me lembro que nós enviamos para pessoas no Ocidente, contribuímos para a divulgação dos poemas dele em outros países. Muitas coisas recebi dele, muitas coisas recebi de amigos dele no exterior. Houve uma circulação entre os que se ocupavam de Aigui.

IARARANA – O fato da antiga União Soviética ter-se isolado à influência capitalista possibilitou que fosse criada uma poesia diferente da ocidental, mais apegada à tradição que à renovação da linguagem?

BS – O que acontece é que na Rússia a poesia tradicional tem muito maior peso do que no Ocidente. Os russos até hoje estão muito ligados à poesia do século XIX. A poesia na Rússia tem uma presença muito grande. Você chega no metrô, tem pessoas lendo poesia. É uma coisa quase inconcebível nos países do Ocidente. Se lê muita poesia na Rússia, agora são muito ligados à poesia tradicional. O Aigui, por exemplo… Para muitos russos, o Aigui é um poeta inaceitável, porque ele rompe completamente com o cânone tradicional. Muitos até dizem que ele escreve assim porque não é russo, porque é chuvash. Escreve diferente dos outros, então, inclusive dizem isso. Mas a Rússia tem uma poesia moderna, revolucionária, que revolucionou a linguagem, uma poesia muito forte. O que acontece é que o contato da cultura moderna russa é justamente maior na ligação com essas diversas etnias. Houve casos de ligação direta, a exemplo da Ucrânia. A Ucrânia tinha uma ligação direta muito grande, tanto que o Gogol era ucraniano. Um dos maiores autores russos, não é? Era ucraniano. Mas de um modo geral as outras etnias entravam pouco. Agora, a partir do século XX há uma fusão maior com as outras etnias. A presença das outras etnias é muito mais forte. Por exemplo: a obra do Isaac Babel. Ela é inconcebível sem a ligação do Babel com a formação judaica dele. Babel é um escritor russo, um escritor bem russo, mas tem essa ligação forte com as raízes dele. O Aigui como grande poeta, um grande romancista da Quirguízi, o Tchinguiz Aitmátov. Dois livros dele estão traduzidos para o português. Um é o romance, conto ou novela Djamiliá, foi traduzido para o português, mas circulou pouco, porque foi lançado por uma editora de pouca presença no mercado editorial brasileiro; e o outro romance dele é O navio branco, que já teve uma circulação maior. É um romancista notável.

IARARANA – A tradução é uma atividade paradoxal por excelência. É preciso coragem para traduzir?

BS – É preciso coragem, porque quem sou eu para traduzir Dostoievski? E, no entanto, eu preciso traduzir Dostoievski. Quer dizer: eu preciso ter coragem para isso. E, se eu me disponho a traduzir Dostoievski, eu tenho que traduzi-lo com ousadia. É um trabalho paradoxal por excelência. O tradutor tem que ser um criador, ele tem que criar uma obra. Quando ele está traduzindo, é um trabalho literário. Traduzir um romance é um trabalho que corresponde a um trabalho de escrever um romance. Tem que ser um trabalho de criação, porque sem isso será um trabalho qualquer. Então, é sempre um ato assim de trazer uma outra cultura para a nossa. Não pode ser assim, traduzindo linha por linha, palavra por palavra. É preciso ousadia. É preciso coragem.

IARARANA – O senhor pode falar dessa questão da tradução a partir de um livro que está preparando para a editora Perspectiva?

BS – São pensamentos sobre o ato da tradução. É um livro que parte da experiência de tradutor, e não de uma posição teórica. A posição teórica decorre do ato de traduzir. Agora, este é um problema muito complexo, que eu vou transpor de uma cultura para outra. Não se pode traduzir linha por linha, palavra por palavra. É preciso ousadia.

IARARANA – Pode dar um exemplo?

BS – Há um verso de (Boris) Pasternak, que Haroldo de Campos traduziu como: “A dor do universo numa fava.” É um verso belíssimo. No entanto, se eu vou ao verso russo, não tem essa força que tem o verso de Haroldo. Haroldo costumava falar da lei das com-pensações na tradução. Porque, traduzindo, alguma coisa eu perco. Então, se perco numa determinada passagem, tenho que compensar em outra. Eu tenho assim um balanceado no qual o conjunto vai corresponder à força do original. Com isso se pega naquela posição do Robert Frost, de que poesia é aquilo que se perde nas traduções. É engraçado, mas não é verdade!

IARARANA – Como o senhor disse, numa entrevista, foi-se o tempo em que o tradutor tinha que ser neutro.

BS – Sim, havia a noção de que o tradutor tinha que se omitir, tinha que omitir a sua personalidade, não é? Não, o tradutor tem que estar presente. É impossível, quer dizer, o tradutor, mesmo que ele queira se omitir, ele estará presente. Ele terá menos força, se tiver a preocupação de se omitir, ele terá menos força. Porque, em princípio, a tradução é impossível. A tradução em princípio é impossível, mas ela tem que ser feita. Este é que é o grande paradoxo.

IARARANA – Em dezembro de 2005, houve em São Paulo um congresso sobre Dostoievski, do qual o senhor participou. Qual foi a importância desse congresso e que resultados trouxe no conhecimento da obra daquele autor?

BS – O que houve de mais importante no congresso, a meu ver, foi a participação de professores estrangeiros, inclusive vindos da Rússia. Eles trouxeram trabalhos importantes, notícias de livros que têm saído sobre obra de Dostoievski. A troca de experiências foi valiosa.

IARARANA – Existe hoje um grande número de pessoas interessadas na redescoberta, numa visão mais moderna de Dostoievski?

BS – Sem dúvida. Está para sair um livro de Bruno Gomide, que é uma tese de doutoramento de cuja banca participei, sobre a recepção da literatura russa no Brasil até 1938. Nesse trabalho ganham forma fatos importantes. Dostoievski esteve muito presente no Brasil a partir do século XIX. Na década de 50, a pesquisadora russa Ina Terterian, especialista em literatura brasileira na Rússia, levantou a hipótese de que Machado de Assis teria sofrido influência de Dostoievski. Ela acha que houve influência na tipologia dos personagens.

IARARANA – O senhor concorda com essa hipótese?

BS – Não. Machado de Assis conhecia Dostoievski, ele o cita em várias crônicas. Mas cita de passagem. Cronologicamente, constata-se que, se ele realmente conheceu Dostoievski, não teve tempo para se imbuir de sua obra.

IARARANA – Há uma tradição crítica acerca de Dostoievski. No recente congresso, surgiu algum ponto de vista novo no estudo do autor?

BS – Sem dúvida. Houve estudos, por exemplo, sobre Dostoievski na prisão, fase até então pouco estudada. Os textos referentes ao processo são extraordinários. Ele respondeu quase tudo por escrito nos interrogatórios. Por aí se vê que no aparelho repressor russo havia pessoas de alto gabarito. As perguntas que formulavam pegavam Dostoievski de surpresa. E as respostas dele são extraordinárias, tudo muito conciso, direto. Às vezes tem-se a impressão de que Graciliano Ramos se baseou no processo de Dostoievski. É provável que co-nhecesse alguma coisa. Dostoievski, diante das perguntas dos juízes, responde num estilo parecidíssimo ao do Graciliano. Agora, não há dúvida que ele era um grande leitor de Dostoievski.

IARARANA – O senhor é um dos principais tradutores de Dostoievski no Brasil. Como é essa experiência?

BS – Comecei traduzindo muito mal, na década de 40, por necessidade financeira. Não tinha o preparo ne-cessário, realmente era uma te-meridade. No entanto, falam muito bem, a crítica elogia essas traduções.

IARARANA – Quais as primeiras obras traduzidas?

BS – A primeira obra que traduzi foi Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski. Foi uma loucura completa, uma irres-ponsabilidade total. Assinava com pseudônimo. Só passei a assinar as traduções com o meu nome a partir dos fins da década de 50. O primeiro livro que saiu foi uma coletânea de contos de Tchekov, mas ainda muito defeituosa, eu acho. No entanto, foi recebida com aplausos; houve um grande texto, muito bonito, de Otto Maria Carpeaux. Como era uma coletânea, Carpeaux fez um ensaio sobre Tchekov. Mas a tradução de 1959 ainda tinha graves defeitos, que depois eu corrigi, em novas edições.

IARARANA – O senhor tem alguma novidade em termos de tradução?

BS – Não. Eu não uso o computador, mas a máquina de escrever. Então, sentar à máquina para traduzir um romance, hoje, para mim, é um esforço muito grande. Tenho a necessidade de melhorar as produções antigas, o que é muito mais proveitoso. Minhas produções podem ser divididas em três fases. A primeira é da década de 40. Depois há uma fase de traduções em que me preocupava muito com a qualidade do meu trabalho, mas tinha uma concepção errada de textos literários. Os autores eram sagrados. Eu tinha de traduzi-los com todo o apuro e acabava deformando o texto. Dostoievski foi acusado de escrever mal o russo, com muitas repetições. Mas é o estilo próprio, pessoal, dele, que tem de ser respeitado. Manuais de estilo dizem que não, não se deve repetir palavras e eu traduzia assim, procurava traduzir com um “estilo digno” e com isso deformava, porque o texto original muitas vezes tinha um estilo mais solto, mais livre e eu transformava num estilo mais solene. A partir da década de 70, mais ou menos, passei a traduzir num ritmo mais solto. Para isso, foi preciso percorrer um longo caminho.

IARARANA – Como o senhor vê a questão da semiótica?

BS – Acontece o seguinte: eu não sou semioticista. Mas aconteceu que tive muitos contatos com semioticistas e achei que tinha de divulgar esse material. Eu me interessei pela semiótica porque estava ensinando língua e literatura russa e achei absolutamente indispensável ver o que havia de moderno em termos de linguagem. Semiótica, para mim, foi um instrumento, e eu me pus em contato com semioticistas. Daí surgiu o livro Semiótica russa, que eu organizei. Poucas traduções lá são minhas; outras, de duas co-laboradoras.

IARARANA – A semiótica foi bem compreendida no Brasil?

BS – Se foi bem ou se foi mal entendida no Brasil, é difícil dizer. Teve gente que acertou bastante, teve gente que errou muito. Agora, existe sempre a preocupação no meio universitário com umas… palavrinhas mágicas, não é? (rindo), que volta e meia aparecem. Essa coisa de as pessoas logo quererem falar de carnavalização, dialogismo, e isso aconteceu no mundo inteiro, não foi somente no Brasil. O mundo universitário exige às pessoas apresentarem trabalhos; para isso elas têm que se basear em alguma coisa, ficam procurando as palavrinhas mágicas.

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