Entrevista com Antonio Carlos Viana

por Mayrant Gallo

UM UNIVERSO SEM HORIZONTE

Com dois livros publicados pela Companhia das Letras, O meio do mundo e outros contos (1999) e Aberto está o inferno (2004), o sergipano Antônio Carlos Viana se consolida como um dos renovadores do conto brasileiro de vertente campesina. Em sua obra, o campo perdeu a inocência, tornou-se tão terrível e doentio quanto o espaço urbano das grandes metrópoles, sempre pintado, desde tempos imemoriais, como um cenário de dor e infâmias. Se esse aspecto já seria o suficiente para ressaltá-lo perante seus contemporâneos, mais ainda o é o fato de que resgata para o conto atual um valor imprescindível, a metáfora, responsável pela permanência da literatura como texto capaz de dilatar nos leitores o conhecimento do real. Nesta entrevista, Viana esclarece um pouco do seu processo de criação, fala de suas escolhas artísticas e comenta a censura imposta ao seu livro pela Universidade Federal de Sergipe.

Mayrant Gallo – Sua opção pelo conto foi voluntária? Ou este gênero representa seu ritmo original, sua forma de expressão mais genuína, mais espontânea?/p>

Antonio Carlos Viana – Como todo mundo que tem veleidades literárias, achei que um dia seria poeta. Fiz lá os meus pobres poemas, que, felizmente, se perderam. Aliás, eu quis que se perdessem. Quando comecei a ler os grandes poetas, vi que não teria chance. João Cabral foi quem me jogou o último balde de água fria. Ao ler a matemática de seus poemas, senti o quanto era incapaz de escrever um verso aproveitável. Todo mundo devia ter acesso na juventude à grande literatura para saber de seus limites e, ao mesmo tempo, de suas possibilidades. Como a veia poética é comum a todo mundo, sobretudo na adolescência, seria bom que nessa fase houvesse bons professores de literatura para dizer o que é mesmo poesia. Não que o professor estivesse ali para barrar, mas para dar a dimensão do campo poético. Ninguém devia escrever poesia antes de ler os grandes marcos: Dante, Camões, Pessoa, e tantos outros mais. Muitas vezes a pessoa insiste em ser escritor por falta de informação. E como nos constrange ler textos incipientes… É muito chato ter que dizer olhe, trabalhe mais, ainda não está no ponto, isso ainda é muito confessional. Se o jovem soubesse desde cedo o que é mesmo literatura, se pouparia desses comentários e nos pouparia também de ser gentis à força. Mas voltando ao meu caminho, logo cedo desisti de ser poeta. Só fui descobrir que podia ser contista depois de ler os grandes, como Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Maupassant, Tchecov, e o de sempre: Machado de Assis. Com eles eu vi que também tinha minhas histórias e dava para contá-las. Não que fosse fácil. Meus primeiros contos eram horríveis. “Perdi-os” também. Quando escrevi meu primeiro conto de verdade, senti que estava num território em que um canto podia ser meu. Daí em diante não parei mais. Creio que o conto está mais de acordo com meu jeito de ser, pois sou muito impaciente para histórias longas. Escrever um romance leva tempo, é preciso ler, reler, tresler, até o infinito. E cada vez que releio algo que escrevi sempre pioro. Não é que o conto não dê trabalho, mas a história se conclui mais rapidamente. Depois vem a carpintaria.

MG – Simenon dizia que escrevia seus livros no espaço máximo de 11 dias, pois não conseguiria ser “outra pessoa” por mais tempo. Ao escrever um conto, você também “vive outra vida”?

ACV – Não é bem viver outra vida, mas ficar envolvido com ela enquanto o conto não é concluído. A história vem por acaso. É difícil premeditar um conto. Ele surge do nada, de uma frase, de um acontecimento banal, e a gente sente logo se ali tem algo que merece ser desenvolvido. A personagem vai crescendo e toma conta do nosso dia, de nossas noites, de nossas caminhadas. Giramos em torno dela. Para onde vamos, ela vai atrás, nos persegue implacavelmente. E assim se vai delineando, a história toma rumos inesperados até que chega ao final, para nosso alívio, ou também não chega, para nosso desespero. Como você vê, não é bem o caso de Simenon, porque comigo as histórias levam às vezes meses para se concluírem. Algumas já levaram anos, o que é pior ainda. Terminamos nos acostumando com isso, porque é bem melhor a gente se preocupar com personagens do que com idéias fixas que podem levar a um ensimesmamento improdutivo. Acho que a literatura, quando bem vivida por dentro, nos livra de certos estados negativos que acometem todo mundo pelo menos uma vez na vida. Não quero dizer com isso que ela seja um divã, mas ajuda a levar o tempo com menos angústia.

MG – Alguns dos seus contos têm desfecho subjetivo, metafórico, característica que os aproxima da poesia. Esse é um procedimento consciente ou simplesmente é a linguagem que se impõe, cifrando-se e surpreendendo ao mesmo tempo autor e leitor?

ACV – Talvez o poeta que sufoquei lá longe de vez em quando queira emergir. E tenho muito cuidado com isso. João Cabral dizia para não literarizar o poema, o que é um perigo também para a prosa. Cuido para que haja equilíbrio entre a poesia emergente no texto e a secura da linguagem que busca obsessivamente. O metafórico surge mais como uma forma de inquietar o leitor. Deixá-lo sempre com uma interrogação nem sempre passível de resposta. Há um poeta francês chamado René Char, para quem poesia é mistério e assim deve ser vivida. Se você decifrar o enigma, acaba a poesia. O mesmo digo eu para certos contos. Se a história vem toda certinha, o leitor se tranquliza e não pensa. O papel do escritor é cutucá-lo. O nosso mal é querer dar sentido a tudo e nem sempre ele está ao nosso alcance. Há quem entenda a vida? E no entanto vivemos.

MG – Fale de suas influências, dos contistas que mais admira. Há algum autor ou modelo de conto que o tenha influenciado decisivamente?

ACV – Se eu fosse escolher uma influência, talvez convocasse Mário de Andrade. Gosto do jeito dele escrever meio como quem não quer nada, como se estivesse contando a história a uma pessoa próxima, sem se preocupar com o estilo. Depois é que a gente vê como ele o trabalha. Há um conto que levou dezessete anos para ser concluído. Por isso que deixou apenas dois livros fundamentais para o conto brasileiro: Contos novos e Contos de Belazarte. Outro que foi um dos motores para eu começar a escrever foi José J. Veiga, hoje infelizmente esquecido. Acho que vem dele o narrador infantil que tanto prezo. O narrador-criança é interessante porque, como ele vê o mundo de certo ângulo, sempre ficam sombras que criam no leitor espaços que devem ser preenchidos pouco a pouco. O universo infantil é todo cheio de mistérios porque a criança não tem pleno entendimento das coisas (como se a gente tivesse…). O terceiro escritor que me impulsionou foi Clarice Lispector, da qual acho que não tenho nada, o que é bom. Quando li Clarice pela primeira vez senti que ela dizia coisas que ninguém até então havia dito para mim e eram tão verdadeiras, mesmo que intangíveis. Laços de família é um livro que todos deviam ler. Aliás, tudo o que ela deixou. A descoberta do mundo, seu livro de crônicas, está sempre ao alcance da minha mão. Fora esses, tem Gabriel Garcia Márquez, mas é só admiração pela facilidade como ele conta uma história, algo que não tenho. Tendemos a preencher com as virtudes do outro aquelas que não temos. Se eu fosse pensar em acidez e humor, pensaria em Nelson Rodrigues. Às vezes acho que tenho algo dele, sobretudo na descida ao que o ser humano tem de mais sórdido, escabroso, escondido.

MG – Você não é o primeiro contista a confessar o quanto José J. Veiga foi importante para a sua formação. Veiga é um dos contistas mais citados pelos contistas. No entanto, atualmente, parece ignorado pelos leitores. Qual o motivo deste gradativo esquecimento?

ACV – José J. Veiga teve um papel fundamental no desencadeamento da fantasia como motor do conto. A princípio, parece fácil, mas não é, porque o universo da fantasia tem sua regras de verossimilhança. Não houve quem não ficasse fascinado com Os cavalinhos de Platipanto e com A hora dos ruminantes. Basta ler esses dois livros para saber de sua importância na literatura brasileira. Acho que os editores deixaram de investir na reedição de suas obras, o que é uma pena. Se elas fossem reeditadas, tenho certeza de que muitos professores do curso médio as indicariam como leitura obrigatória para seus alunos e eles gostariam. É preciso obras como as de Veiga para aliciar novos leitores. Sempre começam com Machado de Assis, o que considero um erro de estratégia. Machado fica para quem já percorreu um longo caminho. A escola e os vestibulares precisam repensar essa forma de disseminar o gosto pela leitura. É preciso, num primeiro momento, fugir ao cânone. Gostaria de saber quantos leitores a leitura obrigatória dos vestibulares formou.

MG – Ricardo Piglia menciona o “ritmo” como um aspecto fundamental para a criação do conto. É como se cada conto relevante tivesse um ritmo único, peculiar, sem o qual não existiria. O que você acha disso?

ACV – O ritmo é fundamental em tudo o que escrevemos. Acabei de concluir um novo livro de redação (o anterior se intitula Roteiro de Redação, Scipione, 1997) e dediquei um capítulo ao ritmo. O professor deve ensinar a seus alunos como obter melhor expressão quando organiza uma frase. Literatura é ritmo. Não só o texto literário, o jornalístico também. Leia os grandes articulistas da imprensa brasileira, cada um tem seu ritmo. Na literatura, às vezes são as personagens que o ditam, às vezes o enredo. Se o ritmo for falso, o texto rui. Estudos de crítica genética mostram como muitos escritores trocavam palavras de lugar, substituíam uma por outra, só para não prejudicar o ritmo escolhido. E o conto exige muito mais porque a gente trabalha com muito pouco espaço, tempo e personagem únicos. Qualquer descuido põe tudo a perder. Se o ritmo não for bom, adeus, conto. Cortázar numa de suas entrevistas a González Bermejo (Conversas com Cortazar) diz que, desde que começou a escrever, a noção de ritmo correu paralela à escrita. Eu mesmo às vezes implico com os finais de meus contos quando o ritmo não me agrada. Temos de pegar o leitor pelo ouvido, só depois é que ele vai atentar para o sentido.

MG – Os assuntos de cunho sexual são freqüentes em seus contos. São uma espécie de filtro através do qual seus narradores destilam o que a natureza humana tem de melhor e pior. Essa escolha reflete suas preocupações ou são “eus” projetados, uma evasão das emoções pessoais, como diria T. S. Eliot?

ACV – Todo escritor sempre se projeta no que escreve, não há como escapar. Evidente que nem tudo aconteceu com ele, mas a visão de mundo é dele, e só dele. O erotismo é muito presente nos meus contos talvez por reação contrária a tudo o que recebi como educação. Fui “educado” por uma família muito católica, repressora até a medula. Depois pelos padres salesianos, mais repressores ainda. No primeiro momento, vinha a vontade de escrever histórias quentes, mas não conseguia. Alguma coisa não deixava. Com o tempo fui me liberando, as personagens vinham fortes, com o sangue fervendo e eu deixei que viessem. Deu nisso que está aí. O sexo é vivido de forma degradante, quase sempre, fruto talvez da visão católica que me impingiram. Mas só o fato de colocá-lo assim já diz que eu não o aceito dessa forma. As situações são escabrosas e o prazer é algo distante, é mais sofrimento que qualquer outra coisa. Uma ou outra personagem consegue viver a situação plenamente, como o menino de O meio do mundo, assim mesmo porque, diante da vida que ele tinha, o encontro com a prostituta carvoeira, suja, fedorenta, é uma luz naquele universo sem horizonte. O de Ana Frágua, também encontra certo prazer, mas bem diferente do que ele imaginava porque teve de se preocupar com a dor que ela estava sentindo. E assim são as histórias, um tanto quanto opressivas, mas foi o que me restou a dizer. Ainda bem que ultrapassei o moralismo que tentaram inocular no meu sangue. A literatura, nesse sentido, pode ser um exutório.

MG – De onde vêm suas histórias? Elas se criam pouco a pouco, conforme o texto avança, ou você as esboça, rascunhando, inclusive, o argumento, como fazem alguns contistas? Na verdade, a pergunta é esta: o que é mais recorrente no seu processo de criação, a inspiração arrebatadora ou o trabalho consciente?

ACV: Gostaria de ser vítima da inspiração, mas até hoje ela não me apareceu. Só conheço o trabalho duro, cansativo até, a insatisfação permanente, o que faz do ato de escrever algo tormentoso mesmo. Se esperar que a inspiração venha, não acontecerá nada. Nada mesmo. Por isso, todo dia sento diante dessa máquina enervante chamada computador e escrevo uma frase que ouvi de alguém, ou que me veio à cabeça no momento e dali puxo a história. A gente sente quando a frase tem força e vai abrir caminho. Muitas vezes dá desânimo ter escrito tanto e não aproveitar nada. Serve apenas como exercício. Quando o desânimo bate, deixo o texto descansar dias, semanas, volto, dou mais umas marteladas e, às vezes, como por milagre (seria isso a inspiração?) o conto acontece. Como você vê, é tudo fruto de muito trabalho. Como dizia Valéry, inspiração é algo que diz mais respeito ao leitor, que lê o texto como fruto de um inspirado, quando para o escritor tudo não passa de suor.

MG – Meus alunos receberam muito bem seus contos, que li para eles durante uma oficina. Melhor dizendo, ficaram fascinados a ponto de divulgá-los aos outros estudantes. A que você atribui esse interesse da parte de um público mais jovem?

ACV – Tento fazer o que posso com a linguagem. Não gosto de escritores que se fecham, que pegam a palavra e com ela fazem um jogo hermético para humilhar o leitor. Procuro criar situações em que o outro se reconheça ou reconheça algo que lhe é próximo. Talvez seja por isso esse fascínio de que você fala. Trabalho a linguagem de tal forma que ela fisgue o leitor desde o primeiro instante e ele se sinta compelido a ir até o final da história. Trabalho com poucos elementos para que ele não se perca, embora às vezes eu deixe pistas que a muitos passam despercebidas. Tenho observado que mesmo jovens de quinze, dezesseis anos, lêem meus contos com interesse e sobretudo prazer. Se a gente não alcançar isso, é porque falhou. Evidentemente não conseguimos fazer isso a toda hora. Somos humanos, logo passíveis de falha.

MG – Seu livro O meio do mundo e outros contos foi realmente censurado pela UFSE ou isso é lenda?

ACV: Não é lenda. Em 2003, O meio do mundo foi indicado como leitura obrigatória (algo sempre questionável) para os alunos do primeiro ano do vestibular seriado. Soube que os meninos estavam gostando tanto do livro que matavam aula para ficar lendo no pátio. O livro dava margem a muita discussão, o que é sempre bom. Sei que os temas não são leves, e muitos professores não se sentiam confortáveis na interpretação de alguns deles. Mas a reação não foi deles, mas dos pais e de alguns diretores de colégio, que fizeram uma cruzada contra o livro, chamando-o de pornográfico. Fizeram até um inventário dos palavrões e o levaram ao coordenador do vestibular. O livro foi retirado da lista na hora, sem nenhuma discussão com o Departamento de Letras, que o indicara. Fiquei perplexo diante da atitude da universidade. Seu papel era reeducar os pais e diretores, mostrar que a presença de um ou outro palavrão não torna nenhuma obra pornográfica. Só o fato de o terem tirado na hora diz muito do pensamento retrógrado da univer-sidade. Para não passarem por censores, disseram que o livro voltaria em 2005, agora para alunos do terceiro ano. Só que o livro não voltou e ninguém falou mais nisso. O próprio Departamento se calou. Só a Companhia das Letras protestou publicamente com uma nota num jornal daqui. Se O meio do mundo foi banido da lista em menos de três meses, Aberto está o inferno seria provavelmente queimado no campus.

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