Entrevista com Antonio Carlos Secchin

Por Aleilton Fonseca

“O POETA É UM DECIFRADOR ÀS AVESSAS”

O poeta, crítico e professor Antonio Carlos Secchin (1952), publicou recentemente seu mais novo livro, Cinqüenta poemas escolhidos pelo autor”, pela editora Galo Branco, numa coleção que conta com grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. Pouco antes, o autor havia publicado seletas poéticas do poeta neo-parnasiano Mário Pederneiras e do poeta romântico Fagundes Varela, numa tentativa de resgatá-los do esquecimento crítico e do limbo editorial. Com estudos agudos e uma poesia vigorosa, Secchin é hoje um dos mais ativos intelectuais do país. Em 2004, ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, o poeta tornou-se, e ainda permanece, o mais jovem imortal da Casa, como um emblema de uma renovação que começa a despontar nos horizontes acadêmicos neste início de século 21. Nesta entrevista. o autor fala do seu trabalho como poeta e crítico.


Aleilton Fonseca – Como o poeta Antonio Carlos Secchin se situa no panorama da poesia brasileira atual?

Antonio Carlos Secchin – Fora dos grupos de índole belicosa que dividem o mundo da poesia entre “aquilo que nós fazemos” e “a idiotice dos outros”. Espanta-me que, num circuito de leitores tão rarefeito como o da poesia, se perca tanto tempo enfatizando-se os possíveis equívocos alheios daqueles que não seguem o catecismo em que cada grupo inscreveu os mandamentos da sua inabalável “verdade” poética.

AF – No seu caso, que relações há entre o criador e o crítico no trato diário da literatura?

ACS – Como professor e crítico, tento levar a poesia aos alunos e leitores, por meio de uma linguagem que não os atemorize ou intimide, mas que, ao contrário, soe como convite acolhedor à fruição de uma das mais fascinantes aventuras do espírito humano. Como poeta, noutra escala, também busco elaborar uma mensagem que seja transitiva. Num e noutro caso, trata-se de compartilhar um texto onde fique visível e audível a paixão pela palavra.

AF – Em que medida a condição de poeta interfere na tarefa de lecionar literatura para alunos que serão professores, não necessariamente escritores, num país de pouca leitura?

ACS – Às vezes, tento deixar o poeta do lado de fora da sala, mas nem sempre consigo impedir que ele acabe entrando pela janela… Você, que é também escritor, decerto já terá vivenciado a experiência em que alguma percepção de momento, alguma chispa de combustão poética, ilumina o que havia preparado para a aula, levando-a a inesperados desdobramentos. Estou sempre receptivo a essas incursões do imprevisível. Quanto aos alunos, parto da premissa de que eles podem, até, pouco ou nada saber, só não devem desejar não saber. Tento aferir com cuidado o solo de (des)conhecimento de onde parto,e então procuro fazer os alunos moverem-se com alguma segurança a partir desse “ponto zero” comum à turma.

AF – Você faz parte da histórica antologia 26 poetas hoje, organizada por Heloisa Buarque de Holanda. Em que você ainda participa daquela proposta e em que seus caminho o afastaram daqueles companheiros?

ACS – A rigor, nunca participei da proposta daquele grupo, dos chamados “poetas marginais”, a supor que ali houvesse de fato alguma proposta consensual. Desde aquela época, nos anos 1970, me movia uma preocupação com o rigor do texto que era minimizada, quando não ridicularizada, por vários dos mais proeminentes nomes do movimento. Sempre temi que o exacerbado elogio do “espontâneo”, então vigente, acabasse acobertando e fomentando o desleixo e a ignorância.

AF – O que o livro Todos os ventos representa em sua poesia?

ACS – Ambas as coisas. Apesar de não muito volumoso (Ivan Junqueira denominou-me “ o poeta do pouco”), reúne, revista, minha produção anterior, na segunda metade do livro, e poemas escritos a partir de 1998, que são os meus preferidos. De modo sintético, diria que procurei, nos textos mais recentes, ampliar a faixa de comunicabilidade, sem renunciar à demanda do rigor construtivo.

AF – Se a crítica vem perdendo/perdeu espaço e credibilidade, a que atribuir isso?

ACS – Em boa parte, à ausência de leitores. Costumo dizer que há mais poetas do que leitores de poesia, na medida em que nem mesmo os poetas costumam ser assíduos leitores de seus pares… ou ímpares. Por outro lado, parece-me fundamental, sob pena de afastar ainda mais o leitor do livro, que o crítico leve em conta a especificidade do veículo onde escreve. Uma resenha em jornal será inócua se exibir-se com linguagem característica de uma aula de pós-doutorado.

AF – Pode-se levar a sério o debate da crítica, quando um crítico elogia um autor citando certos aspectos que outro, não menos aparelhado, enumera como defeitos irremediáveis? 

ACS – Nada mais instável do que a bolsa de valores literários. A função da melhor crítica talvez seja a de compreender, mais do que a de julgar. Entender a proposta do outro (mesmo que em divergência com nossos valores), a partir dos pressupostos de formulação dessa proposta, em vez de liminarmente desqualificá-la . O desconhecimento disso leva a fundamentalismos do tipo “a grande poesia morreu com o século XIX” ou “só a vanguarda interessa”.

AF – Entre o resenhismo superficial e o peso da crítica acadêmica pode haver um ponto de equilíbrio?

ACS – O resenhismo só é superficial quando se restringe a ser peça publicitária, ação entre amigos ou acerto entre desafetos. O equilíbrio reside numa soma de fatores, que passa pela consistência da formação teórica, pelo conhecimento do legado clássico, pela abertura a novos discursos, sempre considerando que nenhuma versão do literário, presente ou pretérita, proscreve as demais .O crítico ocupa o mais valioso espaço de intermediação entre livro e leitor; o desejável é que não aumente o fosso entre ambos.

AF – Sua carreira de crítico está ligada ao estudo da poesia de João Cabral de Melo Neto. Este é um projeto encerrado ou os estudos prosseguem?

ACS – É capítulo encerrado. Após 28 anos de contínua contribuição pedi aposentadoria proporcional ao tempo de serviço cabralino. Determinado poeta expressou ciúme, dizendo que eu só estudava Cabral, mas fiz-lhe ver que já havia publicado matéria sobre mais de 50 outros poetas brasileiros, ele inclusive… Quanto a possíveis contribuições acerca da compreensão do universo cabralino, convido o leitor a tirar suas próprias conclusões, se tiver coragem de enfrentar as 300 páginas de João Cabral:a poesia do menos.

AF – Numa comparação histórica, a literatura brasileira está melhor hoje do que no passado?

ACS – A literatura me parece mais plural, o que em si não é mérito nem demérito, mas conseqüência de suas novas e maiores possibilidades de circulação, inclusive eletrônica. A canonização é circuito que se dissemina por várias frentes: a crítica de jornal, a sala de aula, a presença em antologias, a inclusão como objeto de dissertações e teses, a inserção da obra e do autor em histórias literárias e – por que não dizer? – os canais de relação pessoal e de acesso ao poder de determinados autores que pressurosamente se autocanonizam, na ilusão de já estarem degustando previamente um naco da glória póstuma; esses, em geral, são os primeiros a serem esquecidos…

AF – Num mundo pragmático e globalizado, qual a saída da literatura; adequar-se ao mercado ou resistir?

ACS – Não sou apocalíptico, creio que sempre haverá literatura para todo tipo de demanda. A literatura do sim, do conforto, continuará interessando ao público. No outro lado estarão os autores que interessam à humanidade.

AF – No mundo de hoje, a poesia é veleidade, necessidade ou resistência?

ACS – Em “Despedida de Orfeu”, Murilo Mendes define o poeta como “criptovivente”. Penso que o poeta é um decifrador às avessas: em vez de traduzir os signos desconhecidos numa linguagem compreensível, ele cifra os signos comuns numa linguagem própria, poética, desestabilizando os marcos de segurança que assentavam palavras e as coisas em lugares preestabelecidos. Nesse sentido – o da prática de deslocamentos – o discurso do poeta é sempre social, ainda quando fale de nenúfares e nuvens.

AF – Recentemente, você trouxe à tona dois autores esquecidos: Mário Pederneiras e Fagundes Varela. Qual a valia de se reler hoje esses poetas considerados secundários?

ACS – Quando visito os sebos, me deparo com dezenas de poetas (que em geral são colocados em prateleiras de difícil acesso) à espera da mão que os retire do limbo e da leitura que os devolva à vida. Os poetas contemporâneos dispõem de todos os meios para se fazerem ouvir. Gosto de passear no silêncio clamoroso dos esquecidos no passado, para tentar distinguir, entre eles, os que de fato estão mortos — e deixo-os em paz — e os que estão apenas adormecidos.

AF – Seu livro mais recente é uma seleção de 50 poemas escolhidos pelo autor. Qual o critério dessa seleção e o que ela representa na sua bibliografia?

ACS -Na antologia, revela-se o poeta como crítico de si próprio, exposto aos riscos de qualquer ato de leitura, inclusive o dos erros e acertos na avaliação dos textos. Segui um duplo critério: escolher poemas que me parecessem menos imperfeitos e fornecer uma amostragem das várias facetas, às vezes antagônicas, que tento cultivar.

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