Ariovaldo Matos – Trajetória de Um Escritor

por Guido Guerra,
Salvador, março de 2006.

Reveste-se de relevância fixar a presença de Ariovaldo Matos (1926-1988) no panorama da literatura baiana em particular e brasileira em geral, ainda que prescindindo de situar o jornalista no seu tempo e espaço. A travessia do escritor, por vezes acidentada, oscilou entre o jornalismo e a militância partidária como conseqüência do exercício da cidadania, o que o induziu a abrir espaços entre um título e outro, a interferir no ritmo de suas produções e de sua presença na mídia. A presença do componente político refletia-se em seu livro de estréia,Corta-Braço, a ponto de insinuar-se ter sido tarefa de partido, o que o autor negava firmemente. Em qualquer de seus textos, do mais inexperiente ao mais maduro, o componente político associa-se ao legado ficcional, como se um não existisse sem o outro: “apartidarismo na boca de uns é pura tolice e, na de outros, pura descaração”, ele diria na introduçao de Corta-Braço.

O dramaturgo não teria os mesmos refletores que iluminavam o elenco. Havia de bastar-se com um discreto ponto de luz. Importa reconhecer-se que sua obra literária não se restringiu a seus próprios limites, projetando-se em outras linguagens como o teatro, o cinema e a televisão: o conto A construção do sonho seria o gancho para o romance Anjos caiados, enquanto A construção da morte seria o ponto de partida para o longa-metragem O arquiteto da morte, de Orlando Senna, e, no âmbito da televisão, a peça O desembestado, adaptado de um conto do autor, resultou num especial para a TV Cultura, de São Paulo, sob a direção de Antunes Filho.

Ariovaldo Matos iniciou a construção de sua obra literária por onde outros encerraram sua caminhada – pelo romance e, no caso, de forte densidade social. Corta-Braço, 1955, inscreve-se, o que importa muito, entre as obras indispensáveis à compreensão do fenômeno das ocupações urbanas, especialmente a que deu título ao livro, cronologicamente situada nos anos 40, onde surgiu a Vila Nova Pero Vaz. Obra pioneira na abordagem das invasões urbanas, Corta-Braçorealiza um corte na estrutura social e, nela, insere um dado novo: a ação do Partido Comunista nas causas populares. Mas isso pesa menos que a moldura social que compõe, no levantamento de personagens e ambientes, na medida em que seu autor não perde a dimensão do homem e seus valores.

Seu segundo título, A dura lei dos homens1, datado de 1958, não o tornaria demissionário da política na ficção, mas também lhe adicionaria o molho bem condimentado da ternura: o conto Rosa tem febre demais, como acentua Ildásio Tavares, levaria o autor a “descarregar seu potencial de lirismo dentro de uma atmosfera onírica”, embora a narrativa que dá título ao volume volte ao cerne da essência humana: a violência que se comete contra o homem em nome do homem. A publicação de seu terceiro livro, Últimos sinos da infância, coincidentemente de contos, se daria imediatamente após cumprir sua primeira prisão por motivo político, se bem que a narrativa considerada pronta e definitiva fosse Cartas de Böchum, não por um possível conteúdo político imediatista, mas pela densidade humana: a poesia e a sensualidade da negra Damiana, de dentes alvíssimos, rivalizavam com o velho espanhol que dera à sua vida um único sentido: colecionar a efígie de Adolfo Hitler e comer pombos sempre aos domingos.

O conteúdo político, de que não se ressentiu a prosa de Ariovaldo Matos, afirma-se em dois momentos cronologicamente distantes, mas convergentes na substância: A dura lei dos homens, 1958, e O gesto e o espanto, 1965, embora interligados pelo elo comum da violência que se desencadeia contra os que não se subordinam à regra geral do silêncio compulsório, no caso o jornalista que se nega à retratação pública e o ferroviário Anatólio, que, na solidão do cárcere, fixa obsessivamente as falanges esmagadas, povoado de memórias das salas de tortura.

Parece-me dispensável, no conjunto de sua obra e em nível de referência, o volume Anjos no ringue, datado de 1975: nada acrescenta à sua biografia, salvo como veículo de um protesto pela interdição integral de sua peça O ringue, que se junta a outro vetos que colecionava: recorde-se que, em 1968, por ocasião da encenação do drama O Gonzaga2, no Teatro Castro Alves, sob a direção de Orlando Senna, fora proibido pelos órgãos de repressão de assinar a adaptação que fizera: dois amigos emprestaram-lhe o nome para que não perdesse também a remuneração.

Colagem desvairada em manhã de carnaval3, 1981, na ordem cronológica, seria seu último título publicado: o conto Ostras representa o resgate da memória do repórter na comunidade de Alagados, na formação de uma ocupação urbana sobre o mar, em palafitas, na construção de uma dramática realidade social, em que se unem o militante comunista e o repórter ágil para inventariar, com distanciamento crítico, o real reinventado que resiste no imaginário fantasioso da propaganda ideológica e aí não se pode suspeitar que a obra ficcional antes passou pela tarefa partidária, como se especulou que teria acontecido a outros autores não menos respeitáveis.

Apenas parcialmente sua dramaturgia está no volume Teatro, circunscrevendo-se a seus dois textos inicais, A escolha ou O desembestado e A engrenagem, o que coloca suas peças subseqüentes – Bibi telefona, E todos foram heróis, cada um a seu modo4Irani ou As interrogações5 e O ringue – entre raridades feitas de palavras e gestos, talvez esquecidas em algum banco de originais. Uma obra póstuma, que me coube organizar para o cinqüentenário de Artes Gráficas, reuniu sua produção como contista, incluindo inéditos sob o título geral de A ostra azul, da qual se excluíram apenas os que serviram de esqueleto para os romances inéditos Anjos caiados, O quinteto de Ondina e Operação calipso.

O romance Os dias do medo6, 1979, premiado em concurso de âmbito nacional em 1968, permaneceria onze anos condenado à gaveta, apesar de ter sido seu único título de circulação nacional. Com uma abordagem de caráter nitidamente político, sem desqualificar sua natureza de obra literária, se utiliza da temática política para servir à literatura como resultado final. Talvez não seja crível supor que estivesse a serviço de uma causa, de uma tendência, de uma bandeira, como se supôs que o Corta-Braço estivesse, por mais que seu autor o negasse. As memórias de Tônio Petrucci conduzem a um inventário de perdas, sob um regime de exceção: não importa medir quem venceu pela estupidez – se a era Vargas ou se a era Médici. Entre Olga Benario e Herzog, Marighella e Mário Alves, cada um enterrou seus mortos nas curvas do coração.

Anjos caiados, cuja redação definitiva data de 1979, remete o leitor a uma Bahia que não existe mais – a do Anjo Azul e do Cassino Tabaris – e, não por acaso, apoia-se numa novela anterior do autor, A construção do sonho, em que a personagem Nilo Pereira Bastos surgia à sombra de Enir, “Gato Preto”, ou como se um nascesse do outro, e, através de Liúba, frisa o conflito das culpas sexuais que marcavam a cultura judaico-cristã. Dentro desse painel de religiosidade, Padre Eugênio configura a transgres-são comportamental – o que, surdo aos comentários da vizinhança, cede às tentações da carne e divide o leito com a viúva que desaprende a ser só, como ensina a canção popular. O que importa neste romance, tirante o desenvolvimento temático em nível de abordagem, é a exploração de múltiplas linguagens, não de múltiplos narradores, o que conduziria à montagem de texto, à semelhança do Jogo da amarelinha, de Cortázar. O balé falado, por exemplo, apoia-se no diálogo teatral, mas igualmente aproveita outras linguagens de comunicação social, como cartas, poemas, contos que se inserem no projeto de romance ou simplesmente na estruturação de personagens, a exemplo do doutor Nazareth, Candinho, Liúba, Julinho, Lília, e sobretudo os anjos que, uma vez caiados, se perderam na memória – os anjos de Carlos Bastos, que eram azuis, e a bebida xixi de anjo, de que não se guardou receita. A morte de José Pedreira levou-a para as terras do sem-fim.

Homem e escritor, no caso, se completam. Porque inseparáveis, interligados pelo traço comum de identidade: a permanente defesa do homem e seus valores essenciais, o atávico e visceral compromisso com o ser, jamais com o ter. Personagem único a oscilar entre o real e o imaginário, à espera do tempo das auroras puras, das rosas bem vermelhas e da fartura em toda mesa, este era o homem e este também era o escritor, um se completava no outro – no culto à solidariedade.

1 Prêmio Prefeitura Municipal de Salvador
2 De Castro Alves
3 Prêmio D. Martins de Oliveira. Fundação Cultural do Estado da Bahia
4 Prêmio Xisto Bahia. Fundação Teatro Castro Alves
5 Prêmio Xisto Bahia. Fundação Cultural do Estado da Bahia
6 Prêmio Xavier Marques. Governo do Estado da Bahia

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