Uma Literatura de Compromisso com a Vida

ALEILTON FONSECA

1997 – A Tarde Cultural

O escritor e jornalista Carlos Ribeiro é um contista que já tem espaço garantido na literatura baiana, como um dos nomes mais significativos da nova geração de escritores que começa a aparecer de maneira mais clara a partir dos anos oitenta. Através de seus artigos, crônicas e contos publicados em livros, revistas e jornais, observa-se que as suas atividades literárias e jornalísticas se interpenetram, de maneira que se sente a presença do escritor no texto do jornalista e vice-versa. E isto parece se originar do interesse do autor pela questão problemática e atual que é o tema da natureza face às transformações impostas pelas engrenagens do mundo moderno. Por esta causa, e sempre em favor da natureza e contra os processos que a destróem, tanto o escritor como o jornalista produzem textos vigorosos.

Mas Carlos Ribeiro não é simplesmente um jornalista que se tornou escritor. Ao contrário, parece que a tendência para a literatura foi que o levou à área da comunicação. E sua sensibilidade diante das rápidas transformações das paisagens naturais de sua infância e adolescência, na paradisíaca Itapuã dos anos 60 e 70, é o ponto de intercessão e equilíbrio, em que o contista e o jornalista comungam seus ideais e sua percepção artística. Os seus artigos sempre assumem uma dicção literária, exibem a gratuidade generosa de uma escrita que não quer ser apenas suporte, mas também se oferece ao leitor para fruição estética. Nesses textos, o autor não se deixa limitar pela objetividade informativa, nem se dobra à simples pauta de assuntos. Essa qualidade é essencial à sua escrita e de certa forma define o seu estilo, permitindo que se visualize a marca pessoal de sua literatura amalgamada com a sua prosa jornalística.

Geralmente Carlos consegue o equilíbrio entre a dicção de uma e de outra modalidade textual. Quando o texto é ficcional, isso é de grande proveito para a literariedade, porque a relação entre os dados da realidade e o discurso da ficção se estabelece de forma bem dosada. Para o leitor, o resultado é estimulante, pois garante o prazer do texto e ao mesmo tempo provoca a reflexão crítica. Na leitura de seus contos, percebe-se tacitamente que a realidade impregna-se de literatura e esta, por sua vez, se sacia nas fontes daquela. O real, como ponto de partida e matéria-prima, não se constitui em entrave para a literariedade nem submete o texto a “realismos” descartados. Por outro lado, a ficcionalidade não rapta ninguém para fora do mundo, ao contrário, torna a realidade mais palpável e mais contundente, pondo em alerta as consciênciass adormecidas pelos barulhos do cotidiano moderno.

Algumas vezes observa-se que, ao tomar a matéria jornalística de empréstimo, o contista acaba cedendo lugar para a inserção, no texto literário, de passagens mais informativas. Essas passagens, no entanto, conquanto possam ameaçar a dicção literária do texto, não se tornam simples digressões, porque são funcionais e potencializam a compreensão do leitor. E Carlos é um autor que quer ser compreendido, porque tem algo substancial a comunicar. Desde o primeiro livro, Já vai longe o tempo das baleias , a sua literatura se nutre deliberadamente da vivência e da experiência do homem, do escritor e do jornalista, e nisso ele constrói uma base, um saber e um critério de verossimilhança. Não foi à toa que o contista Vasconcelos Maia saudou enfaticamente a sua estréia (“um livro que me deixou entusiasmado”), em depoimento prestado a Valdomiro Santana.
Os contos de Carlos conquistam o interesse do leitor pela forma como tratam os seus assuntos e conduzem os diálogos das personagens. Como salientou Ruy Espinheira Filho, “a sua marca principal é a busca da compreensão do ser humano e suas relações com tudo – coisas, vegetais, animais, os outros homens – que compõem o universo em que nasce, vive e morre imerso numa profunda perplexidade” . Há sempre um horizonte em seus enredos: a busca do mundo da essência e do tempo recalcado pelo relógio da atualidade e das aparências, mas que se pode recuperar pela voz e pelo desejo da escrita. Esse aspecto é fundamental na sua prática literária e, à medida que o autor vai atingindo sua maturidade, pode se definir como principal força motriz de uma obra, que está no começo e em plena produção, podendo tornar-se, no futuro, um dos critérios de reconhecimento e de análise.
O escritor Carlos Ribeiro voa além do jornalista e o ultrapassa a olhos vistos, sobretudo ao desenvolver um aspecto mais puramente literário em vários dos seus contos e crônicas. Essa vertente de sua produção literária já se manifesta desde o início de sua carreira, ganhando maior impulso nos seus textos mais recentes. O seu último livro, O homem e o labirinto , é uma amostra substancial e eloqüente. Trata-se de uma escrita de compromisso, em que o autor oferece ao universo literário a sua contribuição, no sentido de “vislumbrar uma dimensão mais ampla do nosso ser e estar no mundo” . Agora, além da perplexidade, o escritor aguçou a percepção das imagens urbanas e manifesta o seu espanto diante do traçado angular do labirinto da cidade fourmillante. Para Carlos, como afirma Elieser César, o labirinto “é, acima de tudo, uma metáfora do isolamento, da solidão, da falta de comunicação entre as pessoas, enfim da vulnerável condição humana.” No entanto, em nenhum momento Carlos Ribeiro se deixa dominar pelo tédio ou pelo pessimismo dos desistentes. Ao contrário, seu texto confessa a solidão visceral que, paradoxalmente, encerra o sujeito, mas liberta a consciência para buscar os caminhos que nos possam devolver a essência perdida.

O lirismo contido que pontua vários contos de Carlos parece exigir sua forma própria de linguagem. É nesse espaço que se dá o transbordamento da sensibilidade: as imagens reclamam a economia de palavras, as cores se negam à descrição, o ritmo e a prosa se condensam. O contista dobra-se sobre essa nova forma de sua escrita, como crisálida, donde se revela o poeta que constata: “Há sombras no quarto./ Chove silêncio. / O peixe no aquário cospe flores, / o homem sonha o labirinto.” Geralmente, os poetas acabam escrevendo prosa, ainda que de forma secundária. Os contistas evoluem quase sempre para o romance. Nem sempre os prosadores se tornam grandes poetas. Carlos Ribeiro fez o percurso raro e chega ao mundo das metáforas com pleno domínio da forma.

Sua prosa e a sua poesia traçam um mapa em direção a um norte que é ao mesmo tempo, pessoal, transcendente e universal.Trata-se de uma simbólica “demanda do santo graal” em plena era do caos absoluto. Recuando até à mitologia que está no cerne do leitmotiv do seu último livro, observa-se na sua escrita uma busca das iluminações do fio de Ariadne que apontam a saída do grande labirinto. Nesses momentos, as suas indagações existenciais não se tecem somente em cima de fatos e aspectos objetivos da realidade, mas também se aprofundam filosoficamente de modo questionador em direção às imagens de uma existência possível, apesar das amarras do mundo atual. Sua trajetória é, portanto, a de todos aqueles que lutam para preservar sua subjetividade no mundo dos automatismos compulsórios. Aqueles que são vozes e ouvidos no meio da multidão e, mesmo perdidos no mundo de pernas, máquinas e cifras, jamais se extraviaram de si mesmos.


NOTAS
RIBEIRO, Carlos. Já vai longe o tempo das baleias. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1981. (Coleção dos Novos, v. 3, sér. Ficção).
Cf. SANTANA, Valdomiro. Literatura Baiana – 1920-1980. Rio de Janeiro: Philobiblion; Brasília: INL,1986, p. 42.
Espinheira Filho, Ruy. “Perplexidade e angústia” (Prefácio). In: Op. cit., p. 9.
RIBEIRO, Carlos. O homem e o labirinto. Salvador: BDA-Bahia, 1996.
__. “Ao leitor” In: Op. cit. p. 10.
CÉSAR, Elieser. “Fugas do labirinto”. A Tarde Cultural. A Tarde, Salvador, 27 abr.1996, p. 9.
Cf. Op. cit., p. 13.

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