Um Livro Inteligente

O miniconto se impõe cada vez mais em nossa literatura. Cada vez mais aparecem os que o praticam. Aquilo que Cortázar anotou acerca do conto breve “e seus arredores” nada mais é do que o poder de sugestão, de compactação – a capacidade de dizer muito com pouco. Às vezes com pouquíssimo. Como neste caso:

 “Destacava-se quando criança por torturar pássaros e lagartixas. Aos dez anos cegou um gato. Hoje é da Sociedade Protetora dos Animais e nem se lembra.” 

Há aí, em três frases, uma narrativa por inteiro, uma longa história comprimida. Duas frases situam o personagem no tempo e no espaço, preparando o espírito do leitor. A última cai como uma pedra em sua cabeça. E deixa-o desorientado – a denúncia que é desferida é forte. Descortina-se um caráter, um comportamento, uma cultura. Pois não é mesmo assim, não vivemos numa sociedade em que pululam os oportunistas, os que querem fazer esquecer o que fizeram, o que disseram ou até mesmo o que escreveram? Tudo em três frases…

Vejamos este outro caso:

 “Era o melhor da rua. Lutava, saltava e corria como ninguém. Jamais o perdoaram.”

De novo, toda uma vida sintetizada. De novo, três frases que fazem o leitor desdobrar diante de si ambientes, situações e personagens vários. E reforçar a ideia, implacável obviamente, de certa filosofia popular que prega: “Há os que não perdoam o sucesso”.

E vão por aí os minicontos de “Fazedores de Tempestade” (Rio de Janeiro: Multifoco, 2012), do escritor baiano Carlos Ribeiro. Realidade crua e atmosfera poética revestem os relatos do livro. Carlos, em certos momentos, faz prosa poética de alta voltagem. O seguinte trecho é poesia pura:

“A música é uma tênue lembrança fina e descosida. Ela e o teu rosto fundem-se numa só imagem que me revela. Que posso fazer para dizer de mim? Que posso dizer para saber de ti?”

“Os quadros”, em seu primeiro movimento, sobre a vida que solicita o menino, que o puxa para o mundo, é um belíssimo texto. O conto que dá título ao livro move símbolos, remete ao caos interior, a dimensões subconscientes – é um dilúvio poético, proteico:

 “O coqueiro se dobra, o capim reflui, a menina de tranças corre nas ruas em busca de seu cãozinho que nunca mais verá […].

Lançam raios como deuses e disparam como reses que enchem de cascos o barulho do céu […]

A menina de tranças sumiu, um velho homem se fundiu com velhas árvores, em desespero.”

Imagens surreais estupendas!

Chama a atenção ainda no livro a versatilidade do contista. Na primeira parte, os contos são narrados do ponto de vista de animais (inclusive do homem). Aqui, as narrativas flertam com as histórias infantis, como no caso dos relatos da “formiguinha amorélia” e da “abelhinha” que vive a fazer “zzz-zzz-zzz-zzz”. Nesssa primeira parte ainda, Carlos consegue, num malabarismo narrativo instigante, inventivo, escrever uma história (“Solidão – exercício do tédio”) em vários lances – ou seja, vai fazendo variações no tamanho dos textos, de modo a reduzir o enredo do maior para o menor, como querendo mostrar que no menor se diz tanto ou mais que no maior. E eis o princípio do miniconto exercitado metalinguisticamente. Uma maravilha!

Por essas e por outras (para falar como os antigos narradores) é que “Fazedores de Tempestade” é um livro inteligente, que se impõe pela qualidade.

É obra da sensibilidade e da habilidade de um verdadeiro artista da narrativa.

Rinaldo de Fernandes

 

 

 

 

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