Quarto de Surpresas

Suzana Varjão

Uma parte raramente explica seu todo. Mas O quarto da infância de CarlosRibeiro está entre aqueles fragmentos literários que permitem divisar o conjunto a que pertencem – ou, como ocorre em montagens de quebra-cabeças, possibilitam a combinação de elementos para (re)compor significados que vão além daqueles que o escritor deliberadamente se propõe a construir, ao traçar seus enredos.

E este é um quarto que guarda muitas histórias. Parte do rol de inventários (“inventário de perdas”, de sensações, de lembranças, de sonhos…) que Carlos Ribeiro vem levantando ao longo de sua trajetória de jornalista e ficcionista, nele podemos encontrar algumas das permanências que identificam obra e homem – sim, porque não há ficção que não esteja contaminada por sistemas de valores de seus autores.

Entre as impressões digitais que se pode coletar n´O quarto da infância de Carlos Ribeiro estão as décadas de 60/70; a casa à beira-mar; o filho marcado pela morte súbita do pai; a conexão sem alardes entre os  mundos material e espiritual – espaços e tempos entrelaçados e indefinidos, como as grades do portão de um grande hospital “que se estende daqui para o passado […]” e “[…] daqui para nunca mais”.

Estão lá as “memórias salgadas” do menino que recusou o progresso aflito do asfalto e fincou fé no “tempo de pardais, de verde nos quintais”, tempo em que seus pesadelos podiam ser dissolvidos não pelo toque em si num interruptor de luz, mas pelas mãos protetoras que o operavam, porque naquele tempo, o terror ante a face materna/paterna que adentrava um dormitório infantil à noite não passava de alucinação de criança.

Parte da coletânea de contos lançada – claro… – ao escurecer de uma sexta-feira, na Academia de Letras da Bahia, O quarto da infância de Carlos Ribeiro nos deixa entrever, a partir de um flash de memória deste incansável “caçador de ventos e melancolias”, a sua terna maneira de ser – porque de escrever e de expressar a perplexidade diante do processo galopante de decomposição dos valores humanos.

 

Suzana Varjão é mestre em Cultura & Sociedade pela Ufba e autora deMicropoderes, macroviolências (VARJÃO, Suzana. Micropoderes, macroviolências: mídia impressa, aparato policial. Salvador: Edufba, 2008).

RIBEIRO, Carlos. O quarto da infância. In: Contos de sexta-feira e duas ou três crônicas. Salvador: Selo Primeira Edição, 2010.

RIBEIRO, Carlos. Alem da porteira. In: Contos de sexta-feira e duas ou três crônicas. Salvador: Selo Primeira Edição, 2010, p. 59.

RIBEIRO, Carlos. O quarto da infância. In: Contos de sexta-feira e duas ou três crônicas. Salvador: Selo Primeira Edição, 2010, p. 35.

RIBEIRO, Carlos. A cidade revisitada. In: Contos de sexta-feira e duas ou três crônicas. Salvador: Selo Primeira Edição, 2010, p. 42.

Frase extraída de “No tempo dos quintais”, composição de Sivuca e Paulinho Tapajós, imortalizada na voz de Fagner.

RIBEIRO, Carlos. Caçador de ventos e melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga. Salvador: Edufba, 2001.

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