Personagens e Urbanidade Problemáticos

Rinaldo de Fernandes

Esquizofrenia? Paranóia? Pesadelo? O protagonista da narrativa vive numa espécie de fronteira psicológica, projetando a fantasia na realidade de tal forma que, não raro, o leitor pensa ter incorporado o seu desvario.

Capítulos breves, dinâmicos. Prosa coloquial, que tem um parentesco com a dos jornalistas-escritores do entreguerras: John Steinbeck, Sinclair Lewis, Hemingway, John dos Passos, entre outros. Carlos Ribeiro, que, além de professor universitário, prossegue atuando no jornalismo, é um escritor preparado, maneja muito bem o material ficcional. Recorre a recursos como a alusão e a citação para montar o quadro de referências culturais de seu personagem, um intelectual em crise, que, embora busque nas leituras elementos para compreender a sua condição, não escapa ao tipo que procura afirmação reportando-se a grandes autores e obras (e aqui reside uma sutil crítica do escritor à rarefação desse intelectual). São autores aludidos ou citados, nos diálogos do protagonista com seus interlocutores: Herman Hesse, Byron, Baudelaire, Edgar Allan Poe, Rimbaud, Fitzgerald, Hemingway, Pasolini, Kerouac, Bukowski, Melville, Milton Santos, etc.

Ribeiro aposta na vertente existencialista – e sua narrativa, mesmo com as constantes introspecções do personagem, é comunicativa.

Um mistério envolve a existência do professor Alberto – um lugar. Anota o narrador: “Esse lugar – que chamava de Lunaris, numa referência ao romance Solaris, de Stanislaw Lem – era uma forma especial de pensar. E de sentir”. De pensar e de sentir, inicialmente, com prazer. Mas depois com perturbação, embaraço, estorvo. Lunaris, assim, é uma ilusão. Ou um recurso metaficcional, pois se trata, de fato, de uma ficção dentro da ficção. Poderá ainda ser visto como uma dimensão criativa do imaginário, um espaço mais dionisíaco num mundo excessivamente apolíneo. Em certos momentos, pensamos estar diante de uma narrativa fantástica; em outros, no interior do mais corriqueiro dos enredos psicológicos. Às vezes acreditamos estar lendo um relato policial; depois apostamos ser uma paródia aos livros de mistério e suspense, com seus clichês costumeiros. É nessa indefinição de gênero onde reside um dos aspectos mais ricos do texto de Carlos Ribeiro.

Tudo se passa numa Salvador contemporânea. Uma cidade caótica, barulhenta, ameaçada pela especulação imobiliária: “Um sem-número de residências e condomínios foram implantados, de forma desordenada, sobre extensas áreas de dunas”. O protagonista já flanou por vários pontos da cidade, fazendo questão de indicar “os casarões centenários do Centro Histórico, as casas comerciais da Baixa dos Sapateiros, com seus vendedores e suas calçadas apinhadas de pedestres, as avenidas ensolaradas da Orla Marítima, com suas casas iluminadas pelo sol da tarde, o labirinto de vielas e becos dos bairros periféricos…”. Embora, aqui e ali, numa ou outra descrição, desponte a poesia da cidade, a Salvador de Carlos Ribeiro é agônica, atormentada – e não aquela das imagens televisivas do carnaval. Paisagem retorcida como é retorcida a alma de Alberto. Sem dúvida, uma forma inteligente de o autor tratar dessa grande cidade, que, como outras da América Latina, e para lembrar as boas palavras de Antonio Candido, sofreu uma “urbanização perversa” desde pelo menos meados do séc. XX. A urbanidade problemática, assim, atinge o protagonista de Carlos Ribeiro.

Carlos Ribeiro tem surpreendido pela qualidade de seus contos, que já integraram várias coletâneas nacionais. Também já publicou dois romances. Agora, com este novo livro, abre muitas possibilidades em seu roteiro ficcional. Lunaris é dotado dos mais variados recursos da ficção recente – e o seu problemático personagem é muito atual. Um personagem que, acredito, irá agradar bastante – e também inquietar – o leitor.

(Texto de apresentação do livro Lunaris)

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