Perplexidade e Angústia

RUY ESPINHEIRA FILHO*

Já vai longe o tempo das baleias é o livro de estréia de Carlos Ribeiro – e um livro de surpreendente maturidade para quem apenas começa a trilhar a casa dos vinte anos. O que encontramos nesta obra nada tem a ver com queixumes ou explosões pueris, tão comuns aos estreantes, pois a sua marca principal é a busca da compreensão do ser humano e suas relações com tudo – coisas, vegetais, animais, os outros homens – que compõem o universo em que nasce, vive e morre imerso numa profunda perplexidade.

Perplexidade que, é óbvio, está presente no próprio autor, ferindo-lhe a sensibilidade, angustiando-o, obrigando-o a tentar, através da literatura – que, como a arte em geral, é também, ou sobretudo, uma forma de conhecimento –, uma aproximação maior do complexo animal que reina sobre este planeta, submetendo todas as espécies ao seu domínio, cumprindo desta forma a terrível determinação contida no GÊNESIS (terrível porque nós sempre nos mostramos mais capazes de construir infernos do que paraísos), um animal, repito, do qual depende hoje, mais do que em qualquer outro momento da História, a preservação de tudo que conhecemos como VIDA.

A maturidade a que me referi acima se evidencia mais fortemente, na maior parte dos contos aqui reunidos, através de um constante sentimento que chamarei de SAUDADE. Não a saudade corriqueira emanada de uma ausência particular – mas uma saudade, às vezes até mesmo antecipada, do que se vai perdendo no universo e do que o homem vai perdendo em si mesmo.

Percebe o autor que, aos poucos, algo vai se corrompendo dentro do homem – e que é urgente uma tomada de consciência antes que seja tarde demais. Porque dificilmente conseguiremos sobreviver, sem sermos transformados em meros autômatos, afastados na convivência com os bichos da terra e do ar, com o barro e a pedra, com os rios e o oceano, com o murmúrio de vida que vem de toda a parte – inclusive das brumas mitológicas – e sem uma generosa relação de amor, livre do ritmo desumanizante que a cada dia o homem impõe mais a si próprio.

Os personagens de Carlos Ribeiro, portanto, vivem um drama universal. Não são seres de existência singular, debatendo-se em ocorrências excepcionais artificialmente criadas para provocar horror ou piedade nos leitores, mas gente de carne e osso, precária, frágil, forte, desesperançosa, desesperançada, amando ou odiando, feliz ou infeliz, generosa ou mesquinha – enfim, seres humanos (humanidade evidente inclusive na barata do conto TRAGÉDIA) de condição similar à de inúmeras vidas exteriores às páginas literárias. Se provocam – como às vezes provocam – horror e/ou piedade, não é por truque, por artifício – mas por VEROSSIMILHANÇA. Claro que esses personagens, produto de um texto de ficção, não existem na realidade – MAS COMO SÃO REAIS! Neles nos reconhecemos, neles vivemos – como eles vivem em todos nós.

O leitor tem nas mãos, sem dúvida alguma, uma forte e apaixonada vocação de escritor. Uma estréia à altura da dignidade da arte de escrever – e do que pode haver de melhor no animal humano.

maio de 1981

* Ruy Espinheira Filho é poeta, ficcionista, ensaísta e membro da Academia de Letras da Bahia.

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