Paisagem onírica

Em Fazedores de tempestade, Carlos Ribeiro reúne textos curtos marcados pelo lirismo e por elementos da literatura fantástica.

Daniela Castro
(A TARDE, 27/7/2012)

Como você definiria os textos reunidos em “Fazedores de Tempestade”? Minicontos ou poemas em prosa?

Podemos dizer que o volume engloba ambos os gêneros, ou subgêneros. Ou, como o poeta Luís Antonio Cajazeira faz nas “orelhas” do livro, podemos ampliar o repertório e dizer que se tratam de historietas, paisagens, digressões, assertivas, interrogações, exclamações, frases soltas, múltiplas que são, e que se renovam a cada visita.

Estes textos foram escritos na década de 1980, certo? Por que esperou tanto tempo para publicá-los?

O último capítulo do livro já havia sido publicado no livro O homem e labirinto, em 1995. Um volume magro, do qual gosto muito, mas que poucas pessoas leram. Neste livro vi a oportunidade de resgatá-lo do esquecimento. Os demais textos, como muitos outros que tenho e que permanecem inéditos, não haviam ainda encontrado oportunidade para vir à luz. São poucas as editoras que se interessam por textos curtos, ou minicontos, ou como os queiram chamar, pois eles não tem muito apelo comercial. Somente agora, favorecidas pela linguagem telegráfica da internet, algumas editoras, como a Multifoco, através do selo trêsporquatro, estão investindo nesse segmento. Temos alguns excelentes autores baianos que publicaram nela, a exemplo de Mayrant Gallo, Carlos Barbosa e Igor Rossoni. Aliás, devo dizer que devo essa publicação ao Igor. Foi ele quem indicou o meu nome ao editor da Multifoco.

Até que ponto este livro dialoga com os que você publicou anteriormente?

Há uma identificação maior com o meu livro de contos O visitante noturno, publicado em 2000, mas escrito no mesmo período deste. Ambos trazem, de forma muito marcante, elementos fantásticos e oníricos que estão também presentes, mas de forma mais diluída, nos demais livros. Em Fazedores de tempestade, as referências ao mundo real, objetivo, da cidade de Salvador e do bairro de Itapuã, estão camufladas, mas estão lá, sem dúvida. Poderia definir esse livro como uma paisagem onírica.

E até que ponto dialoga com o ofício do ensino de jornalismo?

Não sei. Poderia dizer que não há esse diálogo, pois quando escrevi esses textos nem sequer imaginava que viria a ser professor universitário. Mas, como a pessoa que os escreveu e a que ensina é a mesma, deve haver um link aí, em algum lugar. Talvez no estilo, no ritmo da fala e da escrita, na relação entre a literatura e o jornalismo. Afinal de contas, coordeno um projeto de pesquisa na área de jornalismo literário.

Por que o livro está sendo lançado por uma editora do Rio de Janeiro e não uma da Bahia?

Que eu saiba, não há nenhuma editora baiana que trabalhe especificamente com os chamados minicontos. Mas tenho outro volume de contos, estes mais extensos, intitulado Aventureiros do Apocalipse, que está sendo avaliado por uma editora nacional.

Costumamos ver lançamentos de livros acontecerem durante a semana, quase sempre à noite. Por que escolheu uma manhã de domingo para o seu?

O lançamento integra as atividades do Movimento Preserva Timbó, do qual faço parte, criado para impedir uma proposta absurda e ineficaz de abertura da rua do Timbó, onde moro, no Caminho das Árvores. Graças a esse movimento obtivemos um acordo com a Prefeitura e o Ministério Público de que a rua, que é sem saída, será mantida como está, pois a mudança proposta causaria sérios transtornos em toda a área e seria totalmente ineficaz na melhoria do tráfego de veículos, como demonstrou a arquiteta Crstina Aragon. Em função do Movimento, fizemos várias ações de confraternização dos moradores. Este Café da Manhã, com o lançamento do meu livro e a apresentação musical de Amadeu Alves e Fabrício Rios, será mais uma.

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