Os Abismos do Eu

Vivaldo Lima Trindade

www.verbo21.com.br
Agosto / 2004

Uma das características mais interessantes da literatura contemporânea está no tratamento das subjetividades, da fragmentação do “eu” e da diversidade de pontos de vista ou planos que se alteram e se sobrepõem para melhor representar seu objeto de análise. No caso da construção de personagens – o herói ou personagem principal –, o foco deixou de ser exclusivamente psicológico, como acontecia em grande parte das narrativas modernas. Os heróis contemporâneos perderam aqueles contornos irredutíveis de personalidade que, até bem pouco tempo, opunham caracteres nítidos e bem delineados, para dar lugar a aspectos mais complexos da personalidade humana, suas contradições, humores, influências culturais, incongruências, semelhanças e possibilidades de constante transformação.

É nesse rico contexto que se inscreve o mais novo romance do escritor Carlos Ribeiro, “Abismo” (Geração Editorial, São Paulo, 2004, 222p.). Narrado em primeira pessoa, ele acata perfeitamente o veredito de Henry Miller que a nova literatura, ou seja, posterior à que o próprio Miller fazia, seria uma literatura marcada pelo “eu”. Desconte-se aí, evidentemente, a vaidade do escritor americano ao filiar um modelo seu dentro de uma perspectiva futura de “evolução”. Depois dele, alguns dos escritores beats também compartilharam dessa mesma crença, levando suas experiências de descoberta e investigação às mais variadas conseqüências. Carlos Ribeiro, por sua vez, mesmo se filiando a uma outra espécie de tradição literária, não nos decepciona em sua leitura.

Utilizando-se de uma linguagem clara e objetiva, sem, contudo, adotar grandes ousadias formais ou transgredir na adoção de novas estruturas, “Abismo” narra a história de um jornalista em busca do Graal, o cálice que, segundo fontes oriundas da Idade Média, tinha o poder de conceber vida e curar enfermidades. Guardado em um castelo de difícil localização por um rei enfermo, monarca de um país desértico, era preciso que seu futuro guardião, após passar por várias aventuras e enganos, realizasse uma determinada pergunta. Caso não a fizesse, o castelo sumiria, o reino continuaria como antes e o herói teria de reencontrar o castelo para enfim realizar a pergunta necessária e resolver todos os problemas, passando a ser seu protetor. A partir da era cristã, houve um cruzamento dessa história original com a lenda de que o cálice tornou-se sagrado por ter servido a José de Arimatéia para recolher o sangue do Cristo ao tirá-lo da cruz. Mais adiante, fundiu-se também à estória do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Essas matizes históricas, por seu próprio caráter, emprestam cores de romance de aventura à narrativa de Carlos Ribeiro. E podem enganar ao leitor desatento. Enganam porque apenas dão fundo a questões muito mais complexas e interessantes.

Logo no início do romance a personagem principal, que não é nomeado nunca, demonstra-se saturado da vida urbana. Ele se recolhe à casa dos tios, em Itaimbezinho, no sul do país, e lá passa a viver uma vida de contemplação e deslumbramento com a natureza. A cidade configura-se, em seu discurso, como ambiente opressor do homem pelo homem, território de descrença e injustiça, a negação de seus ideais de jornalista: “No meu estado, muitas pessoas também já haviam sido expulsas de suas terras, sem que meus artigos e reportagens tivessem mais efeito que um chuvisco de verão. Talvez eu estivesse exagerando, mas a verdade é que os lagos continuavam sendo soterrados, as praias poluídas e o mar inundado de detritos e imundície” (p. 18). O herói de Carlos Ribeiro está desiludido, perdeu a fé e a disposição para lutar. Já a natureza é idealizada. São abundantes as descrições de fascínio geográfico, as citações de espécimes de animais e botânicas, permitindo até que se faça uma ponte entre “Abismo” e a literatura do segundo romantismo, pautada no amor à natureza, um certo individualismo e um espiritualismo de ordem panteísta. Mas se é possível identificar-se uma mesma diretriz em textos tão distantes historicamente, percebe-se facilmente que nos romances contemporâneos não há mais lugar para a ingenuidade de personagens estreitamente representadas. Bem como alhear-se de um mundo em que redes de computadores rompem fronteiras reais e imaginárias e satélites transmitem imagens de e para todo o globo não é mais possível. Não é à toa que o rumor de máquinas inadvertidamente invade o espaço idílico de “Abismo”. Ninguém mais é inocente nem está inteiramente sozinho.

Após receber um estranho convite para visitar um admirador de seus escritos no jornal, um tal Professor Ricardo, o desencantado jornalista receberá dele e de sua filha a incumbência de proceder a busca do Graal. É muito curiosa a passagem desse trecho no romance, no terceiro capítulo, pois Carlos Ribeiro parodia os clichês dos romances de aventuras, filmes B e quadrinhos. Desde a apresentação do cenário até a descrição da filha, uma gostosona de marca maior, e do cientista-colecionador, que só falta nos exibir uma risada histriônica, somos conduzidos num universo de referências que pode ir de Jurassic Park, James Bond, A Ilha do Dr. Moreau, Flash Gordon ou mesmo aos enunciados na orelha: Conan Doyle, Conrad e Francis Ford Copolla. A intertextualidade aqui vem dosada de um sutil humor, presente também em outras passagens do livro e expressa por via de ironia e alguma auto-crítica. Esse é um aspecto que me agrada muito, pois há muitos escritores que se gabam de apropriações tão eruditas e obscuras que lá de cima de seus tronos de marfim ninguém tem notícia do sentido exato desse hermetismo.

Superando a idéia do absurdo da missão proposta, e influenciado pelo aparecimento de seres elementais e um súcubo, o jornalista dá início à sua descida ao abismo, nos cânions de Itaimbezinho. Paralelamente, fará também o trajeto da busca interior do seu verdadeiro “eu”.

Dentro desse movimento de aprofundamento, a personalidade é submetida a diversos confrontos, não está mais amparada por uma rotina que a defina na superfície somente. Cumpre chegar ao essencial. Para isso terá de pesar passado e futuro, indagar-se repetidamente, formular respostas e reformulá-las logo em seguida, demonstrando a transitoriedade dos argumentos feitos e a conveniência das opiniões diante de novas realidades, igualmente transitórias e voláteis. As certezas são memórias de infância: “Em uma época quase esquecida da minha vida, eu via o mundo assim: luminoso, rigorosamente definido em seus contornos e movimentos: objetos de sentimentos” (p. 31). E o que restou foi a nostalgia da perda: “Existe em mim, pensei, um território mágico que é preciso resgatar. Um novo mundo, mais antigo que as eras remotas, como um oceano interior que se espraia pela eternidade. É nele que encontrarei a substância do mundo encantado, o Castelo do Graal, no qual vivemos um dia e do qual sentimos uma nostalgia profunda. É essa realidade da qual um dia me distanciei, negando como ilusão a parte mais importante de mim” (p. 178).

Note-se o sentido metafórico empregado ao Castelo do Graal. Carlos Ribeiro possibilita ainda outras interpretações ao seu texto. O romance transita livremente na passagem de dois mundos concomitantes: O natural, amparado pela história, e o mítico, amparado pela fábula. “O natural e o mítico fundiam-se pouco a pouco, a cada passo que dávamos, na descida ao abismo. Sentia-me como se penetrasse mais e mais no interior de um ‘círculo mágico’ onde tudo é imprevisível e inesperado; como se passasse gradualmente da história para a fábula” (p. 139).

Dessa bifurcação do caminho do conhecimento, o natural e o mítico, desprende-se a idéia que a busca do Graal, o ato heróico e via de regra solitário, resulta, no fundo, na representação do lançar-se ao vazio (o abismo) da aventura intelectual. Várias passagens do livro reforçam essa interpretação. Citarei apenas duas:

“Aquela jornada nada mais era do que a afirmação solitária – e universal – da razão sobre a superstição. Não seria a própria essência e sentido da busca do Graal?” (p. 168); e

“A terra santa está sempre em algum lugar, dentro e fora de nós, mesmo que vivamos numa grande metrópole, cercados de cartazes luminosos que procuram nos convencer de que a segurança e o conforto do mundo são a nossa única salvação. Por mais que adiemos nossa iniciativa, seja por comodismo ou por ignorância – o que vem a dar no mesmo – a missão continuará esperando e cobrando a solução do enigma que nos coube resolver” (p. 63).

Assim como também os conceitos de loucura ou normalidade estão relacionados no romance à originalidade e à convenção, sendo o artista ou o intelectual alguém próximo do louco: “Enquanto todos olhavam com desprezo ou piedade, ele se sentia planando a mil metros de altura, sobre todas aquelas cabeças medíocres e inúteis. Em vez de insípidos funcionários públicos, profissionais liberais ou executivos, ele contava agora com a companhia de mentes audaciosas que ousaram chegar àquelas alturas vertiginosas – tanto mais altos quantos pensavam vê-los afundando na lama. Nietzsche, Poe, Baudelaire, Van Gogh, Hördelin, Rimbaud – estes eram seus pares…” (p. 123).

A busca do Graal, a descida ao abismo, a aventura intelectual, servem, em “Abismo”, para dar uma dimensão mais profunda e visceral dos vários lados do espelho de nosso “eu”. A questão não está mais em representar uma realidade única, porém muitas de suas possibilidades. E o fecho do livro, apesar de não ser absolutamente surpreendente, é completamente verossímil e satisfatório, justificando plenamente o prazer da leitura e a capacidade de bom escritor que Carlos Ribeiro demonstra possuir.

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