O Perfil Combativo do Velho Urso

Neste livro se recupera a face mais ignorada e convenientemente esquecida de Rubem Braga, redimensionada agora por Carlos Ribeiro com raro senso de medida. Ao detalhar vasta matéria ainda esparsa em periódicos não raro obscuros e quase inacessíveis, expõe Carlos Ribeiro a dívida imensa que acumulamos com nosso maior cronista. Ou seja, é preciso preservar-lhe o extraordinário legado para que, nele, possamos nos reconhecer e reconstruir o que fomos e somos. É esse o desafio dialético de Carlos Ribeiro, na primordial intenção de nos transmitir um perfil mais fiel do nosso povo e do escritor que o interpretou. E o interpretou como poucos, abismado em seus próprios conflitos, suas inadequações, suas instabilidades, seus acertos e até mesmo seus eventuais equívocos sem remissão no cambiante território do passado. E teve consciência o autor deste livro que a releitura do passado com as convicções do presente seria esforço equivocado e inútil. O caminho percorrido aqui é bem outro.

Ora, em cerca de seis décadas Rubem Braga denunciou, sempre com muita coragem e clareza de propósitos, as numerosas injustiças e os não menos numerosos descalabros políticos e sociais que em grande parte ainda nos acompanham e afligem. Combativo e antecipatório, nosso cronista nunca deixou de colocar os pingos nos is em assuntos da ordem do dia: regimes totalitários, conservadorismos, inclusive os religiosos, desmandos empresariais e outros crimes brasileiros. É uma “outra face do cronista lírico” que se desenha, isto é, o cronista político ou, por vezes, o escritor social franco-atirador. Uma “outra face” até hoje negligenciada talvez porque o próprio Braga se reconhecia sem ambições políticas: “Sou, eu por mim, um pobre repórter e cronista que vive de escrever e não tem a menor ambição política.” Conforme anota Carlos Ribeiro, “tais características da crônica bragueana parecem ser estranhamente desconhecidas por críticos e historiadores da literatura brasileira, que insistem em minorar ou mesmo negar o perfil combativo do velho urso.”

Paira sobre tudo isso a posição bem definida, e até certo ponto, determinante, que Rubem Braga teve na imprensa brasileira do século XX. Sim, porque toda a sua atuação foi marcada pela busca de um Brasil mais decente e menos ignorante de seus maiores problemas. Um país que Carlos Ribeiro soube aqui capturar “em constante estado de transformação” por meio do soberbo material que nos legou o repórter incansável e irônico que foi Rubem Braga.

André Seffrin
Rio, abril de 2013.

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