“O Lirísmo é Essencial”

SUZANA VARJÃO*

A Tarde Cultural

LIVRO – A poética do cronista Rubem Braga é resgatada por Carlos Ribeiro, em livro lançado hoje, no campus de Ondina.

Hoje, às 18 horas, na livraria da Ufba, o escritor e jornalista Carlos Ribeiro estará autografando Caçador de Ventos e Melancolias – Um Estudo da Lírica nas Crônicas de Rubem Braga. A publicação traz uma análise da obra deste importante cronista brasileiro, situando-a no contexto histórico, econômico e cultural de seu tempo – ou seja, da década de 30 aos anos 90. É um trabalho de pesquisa cuidadoso, que confronta poesia e prosa, jornalismo e literatura. Na entrevista abaixo, Carlos Ribeiro fala sobre a publicação, delicada e consistente. Como seu autor.

P – Vamos caçar ventos?
R – É uma idéia boa, e eu diria até necessária, mas não é muito fácil. Caçar ventos consiste, talvez, na velha tentativa de decifrar a sorte, o fado, o destino, que chega e, no mesmo instante, já passou. Por isso, talvez, o tom melancólico existente nas crônicas de Rubem Braga, um caçador de ventos por excelência. Caçar ventos significa estar, sempre, de mãos vazias. Mas, paradoxalmente, é esse caçador de ventos que se enriquece, espiritualmente, com a experiência obtida no simples ato de buscar. Vale lembrar que, na mitologia grega, os ventos eram celebrados pelos poetas, tanto o rude Aquilão, como o doce Zéfiro…

P – O que é mais forte em Braga? O jornalista ou o escritor?
R – Ambos, cada um na sua medida. O jornalista, na interação com os acontecimentos do seu tempo, interação essa que escapa, cada dia mais, da perspectiva do leitor atual. Mas é o escritor que proporciona ao texto a sua perenidade. É o escritor o responsável pelo fato, extremamente salutar, de que os seus livros continuem sendo editados e lidos. Isto se deve à sua capacidade de captar nas coisas simples do cotidiano o que existe de universal. Como um mestre da palavra, ele conseguiu transformar a informação jornalística e a observação dos acontecimentos e das pessoas em alimento para sua prosa carregada de humanismo.

P – Que Braga é resgatado, primordialmente, neste livro?
R – O lírico, mas não no sentido hegeliano, contido no conceito de bela alma e restrito aos castelos de marfim da poesia pura. Muito menos aquele do lirismo comedido e raquítico referido por Manuel Bandeira. Braga era um escritor moderno, perfeitamente integrado à sua contemporaneidade. Seu lirismo era, usando uma frase de Adorno, “uma forma de reação à coisificação do mundo, ao domínio das mercadorias sobre os homens”. Nele, o individual e o social não se excluem, pelo contrário, são enriquecidos. A denúncia social nas crônicas de Braga é potencializada pela linguagem lírica, que, por sua vez, traz um eco dos antigos escritores românticos, no que eles tinham de melhor. Este é um dos pontos centrais da minha tese.

P – Quais as fronteiras entre literatura e jornalismo?
R – Eu diria que a literatura expressa uma experiência humana enriquecida pela linguagem, mais propriamente por uma linguagem figurada. A criação literária, ou mais propriamente poética, segundo Octávio Paz, “consiste em trazer à luz certas palavras inseparáveis do nosso ser”. Por sua vez, o jornalismo é uma forma de expressão nascida de uma indústria da informação que tem como principal lema o conceito de objetividade. O jornalista não se pode distanciar muito da linguagem referencial, do “fato jornalístico”. O jornalismo moderno tem como base o conceito da imparcialidade, que, como sabemos, é um mito, e, em alguns casos, um engodo. Mas, na prática, como mostra a crônica de Braga, essas fronteiras são, muitas vezes, imprecisas.

P – Em Salvador, século XXI, é possível caçar poesia?
R – Sem dúvida. Um bom “caçador” pode flagrá-la, ainda, em cada esquina da nossa cidade, no reflexo do sol poente sobre os casarios, nos pátios das igrejas coloniais, nas paisagens ensolaradas que se abrem, de chofre, ao final de uma ladeira, de uma rua, de uma escadaria; mas também nas nossas avenidas movimentadas e, até mesmo, no burburinho dos shopping centers. Mas é verdade também que muitas de nossas fontes de inspiração estão se perdendo com a crescente destruição da natureza, dos espaços naturais de convivência e, o que é mais assustador, dos nossos princípios e valores. Existe uma desumanização crescente, que se reflete nas relações. Salvador, hoje, é uma cidade na qual você tem medo do seu semelhante. Daí a necessidade do esforço para humanizá-la, esforço que cabe não apenas ao poeta, mas ao jornalista, ao professor, ao político, enfim, a todos os cidadãos. Precisamos, hoje, mais do que nunca, unir os nossos esforços para resistir à coisificação que a sociedade globalizada quer nos impor.

P – O que há de comum entre Carlos Ribeiro e Rubem Braga?
R – As crônicas de Braga eram uma forma de ele encontrar sentido num tempo em transição. Um tempo em que os valores utilitários da civilização industrial conviviam com uma visão de mundo na qual a insubstancialidade das coisas ainda possuía um valor positivo. Escrever sobre as crônicas dele é um prosseguimento dessa busca. Em outras palavras, sou um dos que acendem sua pequena tocha na grande tocha que ele, e outros escritores modernos, trouxeram até nós e que prossegue a corrida, afirmando que o lirismo é essencial.

*Suzana Varjão é jornalista e coordenadora do movimento Estado de Paz.

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