O Controle da Escrita Invejável e Raro

 

Rio, 8.9.2000

Caro Carlos Ribeiro:

Estou aqui em Nova Friburgo – aproveitando o longo feriado – tentando colocar certas coisas em ordem, sobretudo correspondências. Isto entre uma ida ou outra à horta, ao mato, um trabalho com machado, esterco e flores. Para arejar. Saber onde está o mundo real. E trouxe de novo “O visitante noturno” e “O chamado da noite”. Que já havia trazido em outra oportunidade e nos quais havia lido partes. Retomei-os.

Não se trata de crítica literária aqui. Apenas de um comentário geral. Já haviam me falado de seu trabalho (lembrei-me depois que recebi seus livros, talvez tenha sido a Gerana (que, aliás, sumiu).

O diabo é que você é realmente um bom escritor. E este é o problema. Está condenado a prosseguir e a sofrer as injustiças do incongruente sistema literário brasileiro. Os contos [de O visitante noturno], por exemplo, são primorosos (há alguns que ainda não terminei de ler). Elabora as “estórias” e “climas” com individualidade, personalidade. Tem um controle da escrita invejável e raro. O que se confirma n´O chamado da noite. Aqui você ousou diferentemente. Essa escrita que flui dentro da noite da vida e da própria literatura, as citações de livros, autores, filmes que cortam o seu imaginário (do narrador).

Está lá você batendo na tecla crucial: “O que é escrever bem. Sim, preciso matar o meu estilo! Mas como, se ele é o próprio diabo dançando no redemoinho”… É o que lhe digo: o diabo é que você é bom e sabe escrever e tem que lidar com aquela condenação. Aceita-a, enfrenta mais demônios ou abre mão de tudo, como tantos outros?

Está lá também aquela menção a “O encontro marcado” – ícone para todos nós. De algum modo, em tom menor e mais delicado, você fez um “encontro” nesse “chamado”.

Você é um enamorado da linguagem como deveriam ser todos os que escrevem.

Gostaria que houvesse um sistema literário para que você localizasse nesse descampado país seus pares e dando-se as mãos e a escrita forjassem um grupo, uma nova geração dentro da necessária renovação de nossas letras.

Não disse muita coisa. Apenas que gostei de seus livros. E que lhe desejo êxitos muitos.

Affonso Romano de Sant´Anna

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