O Chamado da Noite

Lígia Telles *

O chamado da noite, o novo livro de Carlos Ribeiro, desponta como um aceno ao leitor para ingressar em território povoado de sonhos, lembranças e fantasias, fazendo-o, desse modo, reencontrar-se na zona de sua própria intimidade. Nesse momento da contemporaneidade, em meio a um cenário dominado pela tecnologia, representa a permanência da voz do sujeito, também leitor da multiplicidade de signos e discursos aos quais expressa em narrativa.

O livro estrutura-se em cinco capítulos, cujos títulos deixam entrever alguns dos temas aglutinados em torno da relação entre o indivíduo e a coletividade, acentuando-se a condição solitária do ser humano no mundo urbano atual – deserto, ilha.

Em tal contexto, Carlos Ribeiro dá continuidade à tradição ficcional que situa o homem no cotidiano, sozinho em meio à multidão, dela extraindo, ao perambular pelas ruas de sua cidade, a matéria poético-narrativa, conforme o fizeram Baudelaire e Poe. Na voz que conta minúsculas aventuras, os heróis das grandes narrativas são substituídos pelos seres comuns que se movimentam quer pelo espaço exterior da cidade, quer pelo espaço interior da memória. Personagens vislumbrados pelo narrador no transitar diário da cidade grande – no caso, a cidade de Salvador – duram o tempo em que são capturados pelo olhar; personagens recuperados pela memória do narrador persistem, a despeito do escoar do tempo; personagens que habitam seus sonhos atestam um mundo de desejos projetados. Através de todos eles, delineia-se o perfil de um sujeito, na expressão da sua subjetividade, razão pela qual as pontas do território narrativo e do território lírico se tocam.

Este é um livro que permite uma leitura ágil e ritmada. Em que ritmo e em que velocidade? O ritmo da descoberta, pelo leitor, de seus próprios anseios e desejos, medos e frustrações – a grande aventura da busca no cotidiano – e a velocidade encontrada no tecido de um texto que contém essa marca, acompanhando os saltos aqui e acolá pelas trilhas da memória e da imaginação.

Lígia Telles é ensaísta e professora de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Bahia.

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