Novos para sempre

Myriam Fraga
maio/1996

Em 1980, Geraldo Machado, então Diretor da Fundação Cultural do Estado, propôs-me desenvolver alguns projetos na área de literatura com vistas à criação de um departamento específico que atendesse ao campo das letras, à época ainda sem representação no organograma da entidade.

Passei então a atuar junto ao Serviço de Difusão Cultural da FCEBA, chefiado por Zilah Azevedo, responsável pelo programa editorial da Fundação, com um bom número de livros publicados, segundo as várias linhas editoriais já existentes.

Enquanto aguardava o momento oportuno de concretizar o projeto mais ambicioso de criar um centro de literatura, apresentei uma proposta de trabalho voltada para autores inéditos ou em fase de formação. Assim foram realizados os Encontros de Literatura Emergente I e II e criada a Coleção dos Novos para autores estreantes, iniciativas que alcançariam grande repercussão de que podem dar testemunho informações e notícias veiculadas à época nos principais meios de comunicação.

Se os Encontros de Literatura Emergente, feitos em parceria com o Instituto de Letras da UFBA, sacudiram, literalmente, as paredes do antigo prédio de Nazaré, onde foram realizados, a Coleção dos Novos foi motivo de grande alvoroço entre os jovens candidatos a escritor.

A esse tempo também trabalhavam, no Serviço de Difusão Cultural, os escritores Guido Guerra e Claudius Portugal, aos quais juntaram-se Florisvaldo Mattos, José Carlos Capinan e Ruy Espinheira Filho para formar a Comissão Editorial. Humberto Vellame, artista gráfico, ficou encarregado da programação visual.

A Comissão reunia-se, toda sexta-feira, para apreciar os trabalhos à medida que fossem apresentados e ler dezenas de originais, com pareceres escritos sobre os mesmos.

Assim, foram publicados 14 livros, de prosa e poesia, alternadamente, com lançamento festivo e regularidade de um volume por mês até que, em 1983, com a mudança de diretoria na Fundação Cultural, o projeto foi extinto, sob acaloradas discussões e indignados protestos.

Hoje, quinze anos depois, ao ser informada por Carlos Ribeiro, de que havia o desejo de reunir-se o grupo dos Novos para publicar uma coletânea com seus trabalhos recentes, senti uma grande alegria e, ao mesmo tempo, uma imensa saudade dos tempos em que, reunidos no prédio da Biblioteca Central dos Barris, onde funcionava a Fundação, compartilhávamos com alguns jovens autores da aventura maravilhosa da criação.

A Coleção dos Novos publicou 14 autores: Orlando Pereira dos Santos, Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro, Mirella Márcia, Dalila Machado, Roberval Pereyr, Iracema Villalba, Iderval Miranda, Lázaro Torres, Washington Queiroz, Sebastião Valença Filho, Marcos Ribeiro, Chico Muniz e Diógenes Moura, que hoje, tanto tempo decorrido, demonstram que, com a maturidade adquirida nesses anos, continuam apostando na literatura com o mesmo entusiasmo e a mesma dedicação.

A Coleção dos Novos foi um projeto inovador em seus métodos e propósitos. Não era tão somente um concurso literário mas um processo de avaliação e aprendizado, uma grande oficina onde todos aprendiam que fazer um livro não se esgotava no ponto final do texto, mas se estendia no acompanhamento de todas as etapas, desde a preparação dos originais, formatação, diagramação, revisão e, finalmente, impressão. As capas, dentro de um padrão idealizado por Humberto Vellame, eram discutidas livremente com o autor, sempre instigado a opinar sobre todas as etapas da edição e a acompanhar os preparativos com lançamento, convites e divulgação. Cada livro lançado era um congraçamento e uma vitória.

Quinze anos depois aqui estamos novamente – e com que alegria! – cumprindo mais uma etapa e recordando, com emoção, de um momento importante e prazeroso que não se esgota na lembrança, confirmando sua permanência nesta proposta de agora.

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