No Mundo da Lua

Otto Leopoldo Winck 

Desde que a burguesia assumiu a hegemonia da sociedade, desbancando a então refinada e decadente aristocracia, é o mercado que rege todas as relações sociais, inclusive as culturais. Não que as coisas antes fossem melhores — não, não sou de modo algum saudosista. Antes, o escritor — como todos os artistas — era um empregado de luxo do mecenas: o rei, o nobre, a Igreja. Ele não passava fome e contava com a certeza de um lugar aquecido onde passar a noite. Mas ai se ousasse produzir algo que desagradasse a seus patrões. Com o estabelecimento do capitalismo moderno, os aristocratas perderam suas benesses, seu poder, seu prestígio. Por conseqüência se desfizeram suas cortes: aquele cordão de puxa-sacos que viviam à sua sombra e dos quais os artistas eram os mais significativos. Sem o antigo vínculo, não restava agora ao escritor, como aos demais artistas, outra alternativa senão oferecer seus produtos no mercado. E aí, para ter chance de algum sucesso, ele se viu obrigado a fazer concessões — e quanto mais deseducado fosse o público, maiores seriam as concessões.

O escritor se viu então num impasse: ou fazia concessões, com o olho nas massas, ou seguia apenas os seus impulsos e escrevia para os seus pares, dando as costas para o novo público burguês, produzindo uma literatura altamente sofisticada, cerebral, mas freqüentemente só acessível a iniciados. Acontece que se esqueceu — e se esquece hoje — que no ancien régime o escritor também fazia concessões: para o rei, para o bispo, para o nobre que o empregava. Às vezes, estes até eram cultos e possuíam alguma sensibilidade, mas o artista não gozava de maneira alguma de liberdade. Ele não passava no fundo de um ideólogo de luxo das classes abastadas. Agora a coisa mudou um pouco de figura. Ou ele escreve para muitos e sofre o desprezo de seus pares ou ele escreve para poucos com o fito de ser incensado por um grupelho de especialistas. Até o século XIX, era possível uma certa conciliação entre os dois extremos: um Balzac, um Dickens, um Zola, um Dostoievski foram escritores tanto de sucesso junto ao grande público quanto de prestígio nos meios literários — o que se tornaria incomum nos séculos seguintes, com raras excessões como, por exemplo, Umberto Eco, um best-seller bem-visto nos círculos acadêmicos.

Todavia, no Brasil, a coisa fica ainda mais complicada. Quando caminhávamos para formar um público leitor, surgiram os modernos meios de comunicação de massa, absorvendo este público ainda antes de seu amadurecimento. É claro que esta situação não deixaria de se refletir tematicamente na literatura. Se desde o Dom Quixote a literatura nunca deixou de ter o seu viés metalingüístico, essa característica todavia só viria se acentuar com o tempo.

Na longa galeria de narrativas que têm escritores como protagonistas, vem somar-se o romance Lunaris, do baiano Carlos Ribeiro (EPP Publicidade/Banco Capital, 2007). Este, porém, se destaca por um viés diferenciado. O protagonista é Alberto, um professor universitário, bem casado e, claro, com veleidades literárias. Mas, sobretudo, como os escritores do romantismo para cá — que foi quando se deu essa dissociação entre escritor e público —, um ser desarraigado, deslocado, fora de lugar, a despeito de sua vidinha tranqüila de pequeno-burguês. Já no início da narrativa vem à tona este detalhe:

Já sentira aquela mesma sensação, algumas vezes, após acordar de um cochilo, depois do almoço. Ao abrir os olhos, vinha-lhe de súbito uma profunda estranheza do existir, uma sensação quase insuportável de ser, de estar (…).  Sentia, então, abater-se sobre si uma forte percepção da sua responsabilidade. (p.14)

E mais adiante:

Ele mudara ou foi a cidade que se deixou conspurcar, ao ponto de ficar esvaziada de todas as suas potencialidades, dos seus sonhos, da sua utopia? Por que diabo aquela sensação de estar à beira de uma catástrofe irremediável? Mas tudo estava tão normal! E, no entanto, parecia que o desastre já começara — como um incêndio no porão enquanto as pessoas, sem saberem, dançam e negociam e fazem planos nos andares superiores de um velho edifício. (p. 15)

Como o Cavaleiro da Triste Figura, encharcado de romances de cavalaria, numa época em que a cavalaria já estava decadente, ou como Emma Bovary, ébria de literatura romântica, no ocaso do romantismo, Alberto se refugia num mundo ideal, imaginário. Até aí, nenhuma novidade. Quem que já não conheceu um escritor “viajandão”? O inusitado, e o que confere um aspecto fantástico à narrativa de Carlos Ribeiro, é que este mundo “imaginário” torna-se aos poucos impressionantemente real. No entanto, é bom que se diga, Alberto não é um desvairado, aquele tipo do artista romântico — um dos mais renitentes clichês que se apegaram à imagem do escritor — que, de tanto “sonhar”, acaba perdendo todo vínculo com a realidade. O próprio narrador em terceira pessoa adverte:
Havia nele uma bem dosada mistura de Quixote e Sancho, de forma que, apesar de se sentir um pouco deslocado entre os seus semelhantes, tocava sua vida sem maiores problemas.
(p. 17)

A despeito de sua vida “normal”, de seus compromissos cotidianos, o mundo imaginário vai assumindo aos poucos dimensões cada vez maiores, mais “reais”. Alberto conversa com os habitantes de Lunaris, e estes, a cada página, vão assumindo feições concretas. Com Hélio, um desses habitantes, entretém longas conversasões, discutindo de tudo, de literatura à política. Não raro os dois planos, o imaginário e o real, parecem embaralhar-se:

Agora veja só a que ponto nós chegamos, pensa Alberto. Um fantasma, criado por sua carência e por sua solidão, sai do mundo inexistente para convencê-lo de que somos reais. Uma idéia atravessou, como um raio, o espírito de Alberto, paralisando-o. “Serei eu, na verdade, uma criação dele? Serei eu o simulacro?” (p. 46)

E nesta subversão da realidade pelo sonho, do real pelo imaginário, não tarda para o protagonista se apaixonar por uma “lunariana”! Ao final do livro, assistimos a uma verdadeira invasão do fantástico e do irreal sobre a  realidade. É como se o escritor, tornado irrelevante na contemporaneidade, não visse outra alternativa a não ser se deixar submergir pelas águas da imaginação e do delírio. Seria isso uma sina, uma maldição? Ou uma derrocada, uma confissão apressada de derrota? Lunaris não oferece uma resposta, ou pelo menos não uma resposta clara — como a boa arte romanesca. Ele apenas retrata, com as tintas do fantástico, a condição atual do escritor, este arcaico artesão das palavras numa sociedade de imagens. Todavia, arcaico não significa necessariamente obsoleto. No fundo do baú da história, se encontra não raro as sementes do futuro. É o que de certa forma está implícito no título, Lunaris, que homenageia um clássico da ficção científica: Solaris, de Stanislaw Lem.

Com este romance — ou, se preferirem, novela, devido a sua extensão —, Carlos Ribeiro vem consolidar uma obra que tem sido construída com discrição e seriedade, sem os acessos de autopromoção explícita tão comuns nos escritores. E esta não é a menor qualidade desse baiano.

Otto Leopoldo Winck nasceu no Rio de Janeiro, capital, em 1967. Desde 1982 está radicado em Curitiba. É mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, onde atualmente cursa o doutorado na mesma área. É escritor, autor do romance Jaboc(vencedor do Prêmio Nacional de Academia de Letras da Bahia/Brasken de Romance 2005), lançado em 2006 pela editora Garamond.

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