Nelso de Oliveira Comenta Críticas de Bernardo Carvalho e Milton Hatoum

especial para a Folha

Geração 90, de novo?! Ninguém aguenta mais ouvir falar a respeito. Também parece que ninguém aguenta deixar de falar a respeito. Sábado passado a Ilustrada publicou ótima entrevista com quatro dos principais nomes da prosa brasileira contemporânea: Marçal Aquino, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum e Luiz Ruffato. Quem se interessa por literatura e não leu “A literatura brasileira dividida por quatro” perdeu algo importante.
Os quatro debateram sobre a falta de leitores, o atual mercado editorial, a Feira Literária Internacional de Parati, o novo romance social e os possíveis caminhos criativos à disposição dos novos escritores. Mas eis que surge, na metade do bate-papo, o tema pela enésima vez: “geração 90”.

Não foi a primeira vez que as antologias “Geração 90: Manuscritos de Computador” e “Os Transgressores” receberam críticas na imprensa. Ambos provocaram leituras e resenhas apaixonadas. A favor e contra, pois os dois foram elogiados e malhados com igual energia. Também não foi a primeira vez que as antologias, e o conceito de “geração 90” veiculado nelas, foram criticados de maneira bastante superficial. Mas foi a vez em que a superficialidade dos comentários falou mais alto e da maneira mais arrogante.

“Geração 90” foi o artifício que encontrei para reunir e tentar divulgar a prosa dos melhores contistas e romancistas que estrearam no final do século 20. Trata-se de uma etiqueta, um rótulo, uma logomarca. Sob essa etiqueta estão 30 autores, como Marçal, Ruffato, Fernando Bonassi e Marcelino Freire. O projeto exigiu a leitura de centenas de livros publicados nos anos 90, além de pesquisa em sebos e internet.

Procurei abrir o leque ao máximo, fui atrás da literatura feita em todos os cantos do país. Foi assim que conheci o excelente trabalho do amazonense Daniel Pellizzari, do paraense Edyr Augusto, dos cearenses Jorge Pieiro e Pedro Salgueiro, do baiano Carlos Ribeiro, da paranaense Luci Colin, dos gaúchos Altair Martins, Amilcar Bettega Barbosa e Cintia Moscovich, e de outros mais.

Bernardo Carvalho e eu concordamos, com o sinal invertido, quanto a associar a “geração 90” a certa militância de minorias. Bernardo não dá nomes aos autores, talvez por ignorar seus livros. Apenas diz que “essas pessoas” estão apenas se promovendo, estão só em busca de visibilidade, de espaço no mercado editorial. É a pura verdade. Não conheço escritor, genial ou medíocre, que não esteja em busca de visibilidade.

A boa propaganda duela com armas brancas, sempre. É ela que leva os escritores da “geração 90” a ler seus textos em praças e escolas, organizar saraus, criar revistas e blogs, falar de literatura 24h por dia (perdão, Ruffato, mas eu discordo de você) e muitas vezes pagar do bolso a edição de um livro.

O livro pronto, recomeça a batalha: enviá-lo a críticos, jornalistas e outros escritores, insistir para que os livreiros o aceitem nas livrarias. Por que essa trabalheira? Porque acreditam que estão escrevendo a melhor literatura do planeta. E muitos estão. Todo esse movimento é sinal de vida literária, de sangue correndo no corpo. Tudo isso bate de frente com a literatura de gabinete, voltada apenas para o cânone e distante do corre-corre cotidiano, postura aristocrática que casa bem com a fixação de Bernardo e Hatoum na questão da permanência.

Questão bizantina, porque discutir “quem vai ficar e quem não vai ficar” é discutir o sexo dos anjos.

Chega a ser antiético menosprezar em bloco os autores citados acima, em tudo tão diversos, apenas porque estão sob a etiqueta “geração 90”. Bernardo e Hatoum caíram na mesma armadilha em que os resenhistas mais apressados já haviam caído. Analisaram a superfície, a etiqueta, e deixaram para lá o que interessa: a literatura. Ficaram na capa, não no conteúdo das duas antologias.

Como disse, o conceito de “geração 90” foi criado em laboratório, com o propósito bem definido de divulgar a literatura de qualidade, porém mal distribuída, dos novos autores. Mas aos poucos esse conceito extrapolou limites e passou a ser usado livremente por críticos e pelos próprios escritores (hoje já falam até na “geração 00”!). Seu crime, segundo a crítica, é abrigar prosadores das mais diversas naturezas, defensores das mais diferentes posturas.

O veterano Wladyr Nader brincou: “Nelson, geração 90 é o quê? Um estado de espírito?”. Ótima definição. “Geração 90” é um estado de espírito. Muitos gostariam de fazer parte dela, muitos detestariam. Outros pensam que pertencem a ela, sem pertencer. E há os que, mesmo achando que não pertencem, estão imersos nela até o pescoço. Por isso é importante ler antes de tomar posição.

Nelson de Oliveira é autor de “Geração 90: Manuscritos de Computador”

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u35549.shtml 

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