Narrativa da Visibilidade

LUCIANO RODRIGUES LIMA*

13/09/97 – A Tarde Cultural

Por que nos interessamos por narrativas? Ainda existe alguma tangibilidade na narrativa de hoje? Tais questionamentos resistem a teorizações. Mudam as formas do narrar, como muda a vida.

Que não se busque, a priori, classificações para O Chamado da Noite, uma narrativa marcada pela intertextualidade e pela fusão dos gêneros. O seu universo é o tempo da incerteza, da desumanização do homem, da anulação da individualidade. A sua linguagem se constitui na força da oralidade, em um falso solilóquio, onde o leitor é o interlocutor desejado.

Os olhos do escritor – por trás de um narrador-personagem – são uma câmera voraz, que tudo capta (tudo que vemos ou sonhamos hoje tem o enquadramento das lentes de uma câmera) e enfoca esteticamente: o campo onde se realiza sua experiência cotidiana, e o mundo inteiro, por trás, girando como a grande usina produtora de quadros, motivos e valores estéticos.

O narrador fala de suas vivências, mas através da incorporação de componentes estéticos da exterioridade. Esses elementos, combinados, é que o tornam único. A combinação desses gostos, escolhas e experiências é irrepetível. A seleção e o efeito desses componentes estéticos geram um código de infinitos dígitos. E, ainda assim, nos reconhecemos nele, em parte, na estesia que o marcou, e nos marca agora de modo diferente, ao lê-lo. Sua experiência estética, agora, nos transformará através do choque da resignificação.

O Chamado da Noite tem o feitio da “visibilidade” que nos propõe Italo Calvino, (1) pela possibilidade de construir cenas polimorfas e claras, com o uso certeiro da palavra: “… Pensei em mil filmes num segundo…” “Shane ferido desaparecendo na noite… Corisco girando em desespero girando girando na caatinga desolada”. A fantasia do autor alimenta a imaginação do leitor, ambas criadoras – ou recriadoras – de imagens.

O narrador-personagem tem uma integração visceral com a cidade, e eles se acoplam. A cidade é antropomórfica e ele incorpora cada casinha de palha de Itapuã e cada pôr-do-sol no Farol da Barra. Mas suas angústias não são resolvidas pelo Dr. Máximo, pela racionalidade. E tudo é questionado, até a sua própria existência: “… e me sinto mais uma vez como a personagem de Poe, nas ruas de Londres, seguindo o homem na multidão: mas não serei eu o homem na multidão? não aquele pavoroso, não o Mal, mas apenas um fantasma, um fantasma, um fantasma, um fantasma…” Onde é o mundo real: este ou o das telas? Se a vida é narrativa, elas não narram muito mais claramente?

Nos desvãos da narrativa, o livro de Carlos Ribeiro se abre para todos os lados da anarquia “multimediática”, da obsessão pela informação tocando o que Linda Hutcheon chama de “o múltiplo, o heterogêneo, o diferente, a retórica pluralizante do pós-modernismo” (2) Nada é expurgado: Sócrates, Aristóteles, Kant, Nietzsche, Poe, Baudelaire, Eliot, Borges, o Agente 86, o Homem do Rifle, o Pererê de Ziraldo, Gerônimo, o Herói do Sertão, Flávio Cavalcante, a Guerra de Canudos, os westerns clássicos, a lenda da Cavala, as vampiras do Dr. Máximo.

Não há fronteiras entre a exterioridade e a interioridade e o íntimo é revelado pela mais completa loquacidade, como o Riobaldo de Guimarães ou o Sargento Getúlio de João Ubaldo. O discurso flui ininterruptamente e a narrativa não se atraca ao tempo. As idéias se sucedem e se interligam às sensações e impressões. Afinal, a imaginação não cria em parágrafos.

Este livro, construído com elementos da novela, do ensaio, da crônica e da poesia, surge com sua força criativa integrando tudo através da mediação estética – cenas, fatos, experiências – única forma de comunicação com um mundo estetizado (estética dos sem-terra, da realeza inglesa, das religiões protestantes, da revista Playboy, dos vampiros…).

O texto cria um labirinto e nos perdemos nele, junto com a personagem. Os únicos faróis, as “luzes brilhando na planura…” são os referenciais estéticos. Somos apenas a soma desses referenciais. São a nossa única possibilidade de identificação, nossa prova de estar no mundo, de podermos sonhar com o devir. O devir é a possibilidade de assimilação de mais tijolos na construção da catedral estetizante. Podemos vislumbrar algo disto em O Chamado da Noite, de forma difusa, enigmática, como em toda obra que pretende lutar com o tempo, através de uma decifração lenta e gradual.

*Luciano Rodrigues Lima é ensaísta e professor adjunto da Ufba e da Uneb.

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