Lunaris – Algumas Opiniões

Querido Carlos Ribeiro,

grana não é pequena. Aliás, conversava hoje com o historiador francês Laurent Vidal, da Univ. de La Rochelle, sobre este século atordoado e desesperançado. Mas ele acha que a gente não deve se sentir tão perdido, pois o desencanto maior está nos grandes centros urbanos, onde parece não haver mais lugar, nem para os sonhos. Porém, diz ele, nos pequenos lugares da França ou do Brasil, ainda há movimentos mais esperançosos — dentro das pessoas, pelo menos.

Enfim, o que quero dizer é que seu livro certamente não é um produto de mercado, pela própria natureza da discussão que provoca. Em contrapartida, é da maior importância que ele tenha sido escrito.

um grande abraço

Antônio Torres

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Carlos Ribeiro é um dos nomes mais importantes da atual literatura baiana. Romancista e contista, também se destaca como jornalista, crítico e ensaísta. Seu último livro, Lunaris, publicado no ano passado, veio confirmar uma brilhante carreira de escritor. Trata-se de um romance pequeno (ou de uma novela, se preferirem, ou talvez um conto longo, não me envolvo na briga das classificações), com riqueza de trama, agudas reflexões e densidade de estilo. Recorda-me, particularmente, O chamado da noite, romance que ele lançou em 1997 e muito me impressionou. Enfim,Lunaris é leitura obrigatória para todos os que têm interesse em literatura de alta qualidade.

Ruy Espinheira Filho

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LUNARIS-  FICÇÃO BAIANA EM NOVA PERSPECTIVA

Lunaris é um romance instigante que leva o leitor a uma viagem insólita entre os mundos da realidade e da imaginação do protagonista Alberto, que alterna consciência e devaneio, numa demanda dos sentidos existenciais de sua vida. Por outro lado, marca um momento importante da nova ficção baiana, pois aponta um caminho para a saída do grande impasse em que o nosso romance urbano se meteu, desde o clarão da obra ficcional de Jorge Amado. O livro de Carlos Ribeiro aponta um caminho para sair da pasmaceira, ou mesmo, do mutismo ficcional da era pós-amadiana.  Para onde foi o romance baiano? Sumiu? Com Carlos Ribeiro, pode-se reformular a pergunta: Para onde vai o romance baiano? O escritor retoma o espaço baiano – particularmente Salvador –  com um percurso narrativo inteiramente descolado daquela velha imagem romanesca da Bahia. O seu narrador-protagonista vivencia a geografia de Salvador, em estado de delírio, trazendo para dentro de seu universo interior um mundo de ruas, situações, fatos e elocubrações inquietantes, às vezes misteriosas e enigmáticas, num fluxo psicológico em que os sentidos dos fatos e das vivências flutuam a depender da percepção de cada leitor. Assim, Lunaris aponta um  horizonte novo para os novos ficcionistas, insinuando a possibilidade de uma nova perspectiva para o reflorescimento do romance baiano.

 

Aleilton Fonseca

 

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Ficcão artística literária

Stanislaw Lem está na epígrafe, esta coisinha que vem antes. E vem antes porque nenhuma coisa miudinha é à toa. A epígrafe, com trechinho de Solaris, já vem trazer a fechadura ou abertura de frestas, aquela ficção artística científica dialoga com esta outra: Lunaris. O romance anterior, este último, de Carlos Ribeiro recebe o título de Lunaris. Um tipo de mundo onde tudo é possível, como na literatura. A literatura – a arte, entendamos, a arte – é a solução que encontra a personagem principal do romance para deixar de ser concreto, objetivo, metódico, previsível. O que era científico em Stanislaw Lem, é literário – a poesia da palavra como imagem, entendamos assim – em Carlos Ribeiro. Assim, a literatura se coloca no lugar da ciência, imprimindo um novo rumo à sua personagem principal, que no final não embarca na demência do mundo irreal de Solaris, mas aceita a possibilidade de navegar  no rio de  letra e dúvida que corre em Lunaris. Um rio do talvez, das incertezas e das possibilidades. Lunaris, é assim, o lugar da fantasia da palavra, o seu estado encantatório. Há outras várias facetas em Lunaris, mas essa, a da casa da palavra, foi a que me chamou. E eu entrei em Lunaris. Um grande escritor português, o Abel Neves, tem um texto teatral composto de pequenos fragmentos, cujo titulo é Além as estrelas são a nossa casa. São pequenas situações dramáticas aonde os meteoros e planetas e suas incríveis variantes vão invadindo a cena humana e vice-versa. Lembro do Abel, pois em Lunaris, Carlos também faz uma morada para além as estrelas: a morada de uma  prosa que ora é suave, ora minguante sorriso de melancia, ora caudalosa, ora vertiginosa, cruzando a fronteira do medo e do desespero. Este último romance de Carlos Ribeiro pode ser o seu melhor livro, e eu já espero o próximo.

Adelice Souza

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Meu amigo Carlos,

 

De repente pois e depois de alguns dias estou aqui escrevendo umas palavras das muitas que neste tempo visitaram meu sentimento depois de ler seu livro. Seu livro que de maneira tão gentil chegou a mim. Fazer uma crítica?……..não cabe. Nunca cabe fazer uma crítica a uma obra. Aqueles que o fazem, ou profissionalmente ou por outro motivo se posicionam no lugar de “referencia da leitura”. Pretendem impedir a liberdade daqueles que com liberdade podem ler e ver. Dão conselhos, apontam “inconveniências” enfim, são inevitavelmente arrogantes, pretensiosos ou ingênuos. Então, meu amigo, não estou nesse lugar nem quero estar. Na nossa vida, no nosso quotidiano, muitas vezes imperceptivelmente, nos tornamos críticos e nessa hora corremos o risco de não sermos justos. Enfim , é apenas um intróito querendo chegar ao lugar de meu sentimento…….

Li o livro com atenção. Não foi difícil ler com atenção, foi fácil. E o fato de conhecer o autor penso que me deu um ponto de vista na minha leitura. Talvez um ponto de vista privilegiado. Certamente minha leitura seria diferente se o autor me fosse um desconhecido. E eu me pergunto se na essência a diferença  seria grande. É uma pergunta que não saberia responder mas, que importa? É apenas um detalhe. O que vi no andamento da minha leitura é alguém que escreveu aquelas coisas todas a partir de um lugar privilegiado, de um lugar em que pretende ver a alma humana e o significado da vida e passar essa experiência pro leitor. A seriedade do intelectual numa escritura, a ética nas entrelinhas mostrando pra um rumo definido pela conquista de uma consciência.  Gostei de ler e a cada pausa dessa leitura a minha melhor alegria foi de saber que existem pessoas  que buscam no seu pensamento e na sua vida um modo delicado de promover a alegria e muitas vezes também a dor pela descoberta da intimidade do ser humano.

Fiquei encantado em descobrir Lunaris, esse lugar que o personagem na sua “ingenuidade”  “pensa” ser único e tão secreto. No mundo existem milhares de “Lunaris”, tantos talvez quantos homens existem na vida. Certamente não foi apenas um aspecto da história e sim, uma revelação. Lembro pois neste instante de tantas “viagens” a esse lugar particular, talvez de todos os seres humanos, esse lugar tão singular em que a única companhia real é a nossa solidão, cheia de tanta felicidade quando apreendemos a ser só.

Que mais eu posso falar de minha leitura?  Que o senhor pode se considerar um privilegiado porque promoveu a reflexão naqueles que leram seu livro? Cada um com sua possibilidade. Cada um sendo invadido no seu momento com palavras, idéias e claro, com aquele ardil do escritor trazendo assuntos de uma seriedade da alma humana, nas entrelinhas de uma história que prende o leitor até o fim.

Um grande abraço e muito grato,

Alberto Herrera
19/11/2007

 

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Amigo Carlos:

Finalmente, encontrei o tempo que julgava necessário para ler Lunaris. Quem disse que o carnaval não traz coisas boas? Aos carnavalescos os blocos, aos que amam ler, os livros. Comprei alguns para a travessia desses dias de repouso, efeito colateral e bem vindo da festa. Sempre fui um leitor constante e de muitos livros. Às vezes, leio dois ou três ao mesmo tempo.

Talvez não seja correto dizer ao mesmo tempo, e sim, ao tempo deles. Se a leitura de um é realizada mais intensamente, em detrimento às dos outros, é porque, o universo desvendado naquela particular obra, por alguma razão magnética, nos atrai com mais força.

Algumas pessoas acreditam na existência de mundos paralelos. Eu, não acredito, tenho certeza. São os livros. Para mim, cada um é um universo e, a chave da sua construção e entendimento é o símbolo mais poderoso com que podemos contar no nosso específico mundo: a palavra.

Nesse sentido, Lunaris é um mundo dentro de um universo e sua idéia, universal. Cada ser humano, seja disso menos ou mais consciente, tem o seu Lunaris. É aquele especial lugar no nosso espírito onde as idéias, os devaneios, as lembranças, os planos e os sonhos nos permitem suportar e compor nossa realidade. E para o qual nos retiramos quando estamos tristes ou alegres ou simplesmente desejamos examinar a vida.

Um sociólogo mexicano, Ortega y Gasset, disse: Eu sou eu e as minhas circunstâncias. Quem, dentre nós, em algum momento, não desejou, para o seu viver, outras circunstâncias? Para mim, Lunaris pode ser isso. Um universo paralelo onde podemos viver e contracenar com outros personagens construídos pelo nosso imaginário e pelos arquétipos presentes na vida. E onde podemos brincar com a fantasia. Mas sempre conscientes que aquele é um lugar para momentos especiais. Um porto. Um lugar de refúgio. Mas não destinado à fuga.

Como disse antes, sou um leitor ávido. Esperei ter tempo suficiente para ler Lunaris, pois não desejava saboreá-lo como um gourmand e sim como um gourmet. A razão disso? Como dito, já li milhares de livros. Nunca antes um onde detenho a amizade e mesmo alguma intimidade com o autor. Esse fato trouxe-me alguma inquietação. E se eu não gostar, pensava eu. E se o livro não me atrair? Como dizer isso a Carlos? Como já dei a transparecer, tenho uma teoria de que os livros e as pessoas são magnetos. Às vezes se atraem. Às vezes se repelem. Quantas vezes entrei numa livraria e sem conhecer o autor ou o conteúdo, fui atraído por um livro de modo instintivo e o adquiri. Poucas vezes me decepcionei.

Posso então dizer-lhe que Lunaris tem capacidade de atração. E é um prazer ler uma obra quando conhecemos algo da vida do autor e podemos discernir, aqui e ali, alguns traços de sua biografia e de suas inquietações. E também, nas entrelinhas, a contenção, o medo de, sendo muito óbvio, revelar mais de si, que o pretendido. Apesar de Alberto afirmar ter “alguma habilidade na arte de mascarar informações, colocar pistas falsas”.

E por falar em entrelinhas, elas devem estar presente nas obras que pretendam possuir qualidade literária. O autor, como diz Alberto deve estar ciente “de que guarda um segredo na manga”. Eu também me dou ao luxo de imaginar que tenho a minha carta na manga. A de, em algum nível, saber ler nas entrelinhas. E de vez em quando, utilizá-la.

Um abraço do amigo

Mario Galrão

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Caro profº Carlos Ribeiro,

Hoje terminei de fazer a leitura de Lunaris. Levei três dias lendo e achei o romance fantástico. A história é envolvente e fascinante que nos prende até as últimas palavras do último “capítulo”.

Fiquei muito pensativo com o desfecho da narrativa, pois considero que no finalzinho o personagem dá um salto na história e vem parar numa situação comovente, num labirinto sem fim e que nos deixa angustiado. Não sei se esse foi um dos seus objetivos, mas lhe confesso que foi assim que me senti.

Percebi as críticas feitas, talvez nas entrelinhes, à sociedade. “Compreendi” o psicológico e a luta incessante de Alberto, mas juro que não pretendo ser um dia Alberto… (risos). Apesar de muitas vezes, no decorrer da leitura, e talvez esse o meu medo, me comparei a ele e achei em nós pontos em comum, principalmente em relação às idéias que transcende o eu. Um susto!

Então… têm poucos minutos que terminei de ler e juro ter ficado um pouco perplexo. Realmente a história me envolveu e me deixou pensativo.

Qual o intuito afinal de Alberto? Quem é Alberto? Também um habitante de Lunaris? Onde fica Lunaris? O que seria essa tsunami? Quem seria Beatriz? E os leões? …???

Pretendo emprestar Lunaris para parentes e amigos, pois o achei ótimo e vejo a necessidade de repassá-lo na busca das diversas interpretações que nos são concedidas ao “finalizar” (se é que posso dizer que teve um fim). Talvez essa dúvida, que para mim têm várias interpretações, fique tão nítida quanto se Capitu traiu ou não Bentinho… (risos).

Abraço,

do aluno e amigo

Elton Vitor Coutinho

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Lunaris foi um presente incrível! Lê-lo foi um prazer maior que o que normalmente extraio de leituras outras. Confundia-me às vezes por não saber se Alberto era um personagem ou alguém que conheço muito bem.

(…)

O livro do senhor veio às minhas mãos justo num momento em que eu levava a cabo a morte de alguns de mim, ou melhor, quando a morte era eminente depois da decisão, não muito consciente – a consciência veio com as horas de burracheira e com os exemplos e palavras que dos mestres do Serenita eu recebia – de que deveria ser um. E Lunaris foi como um amigo me instruindo, um mestre me guiando. Não quero classificar Lunaris de literatura de auto-ajuda – nem tenho autoridade para classificá-lo de forma alguma -, mas no meu caso, não posso negar que o livro me ajudou muitíssimo. Se não fosse pelo fato de o Senhor não me conhecer no momento que escreveu o livro, eu, com a licença da pretensão, diria que foi escrito para mim.

Não vou narrar todas as coincidências que me levaram a admitir que a leitura de Lunaris foi uma experiência quase que transcendental, mas vou contar sim que o tema do livro e os dilemas de Alberto são os que carrego comigo desde há muito – o que deve ter sentido muitos dos leitores do livro. Vou contar também que antes de terminar o livro, na noite que antecedeu a leitura das últimas páginas, sonhei com uma onda grande que vinha do mar e engolia umas pessoas numa praia onde eu assistia a tudo num misto de choque e paz, ao amanhecer, e ao final do livro, “reencontro” uma onda que fazia desaparecer e aparecer gente, no livro.  Outra coincidência: dias antes de começar a ler Lunaris, escrevi um texto em que a lua era o símbolo da resistência, que ainda sentia em mim, contra ter que “matar” quem esteve comigo tanto tempo, contra ter que ser um,  ter de ser melhor. Tudo isso, essas “evoluções”, são processos doloridos e solitários, por isso, a companhia de literaturas como Lunaris é algo muito bem vindo. Ao menos foi para mim, e, acredito, foi e será para um montão de gente.

Eu li o livro no domingo e na segunda, depois de ganhá-lo, no sábado, de suas mãos, e se não escrevi antes para lhe dizer o que lhe digo agora, foi por estar muito ocupado na morte de um de mim, o que foi concluído ontem à noite. Obrigado. Ah, adorei o final, a nova mulher que surge sem deixar claro se era outra ou se era os olhos de Alberto que, agora, enxergavam melhor a beleza da mesma mulher que sempre esteve ao seu lado. Muito Legal! Parabéns.

Carlos Vianna Júnior

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Querido amigo Carlos Ribeiro,

Que maravilha terminar 2007 lendo seu excelente LUNARIS ! A minha melhor leitura do ano.

Há muito tempo não me sentia tão dentro de um livro, e não apenas pela ambientação, Salvador que se perdeu e que se perde a cada manhã. Assim como Bogotá, Recife, Guatemala, etc…

Fui criado entre o Santo Antônio Além-Carmo e Conceição do Jacuípe (sou bisneto do Coronel Mamede), dá pra vc. imaginar o quanto teu livro é importante para mim.

Você escreveu muito do que venho pensando há anos sobre nossa cidade e outras cidade que tenho visitado.

Mas, LUNARIS não é só isso, é muito mais. E espero escrever um pouco sobre ele, ampliando a legião de admiradores do seu fazer literário.
Abraços do amigo, talvez, um caminhante de LUNARIS.

Damário Dacruz

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