Livros: Literatura à Baiana

KÁTIA BORGES*

20/07/00 – A Tarde Caderno 2

Dois autores baianos, de estilos e trajetórias diversas, lançam novos trabalhos, no próximo dia 26, na Academia de Letras da Bahia, das 18 às 22 horas. Além de pertencerem à chamada Geração 80, Carlos Ribeiro e Gláucia Lemos têm em comum o fato de publicarem via selo Letras da Bahia (leia-se Secretaria da Cultura e Turismo). Os dois livros, porém, não podem ser considerados em conjunto, pois guardam aspectos distintos e várias peculiaridades.

O de Gláucia, mais conhecida por incursões no universo da literatura infanto-juvenil, traz ilustrações de Jader Resende e uma bela capa, reproduzindo pintura de Lygia Milton. O tema remete ao onírico e à fictícia cidade de Luaral, um local imaginário no qual o lírico e o lúdico orquestram as emoções. A ação transcorre mais intimamente do que no terreno do real, do encadeamento de fatos e/ou capítulos. Por vezes, o leitor pega-se sem saber exatamente o que está lendo, qual o fio condutor de tudo aquilo, no suceder das luas e das páginas.

O de Carlos Ribeiro, com uma ilustração do quadro A Resposta Imprevista, de René Magritte, e a sedutora epígrafe “Calmo é o fundo do meu mar; quem adivinharia que esconde monstros brincalhões!”, de Nietzsche, propõe quase o oposto. No lugar de levar a uma abstração, põe a emoção do leitor a galope, conto após conto, invadindo uma seara que é, ao mesmo tempo, a do fantástico e a do real, no que ele tem de violento e cruel. Como se, por características que agridem o que é essencialmente humano, em nós e no próximo, fosse rompido um acordo com o aceitável.

Assim acontece nos contos A Mão, Os Mortos Precisam Falar e As Vozes no Corredor. A violência leva à transposição dos limites do normal, em sua anormalidade. O autor, que já teve sua forma de escrever comparada à de Jorge Luís Borges, não deixa fácil para o leitor. Sua prosa traz uma urdidura sólida, que envolve e desmonta. Os finais são surpreendentes, não por uma reviravolta inesperada na trama, mas por uma quebra de sentido que joga o leitor para dentro de si mesmo e para fora da ação e da situação proposta.

Se a produção do selo Letras da Bahia é considerada, por vezes, irregular, favorecendo à publicação de livros abaixo da média (literariamente falando), não há como desconsiderar a imensa contribuição que o mesmo dá, efetivamente, ao limitadíssimo mercado editorial baiano. Que o digam os leitores de Gláucia e Carlos Ribeiro, que, certamente, estariam privados desses lançamentos não fosse o incentivo da Secretaria da Cultura e Turismo e do Governo do Estado. A César o que é de…

*Kátia Borges é jornalista e escritora.

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